Polícia identifica mais de cem pontos da Região Metropolitana onde serviços de internet são comercializados pelo crime
Apontada em investigações como uma das principais fontes de arrecadação do crime organizado no estado, a comercialização irregular de internet entrou na mira da polícia. A Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública informou, nesta terça-feira, ter identificado mais de cem pontos da Região Metropolitana do Rio onde este tipo de negócio é explorado por grupos criminosos com auxílio de empresas que trabalham para o tráfico e para a milícia. Enquanto isso, alguns moradores de áreas próximas a comunidades optaram por fazer a conexão a rede mundial por satélite para escapar da ação dos criminosos.
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Com preços um pouco acima do mercado, os planos de internet via satélite variam entre R$ 176 e R$ 401 mensais, fora o custo do equipamento. Apesar de ser mais cara, a opção tem sido cada vez mais usada. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), responsável por organizar e fiscalizar os serviços de banda larga, a venda de sinal transmitido por satélite no município do Rio passou de 3 mil clientes, em março de 2025, para 6,2 mil assinantes no mesmo mês de 2026. Foi o que fez, por exemplo, uma moradora de um bairro da Zona Norte do Rio, que conta com áreas sob forte influência do Comando Vermelho (CV).
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— Tínhamos o serviço de uma operadora desde 2015. Um dia, acordamos sem internet nenhuma. Entramos em contato com a empresa, que identificou que todos os cabos de internet haviam sido cortados na noite anterior. Isso já tem mais ou menos dois anos. Eles também disseram que os técnicos estavam sendo ameaçados pelos traficantes. Não podiam subir nos postes porque seriam derrubados das escadas, ou eles nem deixavam os carros da operadora chegarem aos pontos de acesso danificados, sob risco de morte. Precisamos recorrer a outro tipo de internet. Cancelamos nossa assinatura e, para não aceitar a internet que os traficantes de uma comunidade próxima permitiam, recorremos a outro tipo de internet, que não depende de cabos e é via satélite — disse a moradora.
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Reprodução
Um técnico de informática, que pediu para não ser identificado, disse a maioria acaba permanecendo com empresas ligadas ao tráfico e a milícia, que exploram a venda do sinal de internet, para não ficar sem o serviço considerado essencial.
—Muita gente não tem opção porque precisa de internet para tarefas do dia a dia como pagar despesas, receber dinheiro ou fazer transferências. Eles acabando financiando os grupos criminosos até sem saber. Agora, em alguns casos, o pessoal passa a usar a internet via satélite e até compartilha a banda larga — disse.
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A maioria dos mais de cem pontos identificados pelo setor de inteligência da Secretaria de segurança fica em comunidades localizadas no município do Rio, na Baixada Fluminense e ainda em São Gonçalo. A s informações apuradas pela pasta serão repassadas para abastecer investigações sobre a atuação dos criminosos, feitas por delegacias distritais e por unidades especializadas. Em áreas dominadas por bandidos, empresas oficiais são proibidas de realizar manutenções ou novas instalações. A partir daí, os grupos ilegais passam a explorar o serviço de internet e de tv cabo, entre outros.
Nesta terça-feira, uma moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, contou estar há quatro dias sem sinal de internet em casa. Ao ligar para uma operadora de telefonia, ela contou ouvir sempre a mesma resposta. Do outro lado da linha, uma secretária eletrônica diz que os técnicos da empresa estão impossibilitados de acessar sua região por problemas de “segurança pública”. A moradora não é a única que ficou desconectada pelo motivo alegado. O município é o nono colocado em um ranking de 15 cidades com mais denúncias recebidas pelo Disque-Denúncia (2253-1177), informando que o crime organizado tem explorado a comercialização do acesso à rede mundial de computadores.
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Nesses locais, segundo as denúncias, os criminosos criam uma espécie de zona de exclusão onde empresas oficiais são proibidas de entrar. O primeiro município que aparece no ranking é o Rio de Janeiro. Foram 279 denúncias recebidas entre o início de janeiro e o dia 8 de maio de 2026. Os dez bairros mais citados nos telefonemas são Campo Grande, Engenho da Rainha, Realengo, Vargem Grande, Jacarepaguá, Praça Seca, Penha Circular, Recreio dos Bandeirantes e Taquara. Nos locais citados existem comunidades com territórios controlados pelas facções Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP), Amigos dos Amigos (ADA) e ainda pela milícia.
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Também aparecem à frente de Belford Roxo, além do Rio de Janeiro, outras oito cidades: São Gonçalo, Duque de Caxias, Niterói, Nova Iguaçu, São João de Meriti e Itaboraí, todos na Região Metropolitana, e ainda Cabo Frio, na Região dos Lagos. A lista de telefonemas recebidos pelo Disque-Denúncia conta ainda com Japeri, Maricá, Mesquita, Cachoeiras de Macacu, Magé e Araruama.
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Nesta segunda-feira, O Globo publicou um levantamento revelando que facções criminosas e milícias exploram a comercialização de sinais de internet ou tentam impor o pagamento de taxas a quem opera legalmente no mercado em pontos de 37 dos 92 municípios do estado. Quem se recusa a pagar sofre retaliações. Só nos quatro primeiros meses do ano, veículos e até instalações de empresas do ramo foram incendiados por criminosos em Cachoeiras de Macacu, Japeri, Paracambi e Maricá, na Região Metropolitana. A apuração se baseou em investigações policiais e dados recebidos pelo serviço Disque-Denúncia, além de informações passadas por moradores, operadoras e provedores.
Segundo a Subsecretaria de Inteligência, só nas localidades da Muzema e Rio das Pedras, no Itanhangá, e na Gardênia Azul, em Jacarepaguá, a pasta identificou 18 empresas explorando o serviço. A primeira e a terceira têm regiões controladas pelo tráfico, enquanto a segunda está sob o jugo da milícia. Estima-se que os grupos criminosos arrecadem mensalmente R$ 3 milhões com o negócio irregular. As três áreas constam no plano de reocupação territorial enviado pelo governo estadual ao Supremo Tribunal Federal.
Já sem o domínio de traficantes ou milicianos, essas regiões passariam a ter outra forma de conexão à internet.
— Conversamos com grandes operadoras, todas aceitaram fornecer para essas comunidades a internet via rádio. Funcionaria tal qual os telefones celulares, que recebem internet de boa qualidade via sinal de rádio, sem cabeamento. Toda casa teria um modem que receberia o sinal via antena de telefonia — disse o subsecretário Pablo Sartori, nesta segunda-feira, que em seguida completou:
— A exploração de internet está na base da estrutura do crime organizado. Hoje o crime vive sem venda de drogas, mas não sem atividades econômicas como a internet.
A Polícia Militar informou que a Subsecretaria de Inteligência da pasta criou em 2021 um grupo de trabalho com concessionárias para reprimir roubos e furtos de equipamentos de empresas de prestação de serviço público e identificar áreas com restrições impostas por organizações criminosas. Segundo a PM, em 202 , foram efetuadas 427 ações conjuntas com 614 prisões.
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