‘Piratas de Ormuz’: Com memes e IA, humor vira arma de guerra viralizada de embaixadas do Irã para zombar e ironizar Trump

 

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“Piratas de Ormuz”, “velho” e até um vídeo em que apanha de Jesus. Em meio à elevada tensão entre os Estados Unidos e o Irã, em guerra há mais de um mês, embaixadas iranianas passaram a usar o humor e a provocação como “arma de guerra” contra o presidente Donald Trump nas redes sociais. Ao redor do mundo, os corpos diplomáticos da República Islâmica intensificaram uma ofensiva midiática combinando memes, vídeos gerados por inteligência artificial (IA) e outros conteúdos apelativos que frequentemente viralizam, enquanto autoridades iranianas utilizam linguagem igualmente provocativa para responder às ameaças. A tática tornou-se tão frequente que ganhou até nome: “Slopaganda” (termo que combina a expressão “desleixo/porcaria” com propaganda, referindo-se a materiais gerados por IA).

— [No entanto, o termo] Slopaganda é fraco demais para capturar o quão poderoso é esse conteúdo, que é altamente sofisticado — disse a especialista em propaganda Emma Briant à rede britânica BBC.

Contexto: Trump publica imagem de si mesmo que o retrata como uma figura semelhante a Jesus

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A ofensiva digital ganhou novo destaque após Trump publicar, na segunda-feira, uma imagem gerada por IA que o retrata como uma figura semelhante a Jesus Cristo. A imagem mostrava o republicano vestido de branco e vermelho, com suas mãos, que emitiam luzes brilhantes, tocando a testa de um homem aparentemente enfermo. A ilustração, que evocava a arte religiosa que retrata Jesus curando os doentes, foi apagada horas depois, e Trump disse acreditar que a imagem o mostrava como um médico da Cruz Vermelha.

Após a má repercussão da imagem — com cristãos de diversas tradições, incluindo muitos do universo MAGA, condenando a representação como “blasfêmia” —, a embaixada do Irã no Tajiquistão compartilhou um vídeo ecoando o caso, também gerado por IA. Nele, uma figura semelhante a Cristo desce do céu, desfere socos contra a figura de Trump representada como Jesus, fazendo o sangue jorrar, enquanto o presidente cai de um penhasco em um poço de lava. Ao fundo, uma voz masculina diz: “Chegou a sua prestação de contas”.

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No Zimbábue, a embaixada iraniana publicou uma imagem claramente gerada por IA que lembra o cartaz da popular franquia de filmes Piratas do Caribe. Nela, helicópteros voam sobre navios em chamas no mar, e o rosto de Trump aparece sobreposto ao protagonista. Ao fundo, o título do filme é substituído por “Piratas de Ormuz”.

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Em 5 de abril, Trump fez uma ameaça carregada de insultos ao Irã nas redes sociais: “terça-feira será o Dia das Usinas e o Dia das Pontes, tudo junto, no Irã. Não haverá nada igual. Abram a p*** do Estreito, seus malucos do c***, ou vocês vão viver no inferno. É só assistir! Louvado seja Alá”, escreveu ele, que, no mesmo dia, havia ameaçado enviar o Irã de volta à “Idade da Pedra” caso o país não aceitasse um acordo para encerrar a guerra. A República Islâmica, por sua vez, evitou responder no mesmo tom.

Em vez disso, classificou as ameaças como “estúpidas”, enquanto missões diplomáticas ao redor do mundo intensificavam as provocações. Embaixadas iranianas de Londres a Pretória, e de Nova Délhi a Moscou, lançaram uma campanha sarcástica nas redes sociais, atacando a lucidez mental de Trump. A ofensiva mais viral ocorreu após a exigência direta do americano para “abrir o Estreito”. A embaixada iraniana no Zimbábue respondeu com ironia no X: “Perdemos as chaves”, escreveu, desencadeando uma série de respostas entre as missões.

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“A chave está embaixo do vaso de flores. Só abra para amigos”, escreveu a embaixada do Irã na África do Sul, enquanto a representação na Bulgária acrescentou: “Portas abertas para amigos. Amigos de Epstein precisam de chaves”, escreveu, citando o pedófilo condenado Jeffrey Epstein, morto na prisão em 2019 enquanto aguardava julgamento por acusações de tráfico sexual. Rivais políticos de Trump acusam o presidente de iniciar a guerra contra o Irã para desviar a atenção da divulgação de milhões de documentos relacionados ao magnata condenado.

A primeira veiculação dos arquivos, no fim de 2025, expôs ligações entre bilionários, acadêmicos e políticos com Epstein. Embora Trump também tenha sido mencionado diversas vezes, ele negou irregularidades, afirmando que havia rompido contato com Epstein décadas antes. Ainda assim, a procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, que lidou com os arquivos, foi removida do cargo em 2 de abril. Segundo analistas, a condução do caso tornou-se um problema político crescente para o governo do presidente americano.

A 25ª Emenda

Uma parte significativa da campanha online focou em retratar Trump, de 79 anos, como mentalmente incapaz e desequilibrado. Também na África do Sul, a embaixada do Irã instou autoridades dos EUA a “pensarem seriamente na 25ª Emenda, Seção 4”, referindo-se ao dispositivo constitucional que prevê a remoção de um presidente considerado inapto. A missão acrescentou: “A Humanidade precisa saber que tipo de criaturas estão liderando o povo americano”, compartilhando uma postagem sugerindo que Trump “perdeu o juízo”.

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Em Londres, a embaixada iraniana adotou uma abordagem literária, publicando um poema persa de Rumi sobre os perigos de colocar uma espada nas mãos de um louco, acompanhando uma citação atribuída ao escritor Mark Twain: “É melhor manter a boca fechada e deixar que as pessoas pensem que você é um tolo do que abri-la e eliminar qualquer dúvida”.

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Ao mesmo tempo, diversas missões diplomáticas criticaram o uso de palavrões por Trump. A embaixada iraniana na Índia escreveu: “Xingar e insultar é comportamento de pirralhos maus perdedores. Controle-se, velho!”, enquanto a representação na Áustria colocou um grande aviso “+18” sobre uma captura da postagem de Trump. “O presidente dos EUA desceu a um nível sem precedentes de súplica, misturada com grosseria amarga e ameaças”, publicou, alertando que atacar a infraestrutura civil é “crime de guerra”.

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As embaixadas iranianas na África se destacaram pela frequência e alcance das publicações. Uma postagem da missão em Pretória afirmou: “Diga olá à nova superpotência mundial”, no dia em que entrou em vigor um cessar-fogo envolvendo EUA, Irã e Israel. Outra publicação contrapôs um desenho de uma pomba à sombra de um caça militar, em referência às falas de Trump de que seria um pacificador. Analistas apontam que o Irã escolhe países onde acredita não enfrentar repercussões negativas e onde pode encontrar simpatia pública.

O tom provocativo, porém, vai além das embaixadas. O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, publicou no X uma mensagem dirigida a Trump sobre os planos americanos de bloquear o Estreito de Ormuz: “Aproveite os atuais preços na bomba. Com o chamado ‘bloqueio’, em breve você sentirá saudades da gasolina a US$ 4–US$ 5”, escreveu, em postagem acompanhada por um mapa com preços de combustível na região de Washington. Em declaração anterior, ele afirmou que o Irã não se renderá “sob ameaças”.

‘Slopaganda’

A estratégia também inclui o uso intensivo de vídeos gerados por inteligência artificial. Em publicação separada, a embaixada na África do Sul compartilhou uma postagem que retratava Trump em um vídeo musical, no qual ele aparece pedindo para que navios possam atravessar o bloqueio. Ele diz em tom lírico: “Se você me bloquear, então eu bloqueio você”. A postagem trazia a legenda: “E a música popular de hoje: ‘blockade’, de Trump”.

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Conteúdos produzidos pela conta Explosive Media, inspirados em estética semelhante à de brinquedos Lego, mostram cenas com crianças, aviões militares e líderes políticos, apresentando o Irã como um país que resiste a um opressor global. Estima-se que os vídeos já tenham acumulado centenas de milhões de visualizações desde o início da guerra.

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Em alguns deles, Trump aparece em meio a documentos associados a Epstein, enquanto outros fazem referência a episódios como a morte de George Floyd. O criador dos conteúdos admitiu à BBC que o governo iraniano é um “cliente” da operação, embora tenha afirmado anteriormente que o projeto era independente. Analistas dizem que a produção busca atingir públicos ocidentais com linguagem culturalmente familiar e reforçar a narrativa iraniana.

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Apesar do tom humorístico, parte do conteúdo também aborda temas mais sensíveis. Uma embaixada iraniana usou IA para reanimar crianças que teriam morrido em um bombardeio, mostrando-as falando sobre sonhos para o futuro. Para especialistas, a estratégia visa suavizar a imagem do Irã e influenciar públicos jovens, ao mesmo tempo em que contorna a diplomacia tradicional e se comunica diretamente com usuários nas redes sociais.

Alguns analistas classificam a campanha como uma forma de “guerra memética defensiva”, voltada a responder à retórica americana, ao mesmo tempo em que a maioria dos iranianos não consegue usar a internet devido a um bloqueio nacional. Segundo eles, a produção de conteúdo em tempo quase real, logo após eventos militares ou políticos, amplia o impacto das mensagens e dificulta a verificação imediata das informações, aumentando o risco de interpretações equivocadas e de escalada nas tensões.

— A diplomacia tradicional não existe aqui. E isso embaralha nossa compreensão do que está acontecendo. Mas também aumenta o risco de interpretações equivocadas e de escalada — disse a especialista em guerra cibernética Tine Munk à BBC. — Estamos em uma espécie de limbo. (Com New York Times)