Placar em derrota de Messias indica que até senadores próximos ao governo mudaram de lado na votação

 

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A histórica derrota do governo na indicação do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal contou com a traição até mesmo de senadores próximos ao governo. Uma análise feita pelo GLOBO revela o impacto da articulação feita pelos opositores do nome de Messias e que levou à primeira rejeição de uma indicação ao Supremo Tribunal Federal em 132 anos.

Messias teve apenas 34 votos a seu favor. O GLOBO considerou que esse número foi composto, ao menos, pela votação do núcleo mais alinhado ideologicamente ao governo: os senadores do PT, do PDT e do PSB que participaram da votação. Esse grupo conta com 18 votos. Entre eles, entretanto, há a presença de Rodrigo Pacheco: por um lado, seu nome era o preferido do senador Davi Alcolumbre, mas, por outro, Pacheco deverá contar com o apoio do PT para a disputa no governo de Minas Gerais.

Além desses 18 votos, outros 13 senadores declararam voto favorável ao senador Jorge Messias antes da votação: esse grupo é composto por sete senadores da bancada do MDB (Alessandro Vieira, Confúcio Moura, Eduardo Braga, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Renan Filho e Veneziano Vital do Rêgo), quatro senadores do PSD (Carlos Fávaro, Eliziane Gama, Lucas Barreto e Otto Alencar), além de Ciro Nogueira, do PP, e Dra. Eudócia, do PSDB. Com esse número, o grupo chegaria a 31 votos favoráveis a Messias, três a menos do que ele de fato obteve.

Por outro lado, a oposição teria, em tese, garantidos os votos de todos os 16 senadores do PL, além de outros 11 senadores que declaram voto contrário a Messias antes da votação, como cinco senadores do Republicanos, e Carlos Viana e Mara Gabrilli do PSD.

O outro grupo de 21 senadores em disputa inclui desde senadores notadamente oposicionistas, mas que não se pronunciaram, mas também senadores considerados próximos ao governo.

Um levantamento do GLOBO com base nas 23 votações nominais realizadas nessa legislatura no Senado em que houve orientação oposta entre governo e oposição revela que, pelo menos 5 senadores costumam votar com o governo em mais da metade das votações: Zenaide Maia, Fernando Dueire e Omar Aziz, do PSD, além da professora Dorinha Seabra, do União e de Marcelo Castro, do MDB.

Apesar disso, Messias teve apenas 34 votos na votação no Senado. Na prática, isso significa que ou dois desses cinco senadores votaram contra o indicado de Lula, ou algum dos senadores considerados garantidos e que tinham se comprometido a votar em Messias mudaram de lado.

A rejeição de Jorge Messias ocorreu em meio a uma articulação de bastidores atribuída ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), para ampliar votos contrários ao indicado, movimento que, segundo aliados, acabou sendo coroado pelo resultado final.

Quatro senadores ouvidos pelo GLOBO, sob reserva, relataram que Alcolumbre entrou em contato com parlamentares de centro, oposição e indecisos ao longo do dia, pedindo voto contrário a Messias e estimulando que esses senadores também buscassem convencer outros colegas.

Procurada, a assessoria do presidente do Senado negou veementemente que ele tenha pedido votos contra Messias.

A indicação de Messias foi marcada, desde o início, por uma divergência entre o governo e Alcolumbre. O presidente do Senado defendia o nome de Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga e se afastou do Planalto após a escolha.

Apesar disso, publicamente, o senador vinha adotando discurso de neutralidade, afirmando que garantiria apenas o rito da tramitação. A rejeição de Messias é vista por aliados do governo como uma crise sem precedentes.