Por que Raquel Villar tenta fugir do que já deu certo? Atriz fala sobre risco, escolhas e novos personagens na carreira - QTU Questões do Universo

Por que Raquel Villar tenta fugir do que já deu certo? Atriz fala sobre risco, escolhas e novos personagens na carreira

Fonte: Bandeira da fonte

Raquel Villar vive um momento em que diferentes caminhos da atuação parecem se encontrar.
Entre cinema independente, uma série inédita e uma produção já consolidada pelo público, a atriz se prepara para aparecer em personagens que pouco têm em comum entre si.
Em "Emergência 53", do Globoplay, interpreta Vanessa, uma profissional de enfermagem que atua em uma base móvel de urgência.
Na sétima temporada de "Impuros", do Disney+, entra em um universo já conhecido da série.
E "Uma Baleia Pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba", dirigido por Marina Meliande e Felipe M.
Bragança, segue circulando por festivais nacionais e internacionais.
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Mais do que uma coincidência de calendário, Raquel vê essa diversidade como resultado de escolhas que vem fazendo ao longo da carreira.

"Eu acho que esse momento representa as escolhas que eu fui fazendo pelo caminho, desejando chegar nesses projetos, fazer filmes autorais como esse da Baleia, ou uma personagem supercomplicada pela carga dramática, como foi fazer essa personagem da próxima temporada de Impuros", explica ao GLOBO.

Raquel Villar está em três produções e busca personagens que a tirem da zona de conforto
Alexander Malecki
Para ela, a vontade de não repetir caminhos conhecidos é também uma forma de continuar se descobrindo profissionalmente.
"Acreditar no risco, eu ainda preciso exercitar isso mais", afirma.
A atriz conta que nem sempre é simples recusar personagens semelhantes aos que já funcionaram, especialmente em uma profissão marcada pela incerteza: "Quando finalmente chegam, querem te colocar naquilo que você já fez uma vez e funcionou, mas eu preciso dizer não.
Eu tento fugir desse caminho."
Parte dessa independência, segundo ela, foi construída durante os oito anos em que viveu em Berlim.
Longe do circuito brasileiro, Raquel trabalhou na cena independente, em diferentes teatros e ao lado de artistas de várias nacionalidades.
Também atuou em alemão.
"Acho que ter saído do Brasil por um tempo me ajudou a me enxergar mais como uma atriz independente, e não só uma atriz dependente dos grandes empregadores", comenta.
A experiência em Berlim, diz, continua sendo um caminho aberto.
"Eu diria que já vivi uma trajetória artística nos meus oito anos morando em Berlim, mas foi na cena independente, nada grandioso, de muitos holofotes.
Para mim, foi muito enriquecedor artisticamente.
Minha cabeça foi para lugares que eu nunca imaginei acessar", avalia.
Hoje, a possibilidade de trabalhar em outros países continua no horizonte, mas sem uma busca específica por um mercado ou por projeção internacional: "Independentemente do país ou da cultura, busco por personagens verdadeiros, que não são propagandas de algum momento, e sim histórias únicas, como cada um de nós tem."
Raquel Villar aposta no risco para fugir de personagens que já fez
Le Quyen Nguyen
Em "Emergência 53", essa busca a levou para um território especialmente próximo de sua história familiar.
A avó de Raquel foi enfermeira e cuidadora de idosos, enquanto a mãe é instrumentadora cirúrgica.
O universo da saúde, portanto, não era completamente estranho para a atriz antes de assumir Vanessa.
Quando soube da série, voltou a acompanhar a mãe em cirurgias para observar de perto o trabalho que já fazia parte de sua vida.
"Foi tão bonito, pois, pela primeira vez, enxerguei minha mãe diferente, enxerguei ela através da profissão dela e fiquei muito orgulhosa, vendo a importância dela naquele ambiente e as responsabilidades que ela tem dentro desse trabalho, que começa bem antes de a cirurgia começar e também não termina quando a cirurgia acaba", recorda.
A preparação também ajudou Raquel a entender as particularidades da personagem.
Vanessa trabalha em uma base móvel de urgência, onde as decisões precisam ser tomadas em situações que escapam da estrutura de um hospital.

"Com o tempo, você vai aprendendo a ter muito controle de si para poder executar um atendimento de urgência com eficácia, em situações extremas que estão fora do controle hospitalar.
Você é treinado para isso.
São profissionais que sabem muito bem o que estão fazendo e não têm muita margem para erros."
Raquel Villar busca personagens que a tirem da zona de conforto
Laura Campanella
Se "Emergência 53" apresentou um universo novo, entrar em Impuros significou chegar a uma produção cuja identidade já estava estabelecida.
Raquel descreve a experiência como uma das mais acolhedoras de sua trajetória.
"Nunca fui tão bem recebida em um projeto em toda a minha vida.
Eles são, de fato, uma família", destaca.
A atriz trabalhou com os três diretores da temporada e diz ter encontrado liberdade para construir sua personagem.
"Não era uma personagem fácil, mas sentir essa animação e o apoio da direção foi fundamental pra eu poder entregar boas cenas.
Pelo menos, na hora, eu sentia que tínhamos feito boas cenas.
Eu saía acabada e contente", acrescenta.
Bruno Gagliasso, com quem divide cenas, também aparece entre os parceiros que marcaram a experiência: "Foi um superparceiro de cena também, aberto, e eu fui recíproca.
Entrei nesse barco e fui muito feliz."
No cinema, a relação é outra.
"Uma Baleia Pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba" já passou pelo Festival do Rio e pela Mostra de Tiradentes, além de seguir em circulação por festivais nacionais e internacionais.
Para Raquel, a experiência foi marcada tanto pelo trabalho quanto pelo vínculo criado entre os cinco atores do elenco.
"Cinema é sempre uma experiência mais crítica pra mim, pois tudo é aumentado mil vezes naquela tela gigante.
É um sonho", define.
Durante as filmagens, o grupo ensaiou músicas inéditas de uma escola de samba pequena que havia falido.
Quando as gravações terminaram, a sensação foi de que o encontro ainda não tinha chegado ao fim.

"Quando terminou, ninguém queria que acabasse.
Ficamos prometendo uns para os outros que formaríamos um grupo de teatro, uma trupe de cinema, algo assim.
Acho que a história do filme bateu na gente de forma inconsciente e nós também não queríamos que o nosso encontro chegasse ao fim.
Fiz grandes amigos", lembra.
Raquel Villar conta como oito anos em Berlim mudaram sua visão sobre a carreira
Divulgação
Entre os trabalhos que ficaram para trás, há um que Raquel identifica como divisor de águas: "DOM".
Interpretar Jasmin fez com que ela revisitasse a própria maneira de construir uma personagem.

"Era um projeto de grande repercussão, e a construção da Jasmin não foi simples, porque eu não queria seguir o caminho mais óbvio da personagem.
Ao mesmo tempo, existia uma expectativa muito grande em torno dela.
Foi um período que me fez refletir muito sobre o meu próprio processo de criação", reflete.
Esse processo também passa pelo trabalho de outros artistas.
Raquel conta que costuma acompanhar atrizes que despertam sua atenção como uma espécie de exercício.
Sandra Hüller foi uma delas.
Depois de assistir a "Anatomia de uma Queda", passou a procurar outros filmes da atriz.

"Eu fui assistir sozinha no cinema a Anatomia de uma Queda e saí de lá chocada.
Depois vi Zona de Interesse, também com ela, e pronto, comecei a ver todos os filmes que ela fez.
É uma espécie de estudo", comenta.
Hoje, Samantha Morton ocupa esse lugar de interesse.
Fernanda Montenegro é uma referência à qual ela retorna.
E há ainda diretores e dramaturgas que fazem parte desse repertório de admiração.
"Ou grandes escritoras.
Bons textos são grandes encontros também", pontua.
Escolher personagens diferentes também significa se colocar diante de novos encontros.
"Trabalhamos com nós mesmos, escavando diferentes poços para entregar algo verdadeiro", conclui.