Política anti-imigração de Trump afeta intercâmbio de estudantes universitários
A atuação cada vez mais agressiva do governo de Donald Trump contra imigrantes ilegais nos Estados Unidos traz também relatos de pessoas que, mesmo com documentação legalizada, sofrem perseguição e tratamento violento. Esses episódios podem mudar planos de estudantes que desejam intercâmbio estudantil nos EUA? Observando o cenário atual, parece cedo para uma resposta tão assertiva.
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— Eu e meu pai começamos a planejar minha vinda para cá em 2022. É muito investimento de tempo, muita expectativa para depois resolver mudar o rumo — diz o carioca David Cardell Guimarães, de 19 anos, que desde o ano passado cursa economia na Seattle Pacific University. — Mas Trump é imprevisível. Se ele continuar atacando outros países, é natural que alunos que viriam para cá decidam ir para a Austrália ou o Canadá.
A mudança do mapa migratório do intercâmbio pode ser um dos sintomas mais rapidamente sentidos no mercado. Um dos indicativos do movimento é ainda intuitivo: teria começado uma redução de estudantes europeus procurando o país.
— A Europa está mais machucada com a maneira como Trump conduz as coisas. Mas, no Brasil, o intercâmbio não está tão inflamado em relação a isso. Em um longo prazo, se as coisas não se ajustarem por lá, pode afetar— opina Alexandre Argenta, presidente da Brazilian Educational & Language Travel Association.
Christina Bicalho, vice-presidente do Student Travel Bureau (STB), também não observa mudanças imediatas nesse cenário:
— O tema tem aparecido com mais frequência nas conversas. Ainda assim, o que percebemos na prática é um movimento mais voltado à busca por informação, orientação e segurança do que, de fato, uma retração na demanda por programas internacionais.
Segundo o levantamento mais recente do programa Open Doors, da Institute of International Education, 17 mil brasileiros estudaram em universidades dos EUA em 2024. Índia e China têm números de quatro a cinco vezes maiores. O Departamento de Segurança Interna (Homeland Security) aponta 41 mil brasileiros estudando nos EUA no mesmo período.
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Agressões e xenofobia
Esse total abrange, além dos alunos de curso superior, quem estuda em ensino médio, cursos técnicos, escolas de idiomas e até educação infantil. Pela apuração do Open Doors, o Brasil vai recuperando os números de antes da pandemia.
Segundo o programa, o pico ocorreu no ano acadêmico 2014–2015, quando os EUA tinham 23.675 estudantes brasileiros matriculados no ensino superior. A recuperação é lenta. Um dos motivos é o Canadá ter ultrapassado os vizinhos na preferência brasileira.
— Temos pesquisas mostrando o Canadá como destino número um dos brasileiros, deixando as universidades americanas como segunda opção — diz Argenta, destacando que Inglaterra, Irlanda e Austrália vêm logo atrás como destinos preferidos.
Segundo Cristina Bicalho, números recentes podem sinalizar alterações de rota:
— Os Estados Unidos registraram uma queda de 11% em 2025. Em contrapartida, o Canadá apresentou um crescimento expressivo de 48% no mesmo período, impulsionado por políticas migratórias mais abertas e por uma relação custo-benefício bastante competitiva.
Estudante de direito ambiental na Universidade de San Diego, a mineira Fabíola Mendes, de 19 anos, diz que se sente segura no ambiente universitário e nas festas. Mas já presenciou cenas agressivas de xenofobia:
— A ação da polícia do Trump deixa os preconceituosos mais confiante.
David Guimarães estuda economia em Seattle
Divulgação
David Guimarães viu agressões no transporte público em Seattle:
— Tem americanos que não admitem gente perto deles falando outra língua. Se não souber direito o inglês, melhor ficar calado. Comigo não acontece. Eu tenho cara de americano, meu nome é David. Aqui, o máximo que rola comigo é alguém perguntar se sou australiano, pelo sotaque.
