Beto Vasques, cientista politico, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política e diretor do Instituto Democracia em Xeque
Wesley Mesquita/ Divulgação
A um mês do primeiro turno eleitoral, a divulgação nesta terça-feira (1º) de mensagens sobre investigações sigilosas, trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, deve ter impacto direto na disputa presidencial.
A nova crise no Supremo Tribunal Federal (STF) pode ajudar a mobilizar a base de apoio do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e tem potencial para trazer prejuízos à imagem do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ao mesmo tempo, tende a ajudar candidaturas fora da polarização política.
Essa é a análise do cientista político Beto Vasques, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (Fespsp) e fundador do Instituto Democracia em Xeque.
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Nesta terça-feira, o ministro André Mendonça, do STF, removeu o sigilo de um relatório da Polícia Federal que expõe mensagens e contatos entre o fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro Alexandre de Moraes.
A ação de Mendonça jogou luz sobre uma disputa dentro do Supremo, pelo comando da Corte.
“Estamos diante de uma guerra de vazamentos seletivos, onde tem uma ‘banda’ do Supremo de cada lado”, disse Vasques.
“A polarização atravessou as instituições e foi catalisada pelo ritmo eleitoral”, afirmou, criticando a “politização das instituições”.
O professor avaliou que Mendonça “atropelou ritos" ao permitir a exposição de Moraes.
“É uma lógica de que os fins justificam os meios”, afirmou Vasques.
O cientista político ressaltou a proximidade de Mendonça com a família Bolsonaro e a rivalidade de bolsonaristas com Moraes, que foi o relator do processo penal que resultou na condenação e prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), por tentativa de golpe de Estado.
Mendonça foi advogado-geral da União na gestão Bolsonaro, ministro da Justiça e chegou ao STF por indicação do ex-presidente.
A decisão de Mendonça tende a ter reflexos eleitorais, dependendo de como as campanhas dos presidenciáveis vão explorar o caso.
Vasques enumera cinco pontos que ajudam a entender como poderá ser essa influência.
O primeiro é que a ligação de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, explicitada na troca de mensagens, deve mobilizar a base eleitoral de Flávio Bolsonaro e gerar uma “ativação” na campanha do presidenciável do PL.
O ministro do STF é visto como o “inimigo” do bolsonarismo.
Um segundo ponto é que as mensagens trocadas entre o ministro e o ex-banqueiro foram divulgadas no mesmo dia em que um relatório do Coaf, publicado em reportagem da revista Piauí, mostrou que Flávio Bolsonaro recebeu de Vorcaro repasses maiores do que havia admitido para o filme “Dark Horse”.
O relatório mostrou que Flávio recebeu 1,6 milhão de dólares em setembro de 2025, apesar de o presidenciável ter dito que o último pagamento tinha sido meses antes, em maio de 2025.
De acordo com a reportagem, a relação de compadrio financeiro entre Flávio e Vorcaro continuou por mais tempo do que o senador admitiu.
Com a divulgação das mensagens de Moraes e Vorcaro, o caso envolvendo Flávio e o ex-banqueiro perdeu o destaque na imprensa, esvaziando o impacto negativo na campanha do presidenciável do PL.
Em terceiro lugar, a proximidade entre Moraes e Vorcaro, registrada nas mensagens, pode ter impacto sobre o eleitor “independente”, e afastá-lo do presidente Lula.
Pesquisas quantitativas e qualitativas têm mapeado que o eleitor avalia que Lula e o ministro do STF são próximos e “jogam juntos”.
Um exemplo recente dessa proximidade foi o encontro promovido pelo ministro do STF em sua própria casa para reaproximar Lula dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
“A avaliação é que Moraes é um aliado de Lula”, diz Vasques.
Com isso, o desgaste do aliado pode respingar no presidente, a depender de como será explorado pelos adversários.
Um quarto ponto é que há um efeito político também sobre o julgamento da tentativa de golpe de Estado e da condenação de Bolsonaro pelo STF.
A crise enfrentada pelo Supremo, com Moraes no alvo, ajudaria a reforçar o discurso de que Bolsonaro e outros condenados teriam sido alvo de perseguição, avaliou Vasques.
Pode ganhar força também o discurso de anistia aos condenados pelos atos golpistas, já defendido pelos candidatos da direita.
Por fim, com a corrupção pegando até o STF, ganha força também o discurso antissistema.
Pode possibilitar que candidatos fora da polarização tenham mais espaço.
Na avaliação do cientista político, todos os sigilos das investigações envolvendo o caso de Daniel Vorcaro e o Banco Master deveriam ser abertos pelo Supremo, para “acabar com o vazamentos seletivos ou suspeitas de seletividade nas investigações e julgamento”.
“A postura de Mendonça nesse caso é muito ruim.
É um novo candidato a ‘heroi de toga’, de justiceiro da República.
Já vimos isso com Sergio Moro, com Alexandre de Moraes e não deu certo.”
