PM preso por elo com PCC diz que Milton Leite é ‘dono’ da Transwolff
O 2º sargento da PM Alexandre Aleixo Romano Cezário afirmou que o ex-vereador Milton Leite (União Brasil) era “de fato” o “dono” da Transwolff, empresa de ônibus investigada por elo com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
O sargento também disse que os demais diretores da empresa eram apenas “laranjas”. O depoimento do PM, obtido pelo GLOBO, foi concedido à Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo no último dia 4.
O ex-vereador Milton Leite permaneceu na Câmara Municipal por sete mandatos consecutivos, incluindo seis anos como presidente do Legislativo paulistano. Aposentado desde janeiro do ano passado, ele continua sendo um dos políticos mais influentes de São Paulo, com trânsito no Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo paulista. Ele nega as acusações (leia abaixo).
Cezário é um dos três PMs presos na semana passada, durante a operação Kratos, por suspeita de fazer a segurança privada de diretores da Transwolff. A empresa é investigada por lavar dinheiro do crime organizado e teve contrato cancelado com a prefeitura da capital.
De acordo com a Corregedoria, entre 2020 a 2024, os PMs atuaram como segurança de Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, e de Cícero de Oliveira, o Té, diretores da Transwolff ligados à facção.
O chefe da equipe de seguranças era o capitão Alexandre Paulino, na época assessor militar da Câmara Municipal.
Em seu depoimento, Cezário afirmou que o capitão Alexandre Paulino se tornou o administrador da equipe de segurança que atendia a Transwolff porque, na época, ele era assessor militar da Câmara Municipal e trabalhava com Milton Leite.
“Este (Milton Leite) era de fato o dono da TW e os demais diretores eram apenas laranjas. Acredita que, por isso, foi indicado o capitão PM, mas ressalta que ouvia dizer isso sobre Milton Leite, mas não pode provar”, diz trecho do depoimento.
A Transwolff e a UPBus foram alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo, por suspeita de lavagem de dinheiro e favorecimento à facção criminosa.
‘Chefe Milton’
O inquérito da Corregedoria reúne mensagens de texto trocadas entre os dirigentes da empresa Transwolff e os PMs investigados. Segundo os investigadores, as mensagens revelam a subordinação dos policiais presos ao então presidente da Câmara Municipal.
Em 18 de agosto de 2023, o sargento Nereu Aparecido Alves, também preso na operação, enviou uma mensagem para Cícero de Oliveira, o “Té”, diretor da Transwolff, para justificar um atraso no serviço. No texto, o policial afirma que estava em uma agenda do “chefe Milton”.
“Estamos em uma agenda, vai demorar, ele está no palco. Quando descer, aviso. O celular do chefe está comigo”, diz as mensagens. Depois, o sargento envia uma foto do evento, com a seguinte legenda: “Inauguração da escola da mãe do chefe Milton”.
Segundo a Corregedoria, o evento em questão era a inauguração do Centro de Educação Infantil Nathalia Pereira da Silva, na região do M’Boi Mirim, zona Sul da capital. Nathalia Pereira da Silva é o nome da mãe do ex-vereador, de acordo com o documento.
As mensagens seguintes entre os dois passam a tratar de dinheiro, segundo a investigação. O diretor da Transwolff orienta o sargento a passar no escritório para pegar “uns QSJ”. Segundo a corporação, essa expressão é um jargão militar para propina.
Na semana passada, os investigadores apreenderam cerca de R$ 1 milhão em dinheiro vivo na casa do sargento Nereu Aparecido Alves durante a deflagração da operação.
Para a investigação, ao mesmo tempo em que faziam segurança para suspeitos de ligação com o PCC, os agentes atendiam demandas do então presidente da Câmara.
O capitão Alexandre Paulino reforçaria o elo entre a política e o crime. Apontado como chefe da segurança irregular da Transwolff, o capitão foi ajudante de ordens de Milton Leite na Câmara. O capitão atuou na Casa legislativa desde 2014, segundo o documento.
Outro lado
Ao GLOBO, o ex-presidente da Câmara negou ser dono da Transwolff e disse que não conhece o sargento da PM Alexandre Aleixo Romano Cezário.
— Eu, dono da Transwolff? Não sei quem é esse Alexandre. Eu nunca fui dono da Transwolff. Dizer que eu sou dono é ilação. Me mostre um papel, um carro que eu tenho, um motorista que guia para mim — disse.
O ex-vereador também afirmou que não conhece o sargento Nereu Aparecido Alves e que o policial não trabalhou na escolta dele.
— Minha escolta foi feita exclusivamente por membros do efetivo da Assessoria Militar da Câmara Municipal de São Paulo, da qual ele também nunca fez parte. Lamento que a imprensa trate a expressão 'chefe' como uma referência a mim, sem provas e atribuída a uma pessoa que, repito, desconheço — rebateu.
Sobre o capitão Alexandre Paulino, Milton Leite disse que ele trabalha na Assessoria Militar da Câmara Municipal desde 2014 e que, portanto, atuou com cinco presidentes. E que “eventuais atividades realizadas fora das funções inerentes ao cargo são de total responsabilidade dele”.
A defesa do capitão Alexandre Paulino afirmou que ele é inocente de todas as acusações.
A Transwolff informou que sempre contratou empresas de segurança devidamente estabelecidas e que continua se defendendo nas instâncias competentes, além de colaborar com as autoridades.
