A associação entre Neuropsicologia e aplicação de testes é comum e também é incompleta. Um instrumento pode ajudar a investigar memória, atenção, funções executivas e outros processos cognitivos. Sozinho, porém, não responde à pergunta que levou o paciente à avaliação, nem explica como os achados se relacionam com sua história, seu desenvolvimento e seu funcionamento cotidiano. Conhecer testes não é o mesmo que saber conduzir uma avaliação neuropsicológica. É dessa diferença que vem a complexidade da formação de quem pretende atuar na área. "Estamos tentando compreender o produto do órgão mais complexo do ser humano. Por isso, uma boa avaliação não pode depender de uma única fonte de informação. É preciso buscar consistência entre relatos, observação do comportamento em diferentes contextos e instrumentos de avaliação", explica Andressa Antunes, psicóloga, mestre em Saúde da Criança e do Adolescente pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), ex-diretora da SBNp (Sociedade Brasileira de Neuropsicologia) e professora da pós-graduação em Neuropsicologia da ABAEDU. O Conselho Federal de Psicologia (CFP), que reconhece a Neuropsicologia como especialidade da Psicologia, descreve a atuação como um campo que vai da avaliação à intervenção, passando por promoção da saúde, prevenção e reabilitação. Em 2023, ao lançar um manual técnico dedicado à especialidade, o Conselho classificou a Neuropsicologia como uma área em ascensão e afirmou que o Censo da Psicologia Brasileira apontava interesse crescente pelo campo. Por que a Neuropsicologia tem ganhado espaço? Parte da resposta está na ampliação dos contextos em que questões relacionadas à cognição precisam ser compreendidas. A Neuropsicologia pode estar presente na investigação de alterações associadas ao desenvolvimento, a condições neurológicas, ao envelhecimento e a diferentes situações clínicas. A especialidade também se aproxima de um público que já é central para boa parte dos profissionais da área: o das condições do neurodesenvolvimento. O funcionamento cognitivo entra na investigação de quadros como o transtorno do espectro autista (TEA), o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e os transtornos de aprendizagem, em que compreender atenção, memória, funções executivas e linguagem faz parte do raciocínio clínico. Para quem já atua com análise do comportamento aplicada e com autismo, a Neuropsicologia costuma aparecer como uma extensão natural de repertório. A especialidade não se limita, portanto, a um único público. O manual do CFP descreve atuação em contextos clínico, hospitalar, escolar e jurídico, com competências relacionadas tanto à avaliação quanto à intervenção neuropsicológica. Esse conjunto ajuda a explicar por que o campo vem atraindo psicólogos. E mostra por que é difícil resumir a atuação à escolha e à aplicação de instrumentos. Onde o teste termina e a avaliação começa Em uma avaliação neuropsicológica, o profissional pode recorrer a testes e a outros instrumentos para investigar determinadas funções. A decisão clínica, porém, depende da integração dessas informações com a história do paciente, entrevistas, observações, contexto e demais dados relevantes para a pergunta investigada. Aqui, o raciocínio do profissional ganha peso. Um resultado abaixo do esperado em uma tarefa não deveria ser interpretado isoladamente: é preciso compreender o que aquela medida avalia, quais variáveis podem interferir no desempenho, se os diferentes resultados convergem e como se relacionam com as dificuldades relatadas pelo paciente. "O teste oferece uma medida obtida em uma situação muito controlada e simplifica aquela habilidade. Avaliar flexibilidade cognitiva em uma tarefa, por exemplo, é diferente de observar como essa flexibilidade aparece quando a pessoa precisa tomar decisões ou lidar com emoções durante um conflito. Por isso, o resultado precisa ser interpretado dentro de um conjunto maior de informações", afirma Andressa. Isso também muda o que se espera de uma boa formação. Aprender características, aplicação e interpretação de instrumentos abre o percurso. Não o encerra. É essa passagem, do resultado à sua interpretação dentro da história e do contexto do paciente, que separa aplicar um teste de conduzir uma avaliação. A Pós-graduação em Neuropsicologia da ABAEDU, em cooperação acadêmica com a PUC Goiás, coloca esse movimento no centro da formação. O que um psicólogo precisa desenvolver para atuar na área? O manual de Neuropsicologia do CFP relaciona a atuação a conhecimentos de neurociências, avaliação psicológica e Psicologia do Desenvolvimento, além de competências necessárias à avaliação e à intervenção. Na prática, a formação envolve diferentes camadas: Processos cognitivos: compreender atenção, memória, funções executivas, percepção e aprendizagem, e como se relacionam com o funcionamento do indivíduo. Formulação de hipóteses: transformar uma queixa ou pergunta clínica em hipóteses que orientem a investigação. Avaliação: selecionar os procedimentos adequados a cada caso, ciente das possibilidades e dos limites de cada instrumento. Integração dos dados: relacionar resultados, entrevistas, observações, história e contexto, em vez de interpretar informações isoladamente. Raciocínio clínico: avaliar hipóteses alternativas e sustentar conclusões compatíveis com as evidências disponíveis. Intervenção: compreender as possibilidades de promoção de saúde, prevenção e reabilitação neuropsicológica. Ética profissional: reconhecer os limites técnicos da atuação e seguir as normas que orientam a prática psicológica. É nessa combinação que uma pós-graduação pode ter mais valor do que a simples apresentação de um repertório de ferramentas. Na ABAEDU, a formação parte da ideia de que rigor científico e prática clínica caminham juntos: o profissional precisa compreender as evidências que fundamentam sua decisão e, ao mesmo tempo, aprender a lidar com casos que raramente chegam ao consultório organizados como aparecem nos livros. Pós-graduação e Registro de Especialista são a mesma coisa? Não. Essa distinção costuma aparecer quando o psicólogo começa a planejar sua trajetória na área. A Neuropsicologia é uma das especialidades reconhecidas oficialmente pelo CFP, mas o Registro de Especialista não é obrigatório para o exercício profissional. Ele atesta formalmente o reconhecimento da atuação do psicólogo naquela especialidade e é concedido pelo Conselho Regional de Psicologia. Para solicitar o registro, o profissional precisa cumprir requisitos cumulativos: estar inscrito no Conselho Regional de Psicologia há pelo menos dois anos; comprovar no mínimo dois anos de exercício profissional na especialidade; e comprovar conhecimento teórico-metodológico na área. Para o terceiro requisito, o CFP prevê dois caminhos: concluir curso de especialização ofertado por instituição de ensino superior credenciada, nos termos da legislação educacional, ou ser aprovado em prova de especialista promovida pelo próprio Conselho Federal de Psicologia. Ou seja: uma pós-graduação pode cumprir a etapa de comprovação do conhecimento teórico-metodológico, desde que atenda às condições previstas, sem eliminar os demais requisitos para a concessão do registro. A especialização oferece formação e pode integrar o caminho formal para o registro; a experiência clínica precisa ser construída na prática. Formação ganha importância onde o protocolo deixa de responder sozinho É possível aprender como um instrumento funciona, conhecer suas regras de aplicação e entender o que determinado escore representa. A prática clínica fica mais complexa quando essas informações não contam a mesma história. O paciente pode apresentar uma queixa que não aparece com a mesma intensidade durante a avaliação. Dois resultados podem parecer contraditórios. Um desempenho pode ser influenciado por fatores que precisam ser considerados antes de qualquer conclusão. Nesses momentos, repertório teórico, experiência e raciocínio clínico deixam de ser complementos e passam a definir a qualidade da análise. Foi em torno desse desafio que a Pós-graduação em Neuropsicologia da ABAEDU, em cooperação acadêmica com a PUC Goiás, reuniu seu corpo docente: mestres e doutores atuantes em clínica e pesquisa, vários deles em cargos de direção, atuais ou passados, na Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBNp), como a própria Andressa Antunes. São profissionais que levam para a formação o raciocínio clínico construído na prática, a camada que os instrumentos, sozinhos, não ensinam. Para quem considera a Neuropsicologia uma nova frente de atuação, mais do que saber quais testes aprenderá em uma especialização, é importante fazer a seguinte pergunta: quando os resultados aparecerem, você terá repertório para entender o que eles significam para aquela pessoa? Conheça a formação Saiba mais sobre a Pós-graduação em Neuropsicologia da ABAEDU, em cooperação acadêmica com a PUC Goiás: proposta de formação, estrutura curricular e condições de ingresso. CONHEÇA A PÓS-GRADUAÇÃO EM NEUROPSICOLOGIA Conheça também a ABAEDU, instituto da Faculdade Península, abaedu.com.br.
Por que saber aplicar testes não basta para atuar com Neuropsicologia
Fonte da notícia:
O Globo
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