Três das startups mais badaladas do setor de robótica hoje têm uma meta em comum: ensinar um robô a dobrar roupa. Figure AI, Sunday Robotics e Weave Robotics mostraram, nos últimos meses, protótipos capazes de realizar a tarefa de forma autônoma, e cada uma delas atraiu rodadas de investimento expressivas para chegar até ali. A Figure AI foi avaliada em US$ 39 bilhões após uma rodada que superou US$ 1 bilhão em setembro do ano passado. A Sunday Robotics, criadora do robô Memo, levantou US$ 165 milhões em março e chegou a US$ 1,15 bilhão de valor de mercado. Já a Weave Robotics, mais nova e mais enxuta, fechou uma rodada seed de cerca de US$ 500 mil e vende seu robô Isaac 1 por US$ 7.999 à vista ou por assinatura de US$ 449 por mês. Para investidores, esse interesse crescente sinaliza que os robôs domésticos podem estar próximos de um salto comercial, segundo o Business Insider. A escolha da lavanderia como primeiro desafio não é acidente. Roupas são o que roboticistas chamam de objetos deformáveis: tecidos que amassam, dobram e enrugam de formas imprevisíveis, o que torna a tarefa um bom teste de destreza e controle físico para um robô. É o que explica a roboticista Ayanna Howard, presidente do Spelman College, em entrevista ao Business Insider. Ao mesmo tempo, o risco de erro é baixo. Segundo Howard, derrubar uma peça de roupa nãocausa grandes prejuízos. Isso importa porque, ao contrário de fábricas e armazéns, ambientes controlados onde os robôs em geral trabalham isolados de pessoas, uma casa é imprevisível, com pets, crianças e obstáculos constantes. Para Matei Ciocarlie, professor de engenharia mecânica da Universidade Columbia, a casa é o ambiente mais desafiador que existe para um robô operar. Concentrar a tarefa em um único canto, como o cesto de roupa suja, permite às empresas testar essa complexidade aos poucos, antes de avançar para tarefas que exigem que o robô se desloque pela casa inteira. Foi essa a lógica, segundo Kaan Dogrusoz, CEO da Weave Robotics, para escolher a lavanderia como ponto de partida do robô Isaac. Uma indústria com histórico de fracassos O setor já viveu ciclos de expectativa frustrada com esse tipo de produto. A japonesa Seven Dreamers Laboratories, criadora do robô de dobrar roupa Laundroid, vendido por cerca de US$ 16,5 mil, pediu falência em 2019 após acumular perto de US$ 20 milhões em dívidas. Outra startup do setor, a FoldiMate, foi apresentada repetidamente na feira CES no fim da década passada, mas nunca chegou a lançar um produto comercial. Os motivos do fracasso foram custo elevado e baixa confiabilidade. As startups atuais argumentam que avanços recentes em inteligência artificial, hardware mais barato e o fluxo de capital e talento para a chamada IA física tornam este ciclo diferente, e potencialmente capaz de ir muito além da lavanderia. "Por muito tempo, a tecnologia simplesmente não existia. Mas agora tudo mudou", disse Dogrusoz ao Business Insider. O teste real, porém, está só começando. Os robôs ainda são caros, poucos foram de fato colocados em residências, e uma peça de roupa pode levar minutos para ser dobrada, com falhas diante de tecidos incomuns. A Sunday Robotics planeja iniciar, neste outono do Hemisfério Norte, um programa piloto que vai colocar o robô Memo em casas de consumidores. A Weave já abriu pré-venda do Isaac 1, com entregas previstas para o mesmo período, e a 1X, dona do robô humanoide NEO, promete começar a entregar unidades ainda este ano. A conta ainda não fecha Ensinar um robô a dobrar roupa é uma prova de conceito. Convencer alguém a pagar por isso é um desafio à parte. O Isaac 1, da Weave, custa US$ 7.999 à vista ou US$ 449 por mês em assinatura, valor que, para a maioria das famílias, ainda supera o custo de terceirizar a tarefa para uma lavanderia ou uma diarista. Por isso, essas empresas já sinalizam expansão para outras funções, embora nem todas no mesmo ritmo. A Sunday Robotics diz que seu sistema está aprendendo a aspirar, organizar brinquedos, fechar zíperes e preparar café. A 1X promove o NEO como um assistente doméstico completo, capaz de organizar prateleiras e arrumar cômodos, além de dobrar roupa. A Weave, por sua vez, preferiu não revelar qual tarefa vem a seguir. Para Howard, o consumidor só deve considerar a compra de um robô doméstico quando ele acumular tarefas suficientes para justificar o preço, como esquentar o jantar antes da chegada dos moradores, cortar grama ou limpar piscina. O obstáculo, segundo o professor de robótica Jason Corso, da Universidade de Michigan, é construir uma única máquina capaz de aprender e se adaptar a esse leque de tarefas, em vez de robôs pensados um a um, o que ele chama de uma "mentalidade de eletrodoméstico" ainda predominante no setor. Colocar robôs em casas reais também serve ao objetivo estratégico de gerar dados. Diferentemente dos modelos de linguagem, treinados com o volume de texto disponível na internet, não existe uma base de dados equivalente para o mundo físico. A Sunday Robotics, por exemplo, treina seus modelos com luvas sensorizadas vendidas a US$ 200, usadas por pessoas fazendo tarefas domésticas cotidianas, réplicas das mãos de seus próprios robôs. Segundo o Business Insider, os dados mais valiosos devem vir dos próprios robôs em operação, ao lidar com os inúmeros casos específicos de cada casa. Um robô doméstico genuinamente multifuncional, o robô-mordomo que o Vale do Silício promete há décadas, ainda está a muitos anos de distância, segundo Corso.
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Por que startups bilionárias apostam em robôs que conseguem dobrar roupas?
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