Por que o desejo de empreender favorece Flávio e desafia Lula, segundo o Ideia

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O desejo de abrir o próprio negócio ou trabalhar por conta própria passou a influenciar a identificação política dos brasileiros e ajuda a explicar parte do apoio a Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial. A avaliação é de Cila Schumann, do Instituto Ideia, que identifica uma mudança nas expectativas de prosperidade de um eleitorado cada vez menos ligado ao modelo tradicional de emprego formal.Pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta semana mostra que 43% dos entrevistados associam melhorar de vida a ter um negócio próprio ou trabalhar por conta própria.

Outros 32% consideram que a ascensão econômica está ligada à conquista de um emprego com carteira assinada e direitos garantidos.A diferença aparece nas intenções de voto. Entre os brasileiros que desejam empreender, Flávio tem 62% das preferências, contra 34% de Lula (PT).

Já entre aqueles que valorizam o emprego formal, o presidente lidera com 65%, ante 30% do senador.Leia tambémTaxas têm baixas leves com mercado mantendo vitória de Flávio sobre LulaExpectativa em torno da eleição deixou em segundo plano durante o dia o resultado do IPCA-15 de outubro e a alta dos rendimentos ‌dos Treasuries no exterior“Rali Flávio” nos mercados enfrenta teste de fogo com Brasil indo às urnasAinda assim, a perspectiva de novos ganhos é atraente para os investidoresEm entrevista ao Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, nesta sexta-feira (23), Cila afirmou que a divisão reflete não apenas a situação econômica atual dos eleitores, mas também a maneira como imaginam construir o próprio futuro.“Essa promessa de prosperidade ligada ao seu próprio esforço, ela tem, sim, uma questão ideológica.

Se eu me esforçar, eu vou conseguir. Se eu for fazer o meu, eu vou ganhar mais do que ter um patrão”, afirmou.Uma nova identidade políticaPara Cila, o crescimento do trabalho autônomo e das atividades informais mudou a relação de parte dos brasileiros com o emprego.

A possibilidade de controlar os próprios horários, buscar diferentes fontes de renda e não depender de um único empregador passou a representar uma forma de ascensão econômica.Essa transformação, segundo ela, ainda não foi plenamente compreendida pelo PT, cuja trajetória política está associada ao movimento sindical e à defesa do emprego formal.“Quando a gente olha para o PT e para o Lula, que nasceram ali nos sindicatos com emprego formal, as pessoas hoje querem o trabalho, mas elas querem a liberdade, e isso tem que ter um entendimento a respeito”, disse.Lula ou Flávio: quais são as propostas para tirar os brasileiros das dívidas?A pesquisadora avalia que o governo Lula não conseguiu estabelecer uma comunicação consistente com esse público ao longo do mandato.

Na reta final da campanha, o presidente passou a enfatizar medidas voltadas aos microempreendedores individuais (MEIs), mas a aproximação ocorreu depois de um período em que essas aspirações receberam pouca atenção, na avaliação dela.O levantamento também indica que a preferência política não depende apenas da renda.

Entre os entrevistados da classe C que desejam abrir um negócio, Flávio alcança 67% das intenções de voto. Lula, por sua vez, registra 63% entre aqueles da mesma faixa de renda que preferem um emprego formal.Liberdade não significa abrir mão de proteçãoA preferência pelo trabalho autônomo, contudo, não representa necessariamente rejeição aos direitos sociais.

Cila afirma que pesquisas qualitativas identificam trabalhadores interessados em preservar a liberdade de organizar sua rotina, mas que também esperam garantias mínimas em situações de doença, acidente ou perda de renda.“O trabalhador hoje quer estabilidade, mas ele quer liberdade”, resumiu.Exército do Lula e Tropa do Flávio: como lógica do BBB chegou na eleição presidencialA pesquisadora citou o exemplo de entregadores por aplicativo, que podem rejeitar a estrutura tradicional de um emprego com carteira assinada, mas ainda assim desejam proteção caso fiquem temporariamente impossibilitados de trabalhar.Para ela, o desafio dos próximos governos será encontrar um equilíbrio entre essas duas demandas.

A análise também ajuda a explicar por que a defesa de programas sociais e direitos trabalhistas não garante, por si só, a preferência de eleitores de menor renda por partidos de esquerda.Na avaliação de Cila, a disputa política passou a envolver diferentes ideias de prosperidade.

Para parte dos brasileiros, melhorar de vida significa conquistar estabilidade em um emprego. Para outros, representa ter autonomia para trabalhar e construir o próprio negócio.

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