Populista reconhece derrota para movimento estudantil em eleição com participação recorde na Sérvia

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Os sérvios foram às urnas neste domingo para votar nas eleições legislativas com maior participação popular no país em mais de três décadas, em uma votação que levou o presidente Aleksandar Vucic a reconhecer a derrota de seu partido após 14 anos no poder. A Lista dos Estudantes, formada por integrantes da oposição que há quase dois anos lideram protestos contra o governo, aparece com 52% dos votos, segundo projeção do instituto Ipsos/CeSID, contra 39,3% do Partido Progressista Sérvio (SNS), de Vucic.

O pleito ocorreu em meio a um cenário de forte polarização e temores de fraude eleitoral. — Com base em uma amostra estratificada, está claro que perdemos estas eleições — disse Vucic a apoiadores reunidos na sede de seu partido, em Belgrado, ao reconhecer a derrota.

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Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp A projeção do Ipsos/CeSID indica que a Lista dos Estudantes deverá conquistar 138 das 250 cadeiras do Parlamento, acima das 126 necessárias para garantir a maioria.

O SNS, por sua vez, ficaria com 104 assentos. Em seu discurso, Vucic afirmou que, embora os resultados definitivos ainda não tenham sido divulgados, os dados disponíveis já indicam a vitória da oposição.

Segundo ele, os estudantes deverão conquistar a maioria parlamentar, enquanto seu partido ficará com 105 cadeiras. Vucic também afirmou que nenhum outro grande partido deverá conseguir representação parlamentar, embora legendas de minorias nacionais possam conquistar cerca de cinco cadeiras.

Durante o pronunciamento, o presidente voltou a acusar seus adversários de mentir e insinuou a possibilidade de interferência estrangeira no processo político. Às 18h, duas horas antes do fechamento das urnas, quase 65% dos 6,4 milhões de eleitores registrados já haviam votado, superando o índice das eleições parlamentares de 1993, quando pouco mais de 61% compareceram às urnas.

A alta participação era vista como um fator favorável à Lista dos Estudantes, formada por candidatos apoiados pelo movimento que há quase dois anos organiza manifestações contra o governo. Segundo analistas, um comparecimento igual ou superior a 65% poderia favorecer a oposição.

Dezoito listas disputaram as 250 cadeiras do Parlamento, mas as pesquisas já indicavam que a disputa se concentraria entre o SNS e os candidatos estudantis. Muitos dos principais partidos da oposição desistiram de concorrer e passaram a pedir votos para o movimento.

Longas filas se formaram diante das seções eleitorais antes mesmo da abertura dos locais de votação, tanto em Belgrado quanto em cidades menores. A mobilização também alcançou sérvios residentes no exterior, com registros de filas em Liubliana, Munique, Los Angeles, Chicago e Paris, onde eleitores aguardaram sob forte chuva.

Em Belgrado, Marija Spasenovic disse à AFP que votou com a expectativa de combater a corrupção e fortalecer o Estado de Direito, duas das principais reivindicações dos manifestantes. — Votei na esperança de ver mudanças.

As coisas não podem continuar como foram nos últimos 14 anos — afirmou. Tragédia ferroviária

As eleições antecipadas representam o desdobramento de quase dois anos de manifestações desencadeadas pelo desabamento de uma cobertura da estação ferroviária de Novi Sad, segunda maior cidade da Sérvia, em 2024. Dezesseis pessoas morreram na tragédia, amplamente atribuída à corrupção e à negligência das autoridades.

O episódio provocou algumas das maiores manifestações registradas no país desde a queda do ex-líder iugoslavo Slobodan Milosevic, em 2000. Entenda: Presidente da Sérvia renuncia em manobra para tentar concorrer ao cargo de premier

Inicialmente, os estudantes exigiam uma investigação transparente sobre as causas do desabamento. Com o avanço das mobilizações, as reivindicações passaram a incluir a convocação de eleições antecipadas e mudanças na estrutura política do país.

Durante quase dois anos, os manifestantes organizaram marchas e percorreram diferentes regiões da Sérvia para conversar diretamente com os eleitores e enfrentar a influência da máquina de comunicação do SNS. Na quinta-feira, a última grande manifestação antes das eleições levou cerca de 150 mil pessoas às ruas de Belgrado, segundo uma organização independente de monitoramento.

Às vésperas da votação, o movimento publicou uma carta no X convocando os sérvios a transformar a mobilização popular em uma vitória nas urnas: “A Sérvia está despertando! Vocês foram e continuam sendo nossa força. É hora de direcionar essa força para a liberdade”.

Composição heterogênea A Lista dos Estudantes reúne 250 candidatos de diferentes setores da sociedade civil, incluindo professores universitários, médicos, artistas, acadêmicos e personalidades do esporte.

A maior parte deles tem pouca experiência política, e o movimento não possui uma liderança centralizada. Ilija Srdanovic, professor da Universidade de Novi Sad, encabeça a lista, formada a partir de escolhas feitas por assembleias estudantis nas universidades do país.

Ratko Mladić: Funeral de general condenado pelo Massacre de Srbrenica atrai multidão na Sérvia e provoca indignação na UE O programa eleitoral tem como principal compromisso o combate à corrupção.

Entre as propostas estão o afastamento de autoridades que violaram regras durante a repressão aos protestos, o fim da nomeação de aliados partidários para a direção de empresas públicas e a retirada do controle político sobre a emissora pública. Vucic e o SNS negam envolvimento em corrupção e tentativas de influenciar a mídia.

A composição heterogênea da lista, porém, também suscita dúvidas sobre a capacidade de seus integrantes de formar um governo. À rede britânica BBC, o ex-vice-primeiro-ministro Zarko Korac, opositor de longa data dos partidos nacionalistas sérvios, classificou a experiência como inédita na história contemporânea europeia e destacou a falta de vínculos políticos prévios entre muitos dos candidatos.

— São pessoas que não se conhecem. Não temos ideia de quais são suas convicções políticas e, agora, esperamos que elas formem um governo funcional.

Ninguém sabe o que acontecerá depois que vencerem. Vucic aposta na continuidade

Do outro lado da disputa está Vucic, de 56 anos, principal figura do SNS e que procura se apresentar como um estadista indispensável à estabilidade sérvia. O líder populista de direita percorreu o país durante a campanha, visitando cidades e vilarejos e abraçando moradores.

Ele acusa repetidamente o movimento estudantil de organizar uma tentativa de golpe de Estado financiada por forças estrangeiras. Adivinhe quem vem para jantar: Entenda por que a Sérvia é importante para a família Trump

Sob pressão crescente, Vucic convocou eleições antecipadas em setembro, citando “grandes turbulências no cenário político interno”. O presidente encurtou seu segundo mandato à frente do Estado para liderar a campanha do SNS e tentar retornar ao cargo de premier, que ocupou até 2017.

Impedido de disputar um terceiro mandato presidencial, ele busca manter o controle político por meio de uma vitória parlamentar. Vucic conserva apoio significativo entre setores da população que o consideram um líder forte e defensor dos interesses nacionais.

Seus aliados destacam o crescimento econômico registrado na última década e as melhorias na infraestrutura. Durante a campanha, o presidente prometeu aumentar aposentadorias e salários do funcionalismo público, além de ampliar os investimentos no sistema público de saúde.

No campo internacional, Vucic tenta equilibrar as relações com a União Europeia, da qual a Sérvia pretende se tornar integrante, e a Rússia, sua aliada histórica. Embora apoie a candidatura sérvia ao bloco europeu, o presidente se recusa a impor sanções a Moscou pela guerra na Ucrânia.

Sua política externa também busca manter relações próximas com os Estados Unidos, apresentando a soberania nacional como um dos principais argumentos de campanha. Temores de fraude

Dias antes da votação, 24 organizações não governamentais sérvias alertaram que não estavam reunidas as condições necessárias para eleições “livres e justas”. Em resposta aos temores de fraude, os estudantes mobilizaram uma ampla rede de voluntários e designaram pelo menos dois fiscais para cada uma das 8.210 seções eleitorais do país, complementando o trabalho de observadores nacionais e internacionais.

Na manhã deste domingo, vídeos divulgados nas redes sociais mostraram um café na cidade de Nis, no sul da Sérvia, onde cédulas eleitorais teriam sido preenchidas antecipadamente, em uma prática conhecida como “voto em cadeia”. Placas nas janelas indicavam a realização de uma “festa privada”.

Nas imagens, os papéis foram rapidamente escondidos quando as pessoas no local perceberam que estavam sendo filmadas. Além das suspeitas de fraude, observadores eleitorais relataram irregularidades e episódios de violência nas proximidades das seções de votação.

Segundo Rasa Nedeljkov, responsável pela observação eleitoral da organização CRTA, o número de ocorrências continuava elevado, enquanto os incidentes violentos se tornavam mais frequentes. A polícia, no entanto, não confirmou episódios graves de violência relacionados ao pleito.

As pesquisas divulgadas antes do pleito apresentaram resultados divergentes. Um levantamento do centro de estudos de direita Novo Pensamento Político Sérvio (NSPM) atribuiu 44,5% das intenções de voto à Lista dos Estudantes, contra 42,7% ao grupo de Vucic.

Outra pesquisa, realizada em setembro pelo instituto Faktor Plus, próximo às autoridades, colocou a atual maioria governista na liderança, com 48,6%. As projeções divulgadas após o fechamento das urnas, porém, apontaram uma vantagem expressiva dos estudantes, posteriormente reconhecida pelo próprio presidente.

(Com AFP)

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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