Plano do governo prevê 66% mais emissões do setor elétrico até 2036

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Fonte da notícia: Cafezinho Cafezinho

O Brasil projeta ampliar em 66% as emissões de gases de efeito estufa do seu setor elétrico até 2036. O número está no Plano Decenal de Expansão de Energia 2036, estudo da Empresa de Pesquisa Energética, a EPE, sob coordenação do Ministério de Minas e Energia, e foi divulgado pela Folha de S.

Paulo. A projeção transforma em hipoteca de carbono a fama de matriz mais limpa do mundo.

O país que se apresenta ao exterior como potência de energia renovável planeja poluir dois terços mais para manter as luzes acesas na próxima década. Cada quilowatt precisa ser entregue mesmo quando não há vento nem sol, e é nesse horário que entram as usinas termelétricas movidas a gás e a carvão.

Elas funcionam como um seguro contratado pelo sistema, acionado sempre que a natureza não colabora. A hidrelétrica, ainda a maior fonte do país, oscila com o regime de chuvas.

Em ano seco, o reservatório entrega menos energia justamente quando a demanda sobe. Quanto mais eólica e solar entram na matriz, maior fica a necessidade de potência firme para cobrir os intervalos sem vento.

O fóssil deixa de ser exceção de emergência e passa a alicerce permanente do abastecimento. A expansão de eólicas e solares continua prevista no plano e sustenta a parte limpa da matriz.

O que cresce junto, e garante o restante, é a conta do gás. O consumo de eletricidade não para de crescer, e cada nova carga precisa de garantia de entrega.

É esse crescimento que o plano usa para justificar a potência extra contratada fora das renováveis. A estimativa de 66% não vem de organização ambiental nem de crítica de oposição.

Sai do corpo técnico do Estado, o mesmo que organiza leilões e orienta onde o setor privado investe. O Plano Decenal é revisado e republicado a cada ano e funciona como bússola da expansão.

Nele, o governo indica quanta capacidade de cada fonte o país deve contratar na década seguinte. O dado é projeção, não medição.

A comparação é feita com o volume de emissões que o setor elétrico produz hoje, e a média projetada vale para a virada da década, não para um ano atípico. O Brasil já acionou usinas térmicas em anos de crise hídrica, quando o nível dos reservatórios despencou e o sistema precisou de reforço para evitar apagão.

A diferença agora é o volume e a permanência. A usina ligada na emergência era justificada pelo risco de curto prazo.

A usina que entra pelo plano decenal é estrutural, com contrato longo e lugar fixo na conta de emissões do país. A defesa do arranjo tem base concreta e é feita pelo próprio planejamento estatal.

Sem térmicas, sustenta o plano, o sistema fica exposto ao risco de não atender o pico de consumo em período de seca e de baixa geração renovável. O preço da garantia está no número que o plano projeta.

A segurança existe, mas tem custo fixo em emissão, cobrado por décadas, porque uma térmica construída hoje opera por muito tempo. Há um limite conhecido para esse argumento.

O setor elétrico não lidera as emissões brasileiras, hoje concentradas na mudança de uso da terra e na agropecuária, e é esse espaço que o planejamento usa para crescer. A reserva do sistema também pode vir de hidrelétrica com reservatório, baterias e linhas que ligam regiões distantes.

O plano escolhe cobrir a diferença com térmica. Quem consome eletricidade paga duas vezes.

A primeira na conta de luz, porque a energia de usina térmica sai mais caro que a de parque eólico ou solar. A segunda no clima, com um setor que poderia ser parte da solução empurrando mais gases para a atmosfera.

Indústria, comércio e agricultura herdam um sistema mais caro de operar e mais exposto a regras de carbono na fronteira. A União Europeia avança na cobrança de tarifa de carbono sobre produtos importados, e a eletricidade usada na produção entra nessa conta.

O Brasil chega à negociação com uma vantagem que ele mesmo reduz. O Plano Decenal não constrói usina.

Ele orienta os leilões de energia e a contratação que transforma projeção em turbina, cimento e chaminé. O que está em jogo nos próximos meses é quanto dessa potência fóssil será efetivamente contratada e por quanto tempo.

Cada leilão define uma fatia da poluição que o país entrega em 2036. A vitrine da matriz limpa continua de pé.

A conta por trás dela já tem data para chegar, e o prazo é 2036.

Publicação Original Cafezinho ocafezinho.com
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