Por que a antiga técnica de stop-motion ainda tem vigor em tempos de inovação digital e IA?

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Fonte da notícia: Valor Valor

A produção de “O bosque selvagem” levou seis anos, com uma equipe de mais de mil profissionais, e incluiu a impressão 3D de 140 mil rostos Divulgação

Brad Schiff, chefe de animação do estúdio Laika, passa seus dias dando vida a bonecos e outros objetos feitos com massa de modelar, silicone, tecido ou madeira. “Ainda bem que não acreditei quando ouvi, nos anos 90, que o stop-motion estava com os dias contados.

A técnica nunca esteve tão viva”, brinca Schiff, à frente da maior produção assinada pelo Laika, com 230 bonecos e 132 cenários (o dobro de seus filmes anteriores). Lançamento desta semana nos cinemas, “O bosque selvagem’’ é um sinal de que a técnica artesanal de marionetes consegue sobreviver à inovação digital e à febre da inteligência artificial.

Produção que levou seis anos para ficar pronta e exigiu uma equipe de mais de mil profissionais, a animação oferece qualidade tátil, textura real e um sentimento de nostalgia que contrastam com a estética lavada e, muitas vezes, fria das imagens geradas por computador (CGI). “Com o tempo, essa arte artesanal se tornou ainda mais bela, pela sensação de que os personagens podem ser tocados.

E também por sua imperfeição, o que lhes confere uma aura real”, diz Schiff ao Valor, durante visita ao estúdio Laika, em Hillsboro, na região metropolitana de Portland, em Oregon, nos EUA. “Mesmo que nossos animadores possam moldar habilmente o que quiserem hoje em dia, há sempre um quê de rústico, o que dá mais humanidade à obra”, completa o chefe de animação, há 16 anos na Laika.

A garota Prue McKeel (Peyton Elizabeth Lee) é a alma de “O bosque selvagem’’, animação já cotada para disputar os principais prêmios do ano na categoria, inclusive o Oscar. Sem entender o mistério que ronda o seu irmãozinho, o bebê Mac, que os pais jamais levam para passear, Prue sai com a criança pelas ruas de Portland por conta própria.

Assim que o bebê começa a brincar em um parquinho, um bando de corvos agarra Mac pelos ombros e o leva para a floresta proibida, dominada pela governante viúva Alexandra (Carey Mulligan). Com o peso da culpa, a menina se aventura pelo bosque para resgatar o irmão, precisando da ajuda de Curtis (Jacob Tremblay), um amigo da escola, e de Brendan (Mahershala Ali), o líder da ala rebelde que enfrentará o exército de Alexandra em confronto sangrento.

Essa sequência de batalha de “O bosque selvagem’’ é a maior já realizada em stop-motion. São 12 minutos de lutas intensas, com 3 mil personagens e mais de 400 tomadas, o que exigiu uma fusão de marionetes com criaturas digitais.

Ainda assim, os bonecos confeccionados manualmente estão sempre em primeiro plano, com as réplicas fazendo o fundo da cena. “Essa forma de arte feita à mão contrariou as expectativas iniciais.

Ela nunca foi substituída pela computação gráfica, apesar de ter sofrido alguns reveses”, conta Schiff, lembrando que ele mesmo chegou a perder trabalhos, entre eles um longa-metragem de Tim Burton. “Fui contratado para o filme ‘Marte ataca’ (1996), mas o projeto acabou migrando para o CGI’’, recorda ele.

Os alienígenas com cabeças enormes que pontuam a narrativa foram inicialmente concebidos como marionetes de stop-motion, mas os personagens acabaram entregues à Industrial Light & Magic (ILM), para tornar o trabalho mais barato e rápido. O resultado foram bonecos criados digitalmente, apenas imitando o visual do stop-motion.

Até hoje, esta é uma das formas de animação mais caras e trabalhosas, justamente pelo processo artesanal. A técnica consiste em capturar as imagens sequenciais de bonecos físicos em cenários reais, com cada elemento manipulado à mão, registrando a mudança de posição milimetricamente, quadro a quadro.

Por exigir mais tempo, geralmente nas fases de pré-produção e de animação, o custo sobe no que se refere à infraestrutura e à equipe. A própria Laika (antes de ganhar esse nome) quase fechou suas portas, conseguindo se manter no mercado graças ao investimento vindo de Phil Knight, cofundador da Nike.

Aberto como Will Vinton Studios, em 1975, o estúdio foi adquirido por Knight em 2002, quando estava em dificuldades financeiras. Em 2005, rebatizada de Laika, a companhia passou para o comando de seu filho, Travis Knight, hoje o CEO.

É ele também quem assina a direção de “O bosque selvagem”. Sob a nova administração, a Laika se tornou o estúdio pioneiro no uso de impressão 3D para stop-motion.

Ou seja, a impressão de uma infinidade de máscaras com expressões faciais diferentes para cada personagem permite trocas sucessivas no rosto do boneco na hora de filmar, evitando, assim, a necessidade de esculpir a cabeça inteira. Essa tecnologia da substituição facial garantiu ao estúdio o Prêmio Científico e de Engenharia da Academia de Hollywood, em 2016.

“Também entramos para o Guinness World Records, pelo maior número de rostos impressos em 3D em filme em stop-motion, por termos feito 106 mil peças para ‘Link perdido’ [2019]. E agora, para ‘O bosque selvagem’, superamos o nosso recorde, com 140 mil”, conta Brian McLean, supervisor de efeitos visuais da Laika, também conhecida pelas animações “Coraline e o mundo secreto” (2009) e “Kubo e as cordas mágicas’’ (2016).

“Nada do que fazemos é para economizar tempo ou dinheiro. E por que nós insistimos em um processo que exige umas 12 etapas a mais do que a animação por computação gráfica? Simplesmente pelo resultado que obtemos”, comenta McLean, há mais de 20 anos trabalhando na Laika.

Ferramentas digitais são, sim, muito empregadas nos filmes do estúdio, mas para cumprir papéis específicos. Entre eles, aperfeiçoar uma imagem, expandir o escopo de uma cena, buscando principalmente uma abordagem mais épica ou, ainda, compor as sequências com muitos elementos (quando cada personagem é animado individualmente).

“Estamos acostumados ao nosso maior desafio: as limitações da física. Na computação gráfica, você pode distorcer a realidade, deformando, comprimindo ou esticando objetos ao extremo.

Aqui tudo o que construímos precisa sustentar o próprio peso e se mover de acordo com as leis da física”, diz McLean. Para o designer de produção Nelson Lowry, há mais de 15 anos na Laika, nada se compara a criar um “mundo do zero”.

“Meu trabalho é um quebra-cabeça sem fim, no sentido de representar os materiais e as superfícies que vemos no dia a dia, em miniatura”, diz Lowry, encarregado de encontrar soluções criativas para construir cada elemento em cena. “Para criar espaguete, por exemplo, você fura um balde de plástico e faz a massa passar pelos buracos, criando os fios.

Ideias assim me deixam animado por umas duas semanas”, brinca ele.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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