Por que algumas mulheres independentes se envolvem em relações emocionalmente frágeis
Em um momento em que as mulheres conquistam cada vez mais espaço na vida pública, ampliando presença nas universidades, no mercado de trabalho e em cargos de liderança, um contraste curioso aparece na esfera privada. Nos consultórios de psicoterapia, cresce o número de relatos de mulheres financeiramente independentes, com trajetórias profissionais sólidas e autonomia consolidada, mas que se veem repetidamente envolvidas em relações afetivas marcadas por desgaste emocional, assimetria na entrega e sensação de cansaço constante.
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A pergunta que atravessa muitas dessas histórias é a mesma: por que mulheres que demonstram tanta segurança em outras áreas da vida acabam sustentando vínculos amorosos frágeis ou emocionalmente desequilibrados? Para o filósofo, teólogo e psicanalista junguiano Lucas Scudeler, a resposta passa menos por fragilidade e mais por padrões inconscientes que moldam a forma como o afeto é vivido.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar a transformação no perfil feminino no país. As brasileiras já superam os homens em anos médios de estudo e vêm ampliando sua presença em posições de liderança. Ainda assim, segundo o especialista, conquistas estruturais não se traduzem automaticamente em mudanças na dinâmica emocional dos relacionamentos.
Na prática, Lucas observa um descompasso frequente: mulheres que desenvolveram alta competência profissional e social, mas que, na vida amorosa, mantêm uma postura de entrega desproporcional. São relações em que elas escutam mais do que são escutadas, apoiam mais do que são apoiadas e acabam assumindo, muitas vezes, o papel de sustentação emocional do vínculo.
Na perspectiva da psicanálise junguiana, esses comportamentos raramente surgem por acaso. Padrões afetivos costumam reproduzir experiências emocionais mais antigas, especialmente aquelas vividas no ambiente familiar. Mulheres que, ainda jovens, precisaram lidar com pais emocionalmente instáveis, ausentes ou imaturos podem ter aprendido cedo a ocupar o lugar de mediadoras, cuidadoras ou organizadoras do ambiente emocional.
"Elas não escolhem homens frágeis por acaso. Escolhem porque aprenderam a ocupar o lugar de estrutura emocional", analisa o psicanalista.
Esse tipo de dinâmica, segundo ele, tende a criar relações em que a responsabilidade afetiva se concentra em apenas um dos lados. Com o tempo, o que começa como cuidado pode se transformar em sobrecarga, muitas vezes silenciosa.
O esgotamento como sinal de alerta
Nem sempre o principal indicativo de que algo está fora de equilíbrio em um relacionamento aparece em forma de conflito explícito. Em muitos casos, o sinal mais evidente é o desgaste emocional progressivo. A mulher passa a sentir que precisa administrar constantemente o clima da relação, negociar aspectos básicos da convivência ou sustentar sozinha a estabilidade emocional do casal.
"O desejo feminino depende de admiração e segurança. Quando a mulher precisa sustentar emocionalmente a relação sozinha, algo se rompe internamente", afirma Scudeler.
Para Lucas, maturidade afetiva não está necessariamente ligada à capacidade de suportar dificuldades dentro de um relacionamento, mas à habilidade de reconhecer padrões que se repetem ao longo da vida. Diferenciar química de compatibilidade, perceber quando a admiração se esgota e desenvolver autonomia emocional antes de estabelecer uma parceria são passos fundamentais nesse processo.
A reflexão proposta pelo especialista não questiona a intensidade com que muitas mulheres vivem o amor, mas convida a uma análise mais cuidadosa sobre o que, de fato, está sendo chamado de amor. Relações maduras, afirma ele, não são construídas a partir de esforço unilateral nem exigem que apenas um dos lados evolua enquanto o outro permanece confortável na própria estagnação.
Nesse sentido, o desafio talvez não seja amar menos, mas escolher com mais consciência.
