Por que a ‘fala de bebê’ ajuda os pequenos a aprenderem linguagem? especialista explica
Muitos pais já ouviram o alerta: Não fale como um bebê com bebês e crianças pequenas. Em vez disso, os cuidadores são frequentemente incentivados a falar corretamente e usar uma linguagem adulta, devido à preocupação de que a fala simplificada possa confundir as crianças ou atrasar o desenvolvimento da linguagem.
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Mas minha pesquisa, que destaquei em meu novo livro, "Além das Palavras", sugere que o oposto é verdadeiro. A voz melodiosa que muitos adultos usam instintivamente com bebês, às vezes chamada de "fala de bebê", mas mais precisamente conhecida como "parentês" ou fala dirigida a bebês, na verdade ajuda as crianças a aprenderem a linguagem.
Longe de confundir os bebês, exagerar frases como "olha só o cachorrinho!" chama a atenção deles, ajuda-os a detectar padrões na fala e fortalece os laços sociais.
E os erros engraçados que as crianças cometem ao longo do processo, não são sinais de que elas estão aprendendo o idioma incorretamente. São evidências de que as crianças estão ativamente descobrindo as regras da linguagem por si mesmas.
O que é realmente a linguagem parental?
Quando muitas pessoas pensam em linguagem infantil, imaginam frases sem sentido como "gu-gu-gu" ou palavras inventadas como "num-num". Mas não é isso que linguistas e psicólogos do desenvolvimento entendem por "parentês".
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A linguagem parental usa palavras reais e frases gramaticalmente corretas, mas com entonação exagerada, palavras no diminutivo, tom mais agudo, vogais alongadas e ritmo mais lento.
Há poucas evidências de que o uso ocasional de palavras sem sentido em brincadeiras prejudique o desenvolvimento da linguagem infantil. No entanto, estudos sugerem que a linguagem infantilizada, em particular, ajuda os bebês a prestar atenção à fala, reconhecer padrões e interagir socialmente.
Adultos de diversas culturas tendem a falar assim com bebês instintivamente. Mesmo pessoas que juram nunca usar linguagem infantilizada muitas vezes acabam usando-a perto de crianças.
Pesquisadores descobriram que os bebês preferem ouvir a linguagem infantilizada (parentês) em vez da fala adulta normal. Os sons exagerados e o ritmo mais lento facilitam o processamento da linguagem. Os bebês conseguem distinguir melhor os sons individuais, perceber as fronteiras entre as palavras e reconhecer padrões. Em outras palavras, a linguagem infantilizada ajuda os bebês a se familiarizarem com a linguagem.
Além disso, fortalece o vínculo emocional. A aprendizagem da linguagem não acontece isoladamente. Os bebês aprendem por meio da interação afetuosa e responsiva com os cuidadores durante a alimentação, as brincadeiras, o banho e as rotinas diárias.
Curiosamente, os humanos não são os únicos que respondem a esse estilo de comunicação. Estudos mostraram até que os gatos reagem de forma mais positiva quando as pessoas usam uma voz infantilizada com eles.
Os bebês não são aprendizes passivos
As crianças não aprendem a linguagem simplesmente copiando os adultos palavra por palavra. Elas testam ativamente hipóteses sobre como a linguagem funciona. É por isso que as crianças pequenas cometem erros previsíveis e surpreendentemente lógicos.
Um exemplo comum é a generalização excessiva. Uma criança aprende que as pessoas no inglês, formam o passado de muitos verbos adicionando "-ed", então elas produzem formas como "goed", "eated" ou "comed".
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Esses não são erros aleatórios. Na verdade, eles mostram que a criança entendeu uma regra gramatical e está tentando aplicá-la de forma consistente. O problema é simplesmente que o inglês é cheio de exceções irregulares. O mesmo acontece com os plurais. As crianças podem dizer "foots" em vez de "feet" ou "mouses" em vez de "mice". Novamente, a lógica por trás desses erros é sólida.
Linguistas costumam dizer que as crianças são pequenos cientistas, constantemente testando padrões e revisando sua compreensão à medida que recebem mais informações do mundo ao seu redor.
Por que as crianças pequenas chamam tudo de "cachorro"?
Crianças pequenas também cometem erros previsíveis em relação ao significado.
Uma criança pequena pode aprender a palavra "cachorro" e usá-la para todos os animais de quatro patas que encontrar. Os linguistas chamam isso de sobrextensão. Por outro lado, algumas crianças usam as palavras de forma muito restrita. Uma criança pode usar "cachorro" apenas para o animal de estimação da família e não reconhecer que outros cachorros pertencem à mesma categoria. Os linguistas chamam essa tendência de subextensão.
Esses erros revelam como as crianças organizam e categorizam o mundo ao seu redor. Elas estão gradualmente associando palavras a objetos, pessoas e experiências.
Os pronomes são outra área complicada. Crianças pequenas frequentemente confundem “eu” e “você” porque essas palavras mudam constantemente dependendo de quem está falando. Se um dos pais diz: “Eu vou te buscar”, a criança ouve a si mesma sendo chamada de “você”. Mas, ao tentar repetir a frase, ela pode ainda não entender que os pronomes mudam de quem fala.
É por isso que as crianças pequenas às vezes dizem coisas que soam involuntariamente fofas ou confusas. Mas por trás da confusão existe um processo de aprendizagem sofisticado.
Até o come-come erra
Os erros de fala das crianças são tão reconhecíveis que frequentemente aparecem na cultura popular. O personagem Come-come, da Vila Sésamo, é famoso por dizer coisas como "eu quero biscoito", enquanto Elmo costuma se referir a si mesmo na terceira pessoa: "Elmo quer isto". Esses padrões de fala refletem estágios reais do desenvolvimento da linguagem infantil. Crianças pequenas geralmente confundem pronomes ou se referem a si mesmas pelo nome antes de dominarem formas como "eu", "mim" e "meu".
Apesar de eventuais queixas de adultos, não há evidências de que ouvir esse tipo de fala prejudique o desenvolvimento da linguagem infantil. Pelo contrário, reflete a experimentação natural pela qual as crianças passam.
'Pasketti' e 'Wabbit'
A pronúncia também se desenvolve gradualmente. Crianças pequenas costumam simplificar sons e grupos de consoantes difíceis. "Spaghetti" vira "pasketti", "rato" vira "ato", amarelo pode sair como "lelo".
Especialistas em fonoaudiologia chamam essas simplificações de processos fonológicos. Elas fazem parte do desenvolvimento normal, pois alguns sons são fisicamente mais difíceis de produzir do que outros. Sons como "r", "ch" tendem a se desenvolver mais tarde porque exigem um controle mais preciso da língua e da boca.
A maioria das crianças supera naturalmente esses padrões de pronúncia à medida que sua fala amadurece. No entanto, dificuldades persistentes podem, por vezes, sinalizar um distúrbio de fala ou linguagem, que pode exigir apoio profissional.
Os erros fazem parte do aprendizado
Os pais frequentemente sofrem enorme pressão para fazer tudo certo, inclusive ajudar os filhos a aprender a falar um idioma. Mas as crianças não aprendem um idioma evitando erros. Elas aprendem por meio da interação, da experimentação e da repetição.
A linguagem infantil ajuda os bebês a se concentrarem na fala e a interagirem socialmente. Os erros engraçados que as crianças cometem revelam que elas estão ativamente construindo o complexo sistema da linguagem e, muitas vezes, são sinais de desenvolvimento normal. A aquisição da linguagem é um processo desordenado, criativo e notavelmente sofisticado.
Falar com um bebê em um tom de voz cantado e exagerado não é algo que pais e cuidadores precisem se envergonhar.
Longe de prejudicar a aquisição da linguagem, pode ajudar a lançar as bases para ela.
*Karen Stollznow é pesquisadora sênior em Linguística na Universidade do Colorado em Boulder; Universidade Griffith
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
