Porsche do Bill Gates: conheça modelo esportivo que fez magnata acumular 13 anos de multas e alterar legislação dos EUA; imagens

 

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No auge da revolução dos computadores domésticos, em 1988, o cofundador da Microsoft, Bill Gates, não estava apenas construindo um império do software. Discretamente, também alimentava a paixão por um dos supercarros mais avançados já produzidos: o Porsche 959 Komfort.

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Avaliado em US$ 225 mil à época (R$ 1,17 milhões, na cotação atual) e produzido em tiragem limitada de cerca de 300 unidades de rua, o modelo era um laboratório sobre rodas, equipado com motor biturbo, tração integral e tecnologias inspiradas no automobilismo do Grupo B. Havia apenas um obstáculo: os Estados Unidos não o aceitavam.

Produzido em tiragem limitada de cerca de 300 unidades de rua, o Porsche 959 era um laboratório sobre rodas

Divulgação: Porsche

Ao tentar importar o veículo, Gates viu o carro ser apreendido quase imediatamente pela alfândega americana. O motivo era direto: o modelo nunca havia sido certificado para atender às exigências de segurança e emissões dos EUA. Para adequá-lo ao mercado americano, a fabricante precisaria submeter várias unidades a testes de colisão e a um caro processo de certificação ambiental — algo inviável diante da produção limitada.

Para a maioria dos compradores, o episódio encerraria a história. O carro seria revendido no exterior e o sonho, abandonado. Gates, porém, decidiu insistir.

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Visão lateral do Porsche 959, de 1988

Divulgação: Porsche

O 959 ficou retido em um armazém alfandegado e passou a acumular multa diária de US$ 28. O que era um dos automóveis mais avançados do mundo tornou-se refém da burocracia. Ao longo de 4.745 dias — mais de 13 anos —, o empresário pagou cerca de US$ 133 mil em taxas de armazenamento.

O modelo justificava a insistência. Equipado com motor 2.85 litros de seis cilindros opostos e dois turbocompressores sequenciais, entregava cerca de 444 cavalos de potência — número impressionante para o fim dos anos 1980. Tinha suspensão com altura ajustável, rodas de magnésio, painéis de carroceria reforçados com Kevlar e um sofisticado sistema de tração integral, capaz de distribuir dinamicamente o torque entre os eixos.

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Em uma época em que muitos supercarros eram temperamentais e difíceis de conduzir, o 959 combinava desempenho extremo e usabilidade. Acelerava de 0 a 96 km/h em menos de quatro segundos e atingia cerca de 317 km/h, tornando-se, por um período, o carro de produção mais rápido do mundo.

Nada disso, contudo, sensibilizou os reguladores americanos.

Enquanto as multas se acumulavam, uma articulação silenciosa ganhava força nos bastidores. Gates e outros entusiastas passaram a defender a criação de um mecanismo legal que permitisse a importação de veículos raros, historicamente ou tecnologicamente relevantes, mesmo sem certificação federal completa. O argumento era que automóveis como o 959 seriam dirigidos esporadicamente, preservados com cuidado e não representariam ameaça significativa à segurança ou ao meio ambiente devido à baixa quilometragem anual.

A virada ocorreu em 2001, quando o governo dos EUA revisou as regras de importação e criou a chamada “Show or Display”. A nova norma passou a autorizar a entrada de veículos considerados de importância histórica ou tecnológica, com uso restrito — geralmente limitado a 2.500 milhas por ano.

O Porsche 959 se enquadrou imediatamente.

Após quase cinco mil dias em limbo, Gates finalmente recebeu as chaves do carro comprado mais de uma década antes. O que começou como a aquisição de um supercarro transformou-se em uma longa disputa contra a inércia regulatória.

A história carrega uma ironia evidente: um dos maiores visionários da era digital, responsável por acelerar a comunicação e os negócios globais em ritmo exponencial, ficou por mais de 13 anos à mercê da burocracia automotiva. Enquanto o Vale do Silício avançava em microssegundos, Washington operava em décadas.

No fim, prevaleceu a persistência.

Hoje, o Porsche 959 é reconhecido como um dos supercarros mais importantes já construídos, precursor direto de tecnologias presentes nos modernos esportivos de tração integral e hipercarros. A longa espera de Gates transformou o episódio americano do modelo de um caso de frustração regulatória em uma vitória silenciosa — marcada por paciência, estratégia e, sobretudo, insistência.