Por que os ricos e poderosos não conseguiram dizer 'não' a Jeffrey Epstein?
Um dos momentos mais simbólicos da política americana em 2019 — o depoimento de Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, à Câmara dos Representantes — ganhou novo significado anos depois. Enquanto se preparava para interrogar Cohen, a deputada democrata Stacey Plaskett foi flagrada trocando mensagens no celular. Em novembro de 2025, veio à tona a identidade do interlocutor: Jeffrey Epstein.
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E-mails divulgados por ordem judicial, a partir do espólio do financista, indicam que Epstein incentivou Plaskett a investigar um funcionário da Organização Trump. Após a pergunta ser feita, ele respondeu com um “Muito bem”. A congressista afirmou que não buscava aconselhamento e disse ter trocado mensagens com diversas pessoas naquele dia, incluindo eleitores. Sustentou ainda que a conversa ocorreu antes da prisão de Epstein por tráfico sexual — o que os registros contradizem, já que a troca aconteceu anos depois da condenação de 2008 por solicitação de prostituição.
O episódio reacendeu um debate mais amplo: como Epstein conseguiu preservar acesso a círculos de poder mesmo após condenações e reportagens que detalharam abusos sexuais, inclusive em sua ilha nas Ilhas Virgens. Seis meses após a conversa com Plaskett, Epstein morreu na prisão; o legista concluiu suicídio, decisão que alimentou teorias da conspiração e precipitou um acerto de contas político e financeiro.
As mensagens de Plaskett são apenas parte de um acervo com mais de 20 mil páginas divulgado no fim de 2025. A esse conjunto somaram-se, recentemente, milhões de arquivos publicados pelo Departamento de Justiça dos EUA — três milhões de páginas, 180 mil imagens e 2 mil vídeos — que, até agora, reforçam a permanência de laços com pessoas influentes de diferentes áreas.
Para Barry Levine, autor de The Spider: Inside the Criminal Web of Epstein and Ghislaine Maxwell, Epstein se via como um “colecionador de pessoas”. “Ele mantinha conexões com objetivos transacionais — favores, investimentos e, em alguns casos, chantagem”, disse. Segundo o jornalista, o financista combinava carisma com domínio técnico de finanças e tributação, o que ampliava sua utilidade para interlocutores poderosos.
O alcance da rede aparece em nomes diversos. No Reino Unido, a relação de Epstein com Peter Mandelson entrou em foco após a renúncia do ex-diplomata à Câmara dos Lordes, depois de se tornar pública uma investigação policial sobre suposto acesso indevido a informações confidenciais. Documentos do Congresso americano indicam que Mandelson manteve contato com Epstein até 2016. Ele nega conhecimento dos crimes e diz se arrepender do vínculo.
Nos Estados Unidos, o ex-secretário do Tesouro Larry Summers foi exposto por mensagens em que pedia conselhos pessoais a Epstein, inclusive após reportagens investigativas terem sido publicadas. O caso levou Summers a se afastar de compromissos públicos. Já o linguista Noam Chomsky reconheceu encontros ocasionais e afirmou ter entendido que Epstein “cumprira sua pena”, argumento criticado por especialistas à luz das evidências posteriores.
Nem todos mantiveram os laços. Trump afirma que rompeu com Epstein no início dos anos 2000 e nega qualquer conhecimento dos crimes; as vítimas não o acusaram. A Casa Branca diz que Epstein foi expulso de seu clube “décadas atrás”. Ainda assim, Trump é citado centenas de vezes nos novos documentos, o que mantém o tema no centro do debate público.
Há, também, contradições. Howard Lutnick, hoje secretário de Comércio, declarou ter cortado relações após um encontro em 2005 que considerou “repugnante”. E-mails revelados, porém, indicam o planejamento de uma visita à ilha de Epstein em 2012. Um porta-voz afirmou que Lutnick nunca foi acusado de crimes relacionados ao caso.
