Por que o presidente do Líbano teme que o sul país seja destruído como Gaza? Entenda conversa com Israel

 

Fonte:


No último domingo (5), o presidente do Líbano, Joseph Aoun, fez um pronunciamento televisionado no país em que demonstrou a sua preocupação sobre uma possível destruição de casas e da estrutura civil do sul do país por Israel. Desde o início da guerra no Irã, os militares comandados por Benjamin Netanyahu estão fazendo ataques contra o grupo armado Hezbollah, aliados dos iranianos que ficam no sul do Líbano.

Escalada da guerra: Trump chama plano de paz com o Irã de 'passo significativo' mas insuficiente após Teerã rejeitar cessar-fogo temporário

Entenda: Irã diz que resgate de piloto dos EUA pode ter sido fachada para 'roubar urânio enriquecido'

"É verdade que Israel pode querer fazer no sul do Líbano o que fez em Gaza", ressaltou o presidente, que também é militar e comandava o exército do país até sua eleição, em 2025.

A preocupação tem fundamento, já que o próprio ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, já afirmou que o sul da capital Beirute logo ficariam parecidos com Khan Yunis", em referência a uma cidade da Faixa de Gaza, onde mais de 70 mil pessoas já morreram com os ataques de Israel.

Aoun também alertou para uma nova crise de refugiados, como também aconteceu com os palestinos, que poderia vir na sequência da guerra.

""Alguns perguntaram sobre negociação: 'O que ganharemos com a negociação?'. E eu pergunto: 'O que ganhamos com a guerra?'. Negociação não é concessão e diplomacia não é rendição, e nossos contatos continuam para impedir a matança e a destruição", afirmou.

Além das ameaças, a preocupação se torna ainda maior quando observados os procedimentos que Israel está tomando em relação ao sul do Líbano, parte do país com que faz fronteira, inclusive com incursões por terra. Muitas delas são parecidas com o que foi feito em Gaza, para combater o Hamas.

Para o professor de Relações Internacionais do Ibmec Tanguy Baghdadi, a lista de operações na região mostra a semelhança com o que foi visto recentemente.

"Israel está demandando a saída das pessoas das suas residências, também já anunciou uma ocupação militar no sul do Líbano. Do Rio Litani até a fronteira com Israel, essa área tem que ser evacuada, segundo Israel. Pessoas que já saíram dessas áreas não poderão voltar, as pontes foram destruídas, ou seja, você já não consegue sair mais com facilidade, cruzando o rio em direção ao Norte, e você tem o anúncio de destruição de residências, de instalações nessa área que, segundo Israel, são ou podem ser utilizadas pelo Hezbollah", afirmou ele, em análise feita durante o seu podcast, Petit Journal.

Joseph Aoun ressaltou também que não houve possibilidade de negociações por parte da Palestina durante a guerra que buscava atacar o Hamas, no entanto, terminou com um custo humanitário muito alto para os civis. Mesmo com a parte libanesa disponível para uma negociação, ela pode encontrar dificuldades por conta da pouca disposição de Israel.

"Me parece que isso é uma tentativa de estabelecer algum tipo de diálogo. Agora, é um diálogo muito difícil de ser empreendido, pelo fato de que, para isso, você vai ter que combinar também com o Hezbollah, vai ter que ter também a anuência de Israel, que sempre leva isso como uma questão de segurança nacional, mostrando que não pode ter qualquer tipo de recuo. Ainda mais no momento em que Israel está envolvido numa guerra com o Irã e que não pode ter ameaças no norte do país, segundo o próprio Netanyahu", completa o professor, que observa a tentativa de formar um cordão de segurança naquele espaço.

Quem é Joseph Aoun?

Eleito presidente em janeiro de 2025, Joseph Aoun era comandante do exército desde 2017. Ele já chegou a sinalizar para Israel pela paz também neste momento, evitando reagir a ataques dos últimos anos. Com mais de 40 soldados mortos, ele optou por não entrar em confronto direto com o país vizinho. Ele ainda participou de mediações para um cessar-fogo no fim de 2024, com o mesmo Netanyahu.

Aoun tem 62 anos e é o 14º presidente eleito no país. No Líbano, o chefe do executivo é o primeiro-ministro, que tem maiores poderes. No entanto, o presidente ainda exerce um papel representativo para a população. Antes dele, o país havia ficado dois anos sem presidente.

O exército libanês tem reconhecidamente menos poder de fogo do que o Hezbollah, que é um dos aliados do Irã na região.