Política tarifária de Trump agravou cenário desafiador para a indústria siderúrgica brasileira

Política tarifária de Trump agravou cenário desafiador para a indústria siderúrgica brasileira

 

Fonte: Bandeira



A política tarifária implementada nos Estados Unidos pelo presidente Donald Trump agravou um cenário já bastante desafiador para a indústria siderúrgica brasileira. Segundo maior fornecedor de produtos semiacabados de aço para os EUA, o Brasil exportou no ano passado 3,4 milhões de toneladas para o país, uma queda de 1,3% em relação a 2024. Neste ano, o quadro segue piorando: os embarques de janeiro a abril recuaram 52% na comparação com mesmo período de 2025.

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O faturamento já vinha em queda: de aproximadamente US$ 2,6 bilhões em 2023, caiu para US$ 2,2 bilhões em 2024, atingindo, no ano passado, US$ 1,9 bilhão. Os semiacabados são o principal item da pauta e os EUA são os maiores clientes do Brasil no exterior para estes produtos.

O tarifaço de Trump se somou ao excesso de oferta, à forte competição global e a outros fatores que já derrubaram em 18% os preços do aço desde dezembro de 2023.

O Brasil também está se defendendo da competição e, em fevereiro, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovou a aplicação de direito antidumping definitivo às importações de laminados da China.

Após tomar posse no ano passado, Trump assinou um decreto elevando a tarifa sobre as importações de produtos de aço e alumínio para 25%. Ele também cancelou isenções e cotas para grandes fornecedores, como Brasil, Canadá, México e outros países.

O alcance das restrições é ainda mais amplo para o Brasil se for considerado o efeito indireto sobre as exportações de aço mexicanas. Empresas como a Ternium e a ArcelorMittal exportam do Brasil para suas fábricas no México para acessar o mercado americano. O México é o segundo maior destino do aço brasileiro (3,2 milhões de toneladas em 2025). As duas empresas não quiseram se pronunciar.

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'Início fraco'

Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA derrubou as tarifas de Trump sob o argumento de que ele excedeu seus poderes. Em resposta, o presidente agora ameaça acionar a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA — um mecanismo já usado no passado contra o Brasil —, que permite a abertura de investigação por práticas consideradas prejudiciais ao comércio internacional.

O mercado financeiro tem acompanhado os movimentos com cautela. Em abril, quando as empresas divulgaram os balanços do primeiro trimestre, gestores e corretoras como BTG Pactual e Goldman Sachs usaram as expressões “ceticismo” e “início fraco” em relação às perspectivas de recuperação do setor.

Marco Polo de Mello Lopes, presidente do Instituto Aço Brasil, lamenta que o governo americano tenha colocado fim a um sistema de cotas negociado em 2018, durante a primeira gestão Trump, e que, em sua visão, era benéfico para ambos os lados. Pelo acordo, o Brasil tinha uma cota de cerca de 3,5 milhões de toneladas de semiacabados e em torno de 600 mil toneladas de produtos acabados com tarifa zero. A lógica era que os EUA precisam das placas semiacabadas por não serem autossuficientes nessa matéria-prima fundamental para as indústrias de transformação e para a construção civil.

— Isso dava previsibilidade para as indústrias siderúrgicas brasileiras e, ao mesmo tempo, as siderúrgicas americanas também tinham previsibilidade no recebimento de uma matéria-prima de qualidade e com garantias. Era um fornecedor de confiança para a indústria americana.

No caso dos laminados, a queda nas vendas aos EUA após o fim das cotas foi ainda mais expressiva, quase 45% — das 639 mil toneladas previstas no acordo de cotas, para 346 mil toneladas em 2025.

A economista Lia Valls Pereira lembra que “o setor de siderurgia sempre foi muito protegido. Pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, ela não vê muitas mudanças no cenário à frente devido aos problemas estruturais que atingem o setor siderúrgico mundial. A expectativa é que os governos recuperem o acordo de cotas, o que será positivo para o Brasil.