Piso do frete sai pela culatra: caminhoneiro autônomo perde mercado

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Fonte da notícia: Brazil Journal Brazil Journal

A lei que reforçou o controle de preços do frete rodoviário, uma das primeiras medidas do inesgotável pacote de “bondades” pré-eleitorais do Governo Lula, está rendendo resultados opostos aos esperados por Brasília. Lançada em março por meio de uma medida provisória aprovada no Congresso em julho, a nova política de piso mínimo para o transporte de cargas prometia aumentar a renda dos caminhoneiros autônomos (e render votos entre um público visto como mais alinhado ao ex-presidente Bolsonaro). Meses depois, os números mostram outra história. A plataforma Frete.com, que registra movimentos de cerca de 900 mil caminhões e carregamentos de 25 mil empresas por ano em seu sistema, fez uma pesquisa com mais de 700 autônomos: apenas 8% disseram aprovar a tabela de frete mínimo como está hoje.  Na prática, a nova lei reduziu a quantidade de trabalho para 62% dos motoristas ouvidos, e 64% deles citaram piora no faturamento.

“Começamos a escutar os caminhoneiros reclamando que não tem cargas no mercado, que está ruim, aí fomos ver o que estava acontecendo. Olhamos na plataforma, fizemos um estudo dentro das milhões de transações que acontecem ali, e depois fizemos uma pesquisa com eles,” Federico Vega, o CEO e fundador da companhia, disse ao Brazil Journal.  O levantamento de dados de viagens, porém, apontou que não houve uma queda nos volumes que passam pelas estradas, e sim uma migração para veículos maiores, em geral operados por transportadoras. Como a tabela calcula o piso de frete por eixo e por distância, e não por tonelada transportada, os caminhões maiores se tornaram mais competitivos e tomaram mercado dos menores, tipicamente conduzidos por autônomos. Numa rota de 1.000 km, por exemplo, um rodotrem com nove eixos, que consegue levar muito mais carga, acaba na prática com um frete-piso de R$ 145 por tonelada, enquanto o valor para uma carreta – usada pelos autônomos – fica em R$ 245 por tonelada. Além disso, a contratação de transporte com empresas conta com vantagens tributárias na comparação com o caminhoneiro pessoa física. Com o mesmo preço de tabela, os CNPJs acabam sendo mais competitivos.  Em quatro grandes transportadoras do agronegócio, a fatia de fretes contratados com motoristas pessoa física caiu de 24% do mercado em 2025 para 14% em 2026. Ao sancionar a lei, o Presidente Lula disse que era “um dia importante para os caminhoneiros”, e o PT classificou a medida como “vitória” para a categoria em uma publicação em seu site. As novas regras, porém, reduziram a participação de carretas, veículos típicos dos autônomos, de 68% para 44% das viagens no agronegócio, segundo os dados da Frete.com.  Na pesquisa, 65% dos caminhoneiros disseram perceber que fretes que antes eram contratados com eles estão indo para transportadoras e empresas. Os impactos começaram ainda antes da MP, no ano passado, quando o Governo iniciou uma fiscalização eletrônica da tabela de fretes mínimos – criada ainda na gestão Michel Temer, após a histórica greve dos caminhoneiros. Após anos de baixo cumprimento da tabela – com jeitinhos por parte dos contratantes e vista grossa das autoridades – a fiscalização mais forte aumentou significativamente as multas aplicadas, e a MP reforçou ainda mais as regras, colocando multas de até R$ 1 milhão por descumprimento, que depois viraram lei. No mês passado, 43% das cargas foram transportadas em veículos grandes, na comparação com 14% em março, quando saiu a MP, e 10% em setembro passado, antes do início da fiscalização eletrônica, segundo as análises da Frete.com.  “Os caminhoneiros também disseram na pesquisa que o piso virou um teto. As transportadoras não estão usando o valor como um mínimo, mas como um preço tabelado. O dono da carga fala ‘vou te pagar o preço da tabela’, não tem mais negociação, e antes tinha,” disse o CEO da plataforma.  “Um de cada cinco caminhoneiros, 20% dos motoristas, já falam em sair do mercado. Em virar Uber, vender o caminhão. Então no longo prazo provavelmente teremos um impacto na quantidade de autônomos.” Com os caminhoneiros no centro de seu modelo de negócios, a Frete.com vinha monitorando desde o início os impactos da nova legislação. Vega criou a empresa em 2013, após notar, em viagens de bicicleta pelas estradas, que os postos de gasolina funcionavam como um “marketplace offline” para caminhoneiros, com anúncios em papel – um modelo ineficiente que deixava os motoristas muito tempo parados procurando carga.  Hoje são transacionados no app da Frete.com cerca de R$ 55 bilhões em fretes por ano, e a companhia, com 600 funcionários, também atua com intermediação de pagamentos e crédito para os caminhoneiros e empresas contratantes. Apesar das mudanças com a nova política de fretes, o CEO disse que a empresa mantém seu otimismo com o País e com o mercado de transportes no médio e longo prazo. Com operações também no México, a Frete.com está trabalhando para listar suas ações na Bolsa. “O plano é um IPO em 2028 nos Estados Unidos,” disse Vega, um argentino que antes de criar a companhia trabalhou como investment banker no JP Morgan.

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