PM do bando de Rogério Andrade pagava para colega de farda vazar dados sigilosos sobre operações contra bicheiro

 

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A Subsecretaria de Inteligência da Polícia Militar é um setor sensível, onde são processadas e analisadas informações para fundamentar operações policiais futuras. Daí os dados serem cercados pelo sigilo. Na denúncia da Operação Pretorianos 2, desencadeada nesta quinta-feira pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) — a partir de informações extraídas do celular de um dos alvos — houve a descoberta do vazamento de dados sigilosos da Subsecretaria de Inteligência da corporação, por parte de um agente em troca de propina.

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Segundo a denúncia do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ, o policial militar da reserva Carlos André Carneiro de Souza, conhecido como Carneiro, subornou um agente da Subsecretaria de Inteligência da PM. A conversa foi extraída do celular de Carneiro, apontado como um dos responsáveis pela proteção do bicheiro Rogério Costa de Andrade e Silva, seus familiares e negócios ilícitos como pontos da contravenção.

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Num dos trechos, numa conversa por aplicativo de mensagens registrada em 7 de agosto de 2019, Carneiro pergunta ao informante, um policial militar lotado na Subsercretaria de Inteligência, registrado como Guto no celular do alvo, sobre os locais de operação:

" Se der para vc dar um toque. Ou acha melhor abrir nenhuma amanhã?"

Guto demonstra preocupação, devido, provalmente, à mudança do subsecretário de inteligência. Mas, quatro minutos depois, ele manda um breve boletim com as ocorrências da Subsecretaria e responde que será em Cascadura, bairro da Zona Norte do Rio.

Carneiro responde:

"Não é nosso".

Em seguida, Carneiro pede:

"Se tiver alguma coisa para o lado de lá e der para vc avisar. Dá um papo. Mas está tudo fechado pelo que sei".

No dia seguinte, Guto avisa sobre uma operação em Bangu, bairro dominado por Rogério.

Carneiro oferece o suborno:

"Mas vou desenrolar para ver se vocês levam um negócio como tinha combinado antes. Me manda uma conta aí. Amanhã vou pegar uma parada para você".

Guto responde:

"Benção".

Carneiro envia R$ 1 mil para Guto e manda o compravante.

O contraventor Rogério Andrade durante o carnaval de 2018

Marcio Alves / Agência O Globo

Tropa de Rogério

A tropa de Rogério, segundo o MPRJ, é formada por policiais militares, inativos e ex-PMs. Na Pretorianos 2 — uma continuação das operações Calígula, Pequod e Pretorianos 1, desencadeadas pelo Gaeco —, os laços entre os agentes públicos com Rogério Andrade ainda fica mais em evidência. Além de Carneiro, também foi preso o policial militar Marcos Antonio de Oliveira Machado, o Machado, que ocupa um cargo chefia, de acordo com as investigações dos promotores. Segundo o MPRJ, apesar da prisão de Rogério, há "fortes indícios de permanência até o presente momento" da ação do grupo criminos.

O Gaeco denunciou, mais uma vez, o bicheiro por organização criminosa, assim como Carneiro e Machado por integrarem uma organização criminosa. Machado e Rogério foram denunciados também por corrupção ativa. O bicheiro está preso na Petenitenciária Federal de Campo Grande (MS), desde outubro de 2024. No caso do contraventor, os promotores pediram que ele continue em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) por mais três anos. A denúncia foi aceita pela 1º Vara Especializada em Organização Criminosa do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ).

Na denúncia do Gaeco, destaca-se o trecho em que os promotores citam a infiltração da organização criminosa nos órgãos públicos:

"Chamaram atenção, para além da impressionante infiltração da Organização Criminosa em instituições públicas, com destaque negativo para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, tanto os moldes empresariais de estruturação do grupo, com núcleos bem delimitados, quanto o volume de dinheiro ilícito movimentado pela organização, a qual, apenas com a segurança pessoal do seu líder, gastava R$ 207.600,00(duzentos e sete mil e seiscentos reais) mensais - isso no ano de 2022".

Carneiro, de acordo com planilhas apreendidas na casa dele na primeira Operação Pretorianos, recebia uma média de R$ 5.600,00.

O blog Segredos do Crime não conseguiu localizar os advogados de Carneiro e Machado.

Histórico de operações

A primeira fase da Pretorianos ocorreu em março de 2024, quando os alvos eram 16 PMs da ativa e um policial penal. A ação foi batizada com esse nome pelo Gaeco numa alusão à Guarda Pretoriana, uma unidade de defesa pessoal dos imperadores romanos na antiguidade.

Essa ação é a continuação da Operação Calígula, contra as redes de jogos de azar de Rogério de Andrade e do ex-policial Ronnie Lessa, realizada em 2022. Na ocasião, os agentes cumpriram 24 mandados de busca e apreensão em endereços de empresas usadas na lavagem de dinheiro das casas de apostas, quando foram denunciados Rogério; seu filho, Gustavo de Andrade; seu então chefe da segurança, Márcio Araújo de Souza; Ronnie Lessa — condenado pelo duplo homicídio da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes —; e os delegados Marcos Cipriano e Adriana Belém.

— As provas reunidas ao longo da investigação demonstram não apenas a estabilidade e a permanência da organização criminosa, mas também a utilização de estruturas profissionais de segurança para garantir a continuidade das atividades ilegais, inclusive por meio da cooptação e da corrupção de agentes públicos — concluiu Letícia Emile.

Rogério de Andrade é patrono da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel que, recentemente, passou a ser administrada pelo filho do contraventor, Gustavo.