Plataformas digitais impulsionam serviços de compartilhamento e revenda e põem bens de consumo na roda

 

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E se fosse possível testar aquele par de tênis de corrida caríssimo antes de comprar um exemplar e garantir que os quilômetros percorridos não vão dar bolhas nos pés? Ou quem sabe nem adquirir um para chamar de seu se a empolgação pelo esporte passar logo após a primeira maratona?

É esse o diferencial da GoPace, um site que oferece testes, aluguel e revenda de calçados, relógios e até meias a quem se pergunta: preciso mesmo comprar um para usar?

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Essa mudança de mentalidade já aparece no cotidiano. Se o crescimento das cidades no passado levou ao transporte público quem não tinha o cobiçado privilégio de dirigir o próprio carro, hoje muita gente que pode pagar por um prefere os aplicativos, que transformaram o automóvel em serviço.

Exemplar da Closet BoBags, marketplace de aluguel e revenda de bolsas de luxo

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Quem faz essa escolha só põe na conta o custo e a conveniência — afinal, é mais simples descer na porta de um teatro ou restaurante sem ter de procurar vaga ou se arriscar numa baliza para estacionar.

Mas o efeito vai além da escolha individual. A expansão dessas plataformas também tem um impacto coletivo, ao incluir princípios da economia circular no nosso cotidiano. Esses apps nos levam a compartilhar automóveis, ampliando o uso de veículos que já estão nas ruas e evitando que outros sejam comprados para descansarem a maior parte do tempo em garagens. Ao mesmo tempo, criam novas fontes de renda.

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O avanço da tecnologia tem gerado uma série de serviços de compartilhamento, aluguel e revenda de bens de consumo, viabilizando duas promessas da economia circular: o aumento da vida útil dos produtos e a criação de novos negócios. Sem falar no ganho ambiental com a redução de descartes e de extração de recursos naturais para fabricar novos exemplares.

O bolso também agradece quando um serviço de aluguel de furadeiras e lixadeiras de parede impede alguém de comprar uma máquina dessas para condená-la ao cárcere na caixa de ferramentas. Plataformas digitais se tornaram aliados do desafio de reintroduzir produtos na economia, ainda que com finalidade diferente da original.

‘Malha digital’

A partir de São Paulo, a GoPace alcança clientes em todo o Brasil e é um dos exemplos mais bem-sucedidos de negócios viabilizados pela BoGo, uma espécie de Shopify da economia circular.

A plataforma foi criada pela administradora de empresas Bel Braga, que tem dez anos de experiência “atrás do balcão” e conheceu os gargalos do e-commerce com a Closet BoBags, marketplace de aluguel e revenda de bolsas de luxo.

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Bel resolveu então ajudar outros negócios sustentáveis a escapar deles. Dois anos depois de reunir sócios para formar a BoGo, já tem 25 clientes que alugam, revendem ou oferecem assinaturas de bens e serviços que vão de máquinas de café espresso profissionais com grãos locais, como a APÊ Coffees, a experiências de surfe só para mulheres, como aulas e viagens para pegar onda em pranchas compartilhadas, caso da Coolture Life.

Bel Braga, empresária que viabiliza negócios circulares na internet

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— O mundo ainda é menos circular porque falta a malha digital: é mais fácil fabricar algo novo do que rastrear e gerir o ciclo de vida de um produto que já está na casa do consumidor ou pensar em formas de os produtos terem sua vida útil estendida — avalia a empresária.

Ela usa IA para automatizar a entrada de produtos usados na logística das empresas até a vitrine virtual. —Transformamos um processo complexo em algo escalável. O desafio das marcas é o gargalo tecnológico do processo de gerir itens únicos, logística reversa, manutenção e reparos.

A tecnologia também atrai os jovens para negócios circulares. Quando o assunto é reúso, a geração Z dá um banho de comportamento sustentável. Thaís Anjos, de 25 anos, trabalha como editora de vídeos e cosplayer há dez. Tem no garimpo em brechós um aliado na sua caracterização para dar vida à personagem Sakura Kinomoto, da série de mangá Cardcaptor Sakura.

— Vou a brechós com frequência. Compro roupas e sapatos que uso para cosplays e em eventos gamers — conta ela, que se preocupa com o consumo sem freios. — Evito comprar em lojas de fast fashion e de departamentos, pois acredito que dá para se vestir bem com modas passadas.

Ambiente decorado pela cenógrafa Gigi Barreto com peças garimpadas

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Este é um caminho sem volta para os que pensam na longevidade dos negócios, incluindo a formação de reputação junto a esse novo consumidor, diz a consultora de moda Yamê Reis, fundadora do fórum internacional de moda e sustentabilidade Rio Ethical Fashion, que prevê alta de 15% a 20% nos negócios de revenda de vestuário até 2030.

— A economia circular cria marcas com novo posicionamento no mercado e com vantagens competitivas — afirma.

É um sopro de esperança numa das mais poluentes indústrias do planeta, assim como a da construção civil. A especulação imobiliária da demolição é o maior produtor de resíduos da Europa e responsável por 38% das emissões globais de CO², o principal do efeito estufa. O dado foi apresentado pelo urbanista e arquiteto Olaf Grawert, professor do Instituto Federal de Tecnologia, de Zurique, na Suíça, numa palestra de um TEDx, em Berlim, em 2025.

Ele introduziu a nova tendência habitacional com elementos circulares: construir prédios com materiais orgânicos, que podem ser desmontados e que respeitem o valor social e ecológico das moradias.

Reúso na construção

As varejistas da construção caminham em terreno instável: alta de preços e juros e freio no consumo, mas ainda com demanda alta no segmento de reformas pontuais. Para enfrentar o cenário complexo, a Leroy Merlin, que tem 55 lojas no Brasil, investiu R$ 1,2 bilhão em tecnologia para incrementar seu e-commerce e atrair clientes com serviços.

Descartes de obras levaram Marilia Bender (em primeiro plano) a criar a Caçamba do Bem

Gabriela Pellizzari/Divulgação

Isso inclui a venda com desconto de materiais de construção, itens de acabamento e produtos de decoração com pequenas avarias ou o redirecionamento para doação. Outra frente da rede francesa no país é o desenvolvimento de marcas próprias com ecodesign, com matérias-primas mais sustentáveis e maior durabilidade, como a linha de pisos cerâmicos Artens.

A construção é um dos setores que mais consomem recursos naturais e geram resíduos, sabe que já olhou uma caçamba de obra. Isso chamou a atenção da designer de interiores Marília Bender, de 37 anos, quando trabalhou num escritório de arquitetura, em Curitiba.

Daí veio a ideia da Caçamba do Bem, uma espécie de brechó da reforma. Na plataforma digital, é possível garimpar material de construção, armários planejados, móveis e itens de decoração.

— O meu negócio se tornou uma ponte entre o lojista, que destina o estoque antigo para a Caçamba, e o cliente final, que compra por preço mais em conta um item de desejo — conta Bender, cuja iniciativa completa oito anos de sucesso e já tem planos de expansão.

Curadoria sustentável

Escolher itens sustentáveis para a casa virou um mantra para a cenógrafa Gigi Barreto e também uma nova carreira. Discípula dos ícones da cenografia Hélio Eichbauer e Gringo Cardia, ela se viu impedida de trabalhar na pandemia e criou o perfil Casa Vida Cenário no Instagram, hoje com 162 mil seguidores.

A cenógrafa Gigi Barreto descobriu outra carreira ao decorar casas com peças garimpadas

Divulgação/acervo pessoal

Acabou virando uma empresa de decoração que garimpa itens no acervo dos próprios clientes e em negócios de revenda. Em último caso, ela desenha algo exclusivo e executado com mão de obra artesanal.

— O que a pandemia estava revelando era a urgência desse olhar para o planeta. A palavra regeneração é o conceito maior da Casa Vida Cenário — define Gigi.

Ela já executou projetos em dez capitais e seis países e se orgulha de nunca ter recorrido a um shopping para comprar algum item:

— Reutilizo ao máximo o que a pessoa já tem em casa. Ou garimpo porque já tem tudo no mundo, de tapeçaria e móveis até obra de arte. Em ferro velho, na rua, no famoso shopping chão, lojas de mobiliário vintage on-line, tudo para a fazer a economia circular, girar.

Gustavo Righeto Alves, gerente de Engajamento Empresarial da Fundação Ellen MacArthur, afirma que o brasileiro tem vocação para o consumo circular por conta da cultura de doação de itens usados, vinda do catolicismo.

Para ele, o país avançou “de 0 para 7” nos últimos dois anos com a criação de uma estratégia nacional e a tramitação da Política Nacional de Economia Circular (Pnec) no Congresso, mas ainda carece de regras e incentivos claros.

Laiza Martins, pesquisadora brasileira de tendências de consumo e cultura material radicada em Berlim

Acervo pessoal

O cenário brasileiro da economia circular é o de um país que desenhou o mapa, mas ainda não destravou os freios financeiros, mas, enquanto o marco regulatório não é aprovado, empresas, entidades e o próprio governo acertam ao fomentar iniciativas circulares o quanto antes, diz o especialista:

— Precisamos garantir que os instrumentos sejam implementados. Isso será um ganho na competitividade com vistas ao acordo União Europeia e Mercosul, por exemplo, pois o país estará em vantagem em relação aos outros da região. O desafio é fazer com que esses produtos sejam acessíveis ao consumidor — diz.

Laiza Martins, pesquisadora brasileira de tendências de consumo e cultura material radicada em Berlim, afirma que a economia circular já é uma estratégia econômica na Europa, que afeta a competitividade das empresas:

— A União Europeia incorporou isso em políticas industriais, na regulação e metas para as empresas, e isso influencia como os produtos são desenhados e seus ciclos de uso são pensados.

* Roni Filgueiras, especial para O Globo.