Por que um possível empréstimo de 'Guernica', de Picasso, virou motivo de disputa política na Espanha

 

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Às vésperas de seu 90º aniversário, "Guernica", de Pablo Picasso, tem sido alvo de uma disputa entre diversos atores políticos da Espanha. Tudo começou com um pedido de transferência da pintura feito pelo governo regional basco — onde fica a cidade de Gernika, retratada na pintura — ao Museu Reina Sofía, em Madri, onde ela está exposta. O pedido visa as homenagens às nove décadas do bombardeio na região pela Alemanha nazista e pela Itália fascista, ocorrido durante a Guerra Civil Espanhola em 26 de abril de 1937. O sofrimento humano e a destruição do conflito estão representados nos traços cubistas de Picasso e fazem da obra um dos maiores símbolos artísticos antiguerra do século XX, num importante rompimento com a tradição das pinturas de batalhas heroicas.

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Desde que saiu do MoMA, em Nova York, em 1981, o quadro (de 3,5 m x 7,8 m) nunca foi cedido pelo Ministério da Cultura espanhol por razões de conservação, inclusive diversos "não" foram ditos para o governo basco ao longo de décadas. Mas, segundo o jornal "El País", as lideranças regionais atuais, encabeçadas por Imanol Pradales, do Partido Nacionalista Basco (PNV), acham que o momento é diferente. Por causa da data, pediram a obra por nove meses como um gesto de memória histórica e "reparação simbólica".

No fim de março, Pradales chegou a dizer ao presidente Pedro Sanchéz que "seria um erro político grave fechar a porta para esta questão", visto que seu partido faz parte de um grupo de pequenos partidos regionais que dão apoio ao governo Sanchéz, do Partido Socialista (PSOE).

A chefe do governo regional de Madri, Isabel Díaz Ayuso, do conservador Partido Popular (PP), é o nome mais recente a entrar na discussão. Na segunda-feira (6), ela criticou o pedido: "O que não faz sentido é voltar às origens das coisas apenas quando nos convém, porque então teríamos que levar toda a obra de Picasso para Málaga (onde o pintor nasceu). Acho que é uma atitude provinciana, e acredito que a cultura é universal. Além disso, eles sabem que isso não pode ser feito ou, se for, colocará em risco a integridade da obra de arte."

O ministério da cultura encomendou um novo relatório ao Reina Sofía, algo que já havia sido feito em ocasiões anteriores de pedido de empréstimo. O museu, novamente, desaconselhou a retirada da obra de onde ela está "devido às vibrações inevitáveis que ela sofreria durante o transporte, o que poderia causar novas rachaduras, levantamentos e perda da camada de tinta, além de rasgos", escreveu o jornal espanhol "El País", que questionou Pradales sobre o parecer do museu.

"Não pedimos um relatório sobre o estado de conservação da pintura, já conhecemos sua condição, mas sim um relatório analisando as condições sob as quais seria possível movê-la e realocá-la temporariamente no País Basco", disse ele. "Ainda estamos esperando."

O Ministro da Cultura, Ernest Urtasun, no entanto, considera o assunto encerrado.

"Trabalhamos para melhorar a acessibilidade da cultura e, portanto, saudamos a mobilidade da arte. Mas, como Ministério da Cultura, também temos o dever de preservar nosso patrimônio, e os especialistas sempre desaconselharam a movimentação de 'Guernica' devido ao seu estado delicado de conservação, pois já está muito danificada", disse a equipe do ministro.