Por que o termo 'mãe de pet' ainda divide opiniões

 

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Com a chegada do Dia das Mães, uma expressão volta a ganhar força nas redes sociais e nas conversas do cotidiano: "mãe de pet também é mãe". O termo, amplamente usado para descrever o vínculo afetivo com animais de estimação, ainda divide opiniões. Enquanto parte das pessoas o vê como uma forma legítima de expressar cuidado e afeto, outras questionam se a comparação não dilui as diferenças entre a maternidade humana e a relação com os animais.

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Apesar do debate, estudos recentes apontam que o vínculo entre pessoas e pets tem se tornado cada vez mais profundo e estruturado no cotidiano das famílias. Hoje, os animais ocupam um papel central na dinâmica doméstica, participando da rotina, de viagens, celebrações e sendo percebidos, em muitos casos, como parte essencial do núcleo familiar.

Pesquisas como as de Lawson (2025) e Volsche (2018) indicam que indivíduos que se identificam como "mães" ou "pais" de pet frequentemente constroem uma identidade baseada no cuidado e no vínculo emocional. Já estudos de Laurence & Simpson (2017) mostram que até mesmo pessoas com filhos humanos podem desenvolver sentimentos maternais direcionados aos animais de estimação.

A psicoterapeuta e pesquisadora da University of Saskatchewan, no Canadá, Renata Roma, especialista nas relações entre humanos e animais, explica que essa conexão envolve respostas emocionais reais e consistentes.

"Para muitas pessoas, os animais representam companhia, acolhimento e uma fonte importante de afeto. Isso não significa substituir relações humanas, mas reconhecer que o vínculo com os animais também pode despertar sentimentos de cuidado muito intensos", afirma.

Segundo ela, o uso da expressão"mãe de pet" não implica necessariamente uma confusão de papéis. "As pesquisas mostram que a maioria das pessoas compreende perfeitamente as diferenças entre cuidar de um animal e cuidar de uma criança. O termo costuma funcionar mais como uma expressão afetiva e identitária do que como uma tentativa de equiparar experiências", diz.

Ao mesmo tempo, especialistas destacam a importância de diferenciar vínculo emocional de humanização excessiva. Estudos de Volsche (2018) e Barina Silvestre & Videla (2024) apontam que desequilíbrios podem surgir quando as necessidades humanas passam a se sobrepor às características naturais dos animais.

Para Renata, o ponto central está no bem-estar do pet. "O problema não está na nomenclatura, mas na forma como o animal é tratado. Vestir o pet de maneira desconfortável, ignorar sinais de estresse ou forçar situações apenas para atender expectativas humanas pode ser prejudicial", explica.

A pesquisadora reforça que uma convivência saudável depende do equilíbrio entre afeto e respeito às especificidades de cada espécie. "O cuidado verdadeiro envolve reconhecer o animal pelo que ele é, entendendo seus limites, linguagem e necessidades específicas", completa.

O que está por trás do termo 'mãe de pet'

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Além da dimensão emocional, o crescimento das chamadas famílias multiespécies também vem sendo observado por pesquisadores. O conceito descreve lares em que os animais são integrados de forma ativa à rotina, participando de momentos de lazer, decisões familiares e celebrações do dia a dia.

Outro ponto levantado pelos estudos é que o uso do termo "mãe de pet" varia conforme o contexto social. Algumas pessoas evitam a expressão por receio de julgamentos, enquanto outras preferem não adotar termos como "filho de quatro patas", por entenderem que isso pode reforçar uma humanização excessiva.

Ainda assim, especialistas são unânimes ao afirmar que não há evidências de que o uso da expressão, por si só, seja prejudicial aos animais. O fator determinante continua sendo a qualidade da relação estabelecida.

"O mais importante é perguntar: as necessidades do animal estão sendo respeitadas? Existe espaço para ele agir como animal? Quando o vínculo é baseado em respeito e cuidado genuíno, a relação tende a ser positiva tanto para os humanos quanto para os pets", completa Renata.