Por que cultivar amizades faz tão bem à saúde?

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Tem aquele amigo que sabe o que você está pensando só pelo olhar. O que aparece para jantar mais cedo, ajuda a arrumar a mesa e acaba ficando para dormir. A turma que leva 47 mensagens para decidir onde se encontrar. E aquele que passa meses sem dar notícia, mas volta no meio de uma frase como se tivesse saído para buscar gelo. Amizades têm ritmos, intimidades e vocabulários próprios. São feitas de grandes confidências e de coisas aparentemente inúteis: mandar uma foto sem contexto, lembrar de uma história pela milésima vez, dividir uma sobremesa que ninguém queria, continuar rindo de uma piada interna que ninguém mais acha graça. Na vida adulta, manter tudo isso em circulação exige alguma dedicação. Os encontros espontâneos diminuem, as agendas se complicam e o “vamos marcar?” pode passar semanas perdido no WhatsApp. Entre compromissos que têm hora, prazo e lembrete, estar com os amigos é uma das poucas coisas importantes que ainda podem ser adiadas indefinidamente. Uma pena. A ciência vem acumulando evidências de que os vínculos que construímos têm relação com a maneira como nos sentimos e até com a nossa saúde. — Talvez precisemos ampliar nossa própria ideia de autocuidado. Normalmente pensamos em fazer exercícios, dormir bem, alimentar-se adequadamente ou realizar exames preventivos. Tudo isso é essencial. Mas precisamos incluir também o cuidado com nossos vínculos — afirma a psicóloga Deusivania Falcão, professora da Universidade de São Paulo (USP). Há dias em que uma conversa resolve pouco e melhora muito. É o chamado efeito amortecedor do apoio social. Saber que existe alguém a quem recorrer pode mudar a forma como percebemos e enfrentamos situações de estresse. Às vezes, o apoio vem em forma de conselho. Em outras, é uma carona, uma companhia para uma consulta, uma mensagem na hora certa ou simplesmente alguém disposto a ouvir a mesma história mais uma vez. — O problema pode continuar existindo, mas deixa de ser vivido de forma solitária — explica Deusivania. Um chama para caminhar, outro percebe que você não está bem, alguém pergunta pelo exame que você estava adiando. Sem transformar o encontro em projeto de bem-estar, as relações acabam favorecendo comportamentos positivos e ajudando a atravessar períodos de estresse. Uma metanálise de pesquisadores americanos, publicada na revista científica PLOS Medicine, reuniu 148 estudos e mais de 300 mil participantes e encontrou uma probabilidade de sobrevivência aproximadamente 50% maior entre pessoas com relações sociais mais fortes. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde reforçou a importância da conexão social ao relacionar isolamento e solidão a diferentes problemas de saúde física, mental e cognitiva. Mais do que quantidade, conexão Nada disso significa sair contabilizando contatos ou enchendo a agenda de compromissos. — Podemos estar cercados de gente e nos sentirmos profundamente sós. Da mesma forma, alguém pode ter poucos amigos e sentir-se muito conectado e amparado. Mais importante do que colecionar contatos é construir relações significativas — diz a psicóloga. E elas não exigem grandes programas nem cenários especiais. Cabem numa caminhada, numa ligação feita do carro, num almoço no meio da semana ou num café de meia horinha. Novos laços também podem ser construídos. Mesmo que a sensação seja de que a época de criar laços ficou para trás — ela nunca fica. Cursos, esportes ou atividades culturais criam oportunidades para se encontrar com alguma frequência. Uma conversa puxa outra, depois vem uma esticada em um barzinho e, quando se vê, já existe intimidade. — A amizade raramente nasce pronta. Ela costuma ser construída pela repetição dos encontros, pela disponibilidade, pela reciprocidade e pela confiança que se desenvolve com o tempo — afirma Deusivania. Mas há vínculos que, entre mudanças de rotina, de cidade ou de interesses, perderam a constância sem nunca desaparecer. Retomá-los pode exigir algumas mensagens e um pequeno milagre para fazer as agendas coincidirem. Depois, bastam cinco minutos à mesa para ninguém mais lembrar quanto tempo passou. Como manter os vínculos por perto Tempo, presença e reciprocidade ajudam a manter os laços. Marque um encontro: não espere a ocasião perfeita. Um café ou uma caminhada já podem fazer diferença. Retome um contato: aquela pessoa com quem você não fala há meses pode estar a uma mensagem de distância. Crie frequência: cursos, esportes e atividades culturais facilitam encontros recorrentes e a construção de intimidade. Esteja disponível: ouvir, oferecer companhia ou perguntar como alguém está também fortalece a relação. Priorize qualidade: não é preciso ter muitos contatos. Relações significativas são mais importantes do que uma agenda cheia. Deusivania Falcão, psicóloga Arquivo pessoal Podemos estar cercados de gente e nos sentirmos profundamente sós. Da mesma forma, alguém pode ter poucos amigos e sentir-se muito conectado e amparado. Mais importante do que colecionar contatos é construir relações significativas

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