Por que Van Gogh odiava 'A noite estrelada', um de seus quadros mais célebres?
Vincent van Gogh chegou ao sanatório de Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, no sul da França, em 8 de maio de 1889, após vários episódios de crises nervosas e depois do incidente em que mutilou parte da orelha em Arles. Seis semanas depois, começou a pintura que, décadas mais tarde, se tornaria uma das obras mais reconhecidas da arte ocidental: "A noite estrelada".
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A imagem de redemoinhos azuis e estrelas intensas não surgiu em um estúdio convencional nem diante de uma paisagem ao ar livre: ela nasceu durante sua estadia no sanatório, onde o artista permanecia sob supervisão médica. Embora ocupasse um quarto no segundo andar, Van Gogh pintou "A noite estrelada" em seu ateliê no térreo, durante o dia, baseando-se em observações e esboços.
Segundo a Encyclopaedia Britannica, o artista descreveu em cartas ao seu irmão Theo “a estrela da manhã” visível ao amanhecer durante o verão de 1889. Essa visão serviu como ponto de partida para a composição da obra, embora vários elementos do cenário final não existissem realmente diante de sua janela.
"A noite estrelada", de Van Gogh, no MOMA, em Nova York
Reprodução/Instagram
O Museu de Arte Moderna (MOMA), em Nova York, atualmente conserva a pintura e documentou que Van Gogh trabalhou na obra durante sua internação voluntária. O historiador Richard Thomson explica que Van Gogh costumava pintar diretamente aquilo que observava. Embora tivessem proibido que ele pintasse em seu quarto, ele pôde fazer esboços. Depois, em seu ateliê no térreo, realizava as obras finais combinando essa observação direta com os esboços e sua imaginação.
Para "A noite estrelada", Van Gogh realizou não menos de vinte e uma variações da vista da janela de seu quarto antes de pintar esta versão final.
A análise do MOMA sustenta que ele combinou observação astronômica (especialmente de Vênus, visível ao amanhecer), memória de múltiplos esboços e recursos simbólicos para construir uma imagem mais emocional do que puramente documental. A vila visível na pintura, por exemplo, foi inventada com base em um esboço feito a partir de uma colina em Saint-Rémy, e não da sua janela.
A carta em que Van Gogh fala de 'um novo fracasso'
Van Gogh não ficou satisfeito com o resultado. O Smithsonian Magazine documenta que essa mistura entre realidade e elaboração imaginativa marcou uma fase complexa da vida do artista.
Van Gogh atravessava episódios de ansiedade, isolamento e dúvidas profundas sobre seu trabalho. A restrição de não poder pintar no seu quarto, somada à sua desconfiança histórica em relação a composições excessivamente imaginativas, o colocou em um conflito interno entre o que ele via e o que ele criava.
Em uma carta ao seu amigo Émile Bernard, no final de novembro de 1889, pouco antes de deixar Saint-Rémy, Van Gogh expressou sua frustração: “Mais uma vez me deixei levar por tentar alcançar estrelas grandes demais: um novo fracasso, e já tive o suficiente”. Ele se referia especificamente a "A noite estrelada" como um “fracasso”, incluindo-a em uma lista de obras que não considerava boas.
Van Gogh via essa busca como uma tentativa frustrada de transmitir emoções intensas por meio da cor e do movimento. O pintor buscava que suas obras expressassem estados emocionais profundos, mas não ficou satisfeito com o resultado final de "A noite estrelada". A avaliação atual da obra contrasta completamente com sua percepção, já que ele não chegou a conhecer a fama que ela alcançaria após sua morte.
