PMs da Rota faziam escolta particular para Transwolff, diz Corregedoria
Cinco dos sete policiais suspeitos de fazer segurança privada para diretores da Transwolff eram da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), a tropa de elite da PM. Dois deles ainda estavam na instituição na época da escolta.
O bico, ou escolta privada prestada fora do horário de expediente, é ilegal e proibido pela PM. Mas a Corregedoria afirma que os investigados foram além.
Segundo a corporação, os PMs aderiram de forma "consciente e voluntária" ao esquema criminoso. E contribuiram para a "continuidade operacional das atividades empresariais utilizadas para a lavagem de capitais.
De acordo com a Corregedoria da PM, além de escoltar os diretores da empresa investigada por elo com o Primeiro Comando da Capital (PCC), os policiais usavam notas frias para cobrar os pagamentos.
Três dos sete PMs investigados foram presos durante a operação deflagrada na semana passada. Os agentes fizeram a escolta dos diretores Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, e Cícero de Oliveira, o Té, entre 2020 e 2024.
A Transwolff foi alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo, por suspeita de lavagem de dinheiro e favorecimento à facção criminosa. Depois disso, teve seu contrato com a Prefeitura de São Paulo cancelado.
Entre os PMs presos, está o capitão Alexandre Paulino Vieira, ex-assessor militar da Câmara Municipal. Ele é apontado pela Corregedoria como o coordenador do esquema de segurança.
Segundo o inquérito, obtido pelo GLOBO, ele exercia atribuições típicas de administração, como definição de escalas, valores a serem pagos, contratação, coordenação e dispensa de policiais militares.
Rota
Os PMs contratados para fazer a segurança pessoal e patrimonial pertenciam ou haviam servido na Rota, entre eles o subtenente Ronaldo Alexandre de Souza, o 2º sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário, o 3º sargento Nereu Aparecido Alves e o cabo Marcio Henrique de Souza Santos. Já o capitão Alexandre Vieira foi oficial de Inteligência da Rota entre 2008 e 2010.
O inquérito da Corregedoria ressalta que, nessa função, o capitão Alexandre teria coordenado operações de inteligência que tinham como alvos justamente os dois diretores da Transwolff. Isso ocorreu em um período em que a empresa já era investigada.
Segundo o documento, isso prova que ele conhecia o histórico criminal dos homens para quem passou a trabalhar.
Em áudios interceptados, o diretor da Transwolff, Cícero de Oliveira, confessa que teve a ideia de contratar policiais da Rota para "ajudar" e questiona: "Se a gente fosse bandido, como é que eu, como bandido, vou pedir para contratar a Rota para fazer segurança pra gente?”.
A Corregedoria sugere que os militares eram escolhidos justamente por pertencerem à tropa de elite. E que eles se valiam dessa credibilidade para garantir a manutenção das atividades ilícitas e da lavagem de dinheiro, diz o documento.
O inquérito menciona que a cúpula da Rota chegou a orientar o afastamento dos policiais quando o nome da instituição foi vinculado à Transwolff após a deflagração de outra operação do Ministério Público, a Sharks, em 2020.
Um dos PMs, o sargento Romano Cezário, afirmou ter escolhido pedir transferência da Rota para permanecer na Transwolff.
Em mensagem de texto com o diretor da empresa, ele disse: “Expliquei pra ele (o comandante) que, depois de 27 anos, eu não serviria mais para estar naquela unidade. E pedi para ser transferido. Ele me pediu para pensar, mas eu já estou decidido a ficar com vocês”.
Os policiais também atendiam demandas pessoais da família de Cícero Oliveira, como buscar a babá do filho e levar ou buscar as crianças na escola.
Notas frias
Em um dos áudios interceptados, o capitão Alexandre envia para Cícero Oliveira, um dos diretores da Transwolff, a imagem de uma nota fiscal que ele pretende apresentar, para verificar se o chefe está de acordo. E diz que, como a empresa não é dele, o “rapaz” vai emitir a nota e que aguarda as informações necessárias para a emissão do documento. Em seguida, o diretor encaminha os dados da empresa.
A empresa usada para emitir a nota, de acordo com a investigação, é a AM3-Segurança e Vigilância, localizada no bairro de Santana.
A AM3 está em nome da mãe de um dos policiais militares, o tenente-coronel José Henrique Martins Flores, suspeito de ser o verdadeiro administrador da empresa. Segundo o inquérito, a AM3 dissimulava o serviço de segurança armada prestado pelos policiais.
A defesa do capitão Alexandre Paulino afirmou que ele é inocente de todas as acusações.
As defesas dos outros investigados não foram localizadas. O espaço permanece aberto.
A Transwolff informou que sempre contratou empresas de segurança devidamente estabelecidas e que continua se defendendo nas instâncias competentes, além de colaborar com as autoridades.
