Por dentro do Le Meurice, o 'hotel dos artistas' em Paris que foi endereço de Dalí e virou música de Jay-Z

 

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Existe em Paris um hotel onde Salvador Dalí pilotava uma Harley-Davidson na suíte presidencial, Pablo Picasso jurou amor eterno num salão que não faria feio no Palácio de Versalhes e Jay-Z e Kayne West gravaram um grande sucesso do “hip-hop ostentação”. Tudo isso aconteceu no Le Meurice, que, entre outras coisas, foi o primeiro a ter atendimento em inglês na capital da França e serviu de base para o general nazista que teria se recusado a incendiar uma das cidades mais bonitas do mundo.

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Cliente no Le Dalí, um dos restaurantes do hotel Le Meurice, em Paris

Eduardo Maia/O Globo

Um dos símbolos do luxo em Paris, o Le Meurice abriu as portas do seu endereço atual em 1835, e ao longo de quase dois séculos vem construindo a imagem de endereço preferencial de monarcas, nobres e chefes de Estado de passagem pela cidade. E, graças a hóspedes como Dalí e Picasso, ganhou também o apelido de “hotel dos artistas”. Instalado Instalado de cara para o Jardim das Tulherias, no coração do 1º arrondissement, sua localização é perfeita para quem quer uma imersão na vida cultural da capital francesa.

A partir das arcadas da Rue de Rivoli, não é preciso caminhar muito para chegar aos museus de Artes Decorativas (450m), do Louvre (700m), d’Orsay (700m), ao Palais-Royal (800m), ao Grand Palais (1km) e à Ópera Garnier (1,3km). Sem falar nas muitas galerias de arte da região, como Hauser & Wirth, Gagosian, Dutko e Perrotin. Cartões-postais como o próprio Rio Sena, a Place de la Concorde, a Avenue de Champs -Élysées e a Île de la Cité (onde fica a Catedral de Notre-Dame de Paris) também estão por ali perto.

Monarcas e surrealismo

Fachada do Le Meurice, na Rue de Rivoli, onde funciona há quase 200 anos: hotel é um dos símbolos do luxo em Paris

Divulgação/Dorchester Collection

Talvez o oficial dos correios Charles-Augustin Meurice não imaginasse que a estalagem que resolveu abrir em Calais, em 1771, para receber viajantes ingleses às margens do Canal da Mancha, resultaria num dos hotéis mais importantes da Europa. Em 1815, prevendo o potencial turístico de Paris, mudou-se para a capital, onde abriu seu primeiro estabelecimento, na Rue de Saint-Honoré, também no 1º arrondissement, que se dedicou a atender viajantes britânicos, que logo passaram a se referir ao local como "o hotel do Meurice". Vinte anos depois, seus herdeiros abriram o atual Le Meurice no número 228 da agitada Rue de Rivoli, de onde apenas se expandiu ao longo das décadas seguintes, em sucessivas obras de ampliação.

A fama internacional começou em 1855, quando a rainha Vitória, da Inglaterra, se hospedou no Le Meurice — numa época em que nobres costumavam apenas ficar em palácios de outros nobres. A partir dali, o hotel entrou no mapa dos VIPs da época. Em 1936, Eduardo VIII, um dos bisnetos de Vitória, se mudou para o hotel após renunciar ao trono britânico. Cinco anos antes, o rei Afonso XIII, da Espanha, se refugiara numa das luxuosas suítes com vista para as Tulherias após ser deposto.

Foi por causa do antigo rei, aliás, que começou a relação única de Dalí com o hotel. Obcecado pela monarquia espanhola, o pintor catalão decidiu que a suíte que abrigara Afonso XIII seria seu endereço oficial quando estivesse Paris. Por 30 anos, entre as décadas de 1950 e 1980, Dalí se hospedou por pelo menos um mês, todos os anos, na mesma unidade, colecionando histórias bizarras, como a presença de animais, passeios de motocicletas, disparos de armas de fogo e latas de tintas derramadas pelas janelas.

Vista a partir do terraço da Suite Belle Etoile, a maior do Le Meurice, que fica de frente para o Jardim das Tulherias, no coração de Paris

Divulgação/Dorchester Collection

Hoje, a Suíte Presidencial Dalí, com seus 160m², tem diárias na casa dos € 9 mil (ou cerca de R$ 52 mil) por noite. Esse valor parece até uma pechincha perto dos cerca de € 25 mil (ou € 40 mil, na alta temporada) cobrados por uma noite na Suite Belle Etoile, que ocupa todo o último andar do hotel, com 620², salão de jantar, um banheiro inteiramente revestido por mármore preto e branco, e terraço que oferece uma das vistas mais impactantes da cidade — não à toa foi escolhido por Woody Allen como locação da cena da degustação de vinho de seu filme “Meia-noite em Paris”.

Mas é possível encontrar tarifas a partir de € 1.700, nos mais básicos entre os 160 quartos da configuração atual do hotel, quase todos decorados no estilo Luís XVI. Ou seja: tons claros e pastéis nas paredes e na roupa de cama, elementos como candelabros e abajures um tanto floreados e muitas imagens de paisagens naturais. Em alguns quartos, a cabeceira da cama é pintada com flores, remetendo ao icônico Jardim das Tulherias, do outro lado da rua.

Em alguns dos quartos do hotel Le Meurice, em Paris, flores foram pintadas sobre as camas em referência ao Jardim das Tulherias

Eduardo Maia/O Globo

Foi num desses quartos ou suítes, por exemplo, que, no começo da década passada, a dupla de rappers e produtores Jay-Z e Kayne West compuseram e começaram a gravar um dos grandes sucessos do hip-hop da época. Lançada em 2011, a faixa "N**igas in Paris" é uma ode à ostentação, e chega a citar o Le Meurice num de seus versos.

O tom foi de ostentação também no banquete dado por Pablo Picasso para celebrar sua união com a bailarina Olga Koklova, em 1918. Era o primeiro casamento (oficial) do pintor espanhol, e o local escolhido foi o Salon Pompadour, um suntuoso espaço para eventos que parece ter saído diretamente do Palácio de Versalhes do século XVIII. Seu nome vem dessa época também, em homenagem à Marquesa de Pompadour, figura importante da corte francesa, que entrou para a história como amante mais conhecida do rei Luís XV e patrocinadora de artistas e escritores, entre eles muitos filósofos do Iluminismo.

Comida é arte

Salão do restaurante Le Dalí, um dos espaços gastronômicos do hotel Le Meurice, em Paris

Divulgação/Dorchester Collection

Depois de passar por muitas mãos, o centenário Le Meurice passou a integrar a Dorchester Collection, grupo de hotéis de luxo pertencente ao sultanato de Brunei e que reúne ícones como o The Dorchester, em Londres, e o Plaza Athénée, em Paris. E já sob nova administração passou por uma grande reforma em 2007 sob o comando do designer francês Phillipe Starck, que deu toques de modernidades ao visual clássico do hotel.

Ele acrescentou peças de arte contemporânea no lobby do hotel e no imponente restaurante Le Meurice, que, ainda assim, preserva seu jeito de salão de banquetes reais. No outro restaurante, o Le Dalí, ele encomendou a sua filha, Ara Starck, o tapete e a pintura do teto, com uma certa inspiração surrealista.

A gastronomia do hotel é supervisionada pelo multiestrelado Alain Ducasse, e a pâtisserie é de responsabilidade do chef confeiteiro sensação Cédric Grolet, que, de certa maneira, também faz arte com seus famosos doces em forma de frutas — recentemente, ele criou um novo chá da tarde com essas receitas, ótimo tanto no paladar quanto para as redes sociais, com bandejas parecendo um verdadeiro "jardim das delícias" (o valor é € 95 por pessoa).

Os doces em forma de frutas do chef confeiteiro sensação Cédric Grolet estão no novo chá da tarde do hotel Le Meurice, em Paris

Divulgação/Dorchester Collection

Assim como em outros hotéis de luxo da cidade, a equipe de concierges do Le Meurice costuma ser acionada para reservar mesas em restaurantes concorridos, conseguir ingressos para espetáculos e indicar boas opções de compras. Mas, no “hotel dos artistas”, vale pedir dicas sobre como explorar a vida cultural dos arredores.

A pedido do GLOBO, o concierge-chefe Jean Mora indicou também algumas obras menos conhecidas que merecem ser apreciadas nos museus mais famosos. Entre os tesouros do Louvre, ele recomenda a Santa Maria Madalena esculpida pelo alemão Gregor Erhart no começo do século XVI, e o quadro “O trapaceiro com ás de ouro”, pintado por Georges de La Tour na década de 1630, no contexto do barroco francês.

No Museu d’Orangerie, famoso pelas salas ovais com as pinturas da série “Nymphéas”, de Monet, Mora diz que vale a pena prestar a atenção nas obras dos pintores Chaim Soutine e Kees Van Dongen presentes na coleção permanente. Já no d’Orsay, antes ou depois das obras-primas de Renoir, Van Gogh e Degas, o concierge sugere atenção especial a duas obras: a impressionista “Os raspadores de assoalho” (1875), de Gustave Caillebotte, e a impressionante “Dante e Virgílio no Inferno” (1850), de William-Adolphe Bouguereau.

O hotel também organiza três tipos de tours especiais para hóspedes em Paris, um sobre Rodin, outro inspirado em Monet e nos impressionistas, e um terceiro, pela Montmartre de Picasso.

Eduardo Maia viajou a convite de Dorchester Collection e da TAP