A derrota de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na eleição presidencial já provoca uma reavaliação das articulações para o comando do Congresso em 2027. Integrantes do PL passaram a admitir o fortalecimento do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) para a recondução ao cargo com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A mudança de cenário já faz com que uma ala da sigla reconheça a chance de uma negociação do partido de Flávio Bolsonaro com o próprio Alcolumbre. Essa, porém, não é uma estratégia adotada pela sigla que conquistou a maior bancada da Casa.
Parlamentares ainda estão empenhados em eleger um senador da própria legenda. Até a derrota de Flávio, parte das articulações da direita trabalhava com a possibilidade de conquistar a presidência do Senado, com preferência pelo nome do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial.
Uma das configurações discutidas previa que, caso Marinho fosse chamado para um ministério em um eventual governo Flávio, a alternativa seria a senadora Tereza Cristina (PP-MS), cujo partido apoiou o candidato do PL no segundo turno. A definição das duas presidências será uma das primeiras grandes disputas políticas de 2027.
A derrota de Flávio retirou do PL a perspectiva de contar com o Planalto para ampliar sua capacidade de negociação, mas não eliminou a ambição do partido de transformar o resultado das eleições legislativas em poder no Congresso. Sem a perspectiva de um governo bolsonarista no Planalto, interlocutores do partido avaliam que Alcolumbre passa a ter mais condições de reunir apoio de outras legendas e garantir mais dois anos à frente do Senado.
A avaliação é que partidos de centro tendem a privilegiar a continuidade do atual presidente, em vez de apoiar uma candidatura do PL. A bancada de 28 senadores eleitos pela legenda é a maior da história do partido, mas ainda fica abaixo dos 41 votos necessários para eleger o presidente da Casa.
A recondução de um presidente do Congresso não é uma regra automática, mas a continuidade de quem já ocupa o cargo costuma ser favorecida pela capacidade de articulação e pela construção de alianças ao longo do mandato. Alcolumbre já trabalha pela reeleição e calcula ter apoio suficiente para permanecer no comando do Senado.
O presidente da Casa também já sinalizou a interlocutores que poderia fazer acenos à oposição, inclusive dando andamento a pedidos de impeachment. A possibilidade era vista por parte dos bolsonaristas como uma forma de abrir espaço para as pautas da direita no Senado e manter a pressão sobre o governo.
Com a vitória de Lula, porém, há parlamentares que avaliam que esse movimento pode ser freado, diante da nova configuração política e das negociações necessárias para a recondução de Alcolumbre. Apesar disso, uma ala do PL defende manter a candidatura própria.
Marinho já declarou publicamente que gostaria de presidir o Senado e chegou a apresentar a ideia como um projeto político ligado à agenda da direita, incluindo mudanças na relação entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Para esse grupo, a votação expressiva do partido nas eleições legislativas deve se traduzir em mais espaço na direção da Casa, mesmo sem a vitória presidencial.
A disputa também envolve a presidência da Câmara. Desde o primeiro turno o PL sinalizou que busca o comando da Casa em vez de apoiar automaticamente a recondução de Hugo Motta (Republicanos-PB), embora o deputado também tenha saído fortalecido com a vitória de Lula.
Integrantes do partido avaliam que Alcolumbre foi fortalecido pelo cenário e reconhecem que Motta também ganhou força com o resultado presidencial, por ter mantido interlocução com o governo e com partidos de diferentes campos políticos. Para eleger o presidente da Câmara, são necessários 257 votos no primeiro turno, caso todos os 513 deputados participem da votação.
Motta foi eleito em fevereiro de 2025 com 444 votos, apoiado por uma aliança de 17 partidos que reuniu desde o PT até o PL. O bloco somava 494 dos 513 deputados.
Na Câmara, o PL tem nomes como o líder da bancada, Sóstenes Cavalcante (RJ), e o deputado Altineu Côrtes (RJ) entre os citados para uma eventual disputa. A legenda, que elegeu 121 deputados, pretende usar o crescimento da bancada para reivindicar espaço na Mesa Diretora e nas negociações sobre o comando da Casa.
O Globo