Por mais de 50 anos, uma importante pintura de Wassily Kandinsky, “A vida colorida”, permaneceu no museu Lenbachhaus, em Munique, emprestada por um banco da Baviera.
Agora, a obra será leiloada pela Christie’s, em Londres, com expectativa de receber lances superiores a US$ 30 milhões (R$ 155 milhões).
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A pintura pertenceu ao industrial judeu holandês Emanuel Albert Lewenstein, diretor de uma fábrica de máquinas de costura, e à mulher dele, Hedwig Lewenstein Weyermann.
Após a morte do casal, ocorrida antes da invasão alemã dos Países Baixos, os descendentes da família foram perseguidos pelos nazistas.
A obra acabou sendo vendida em um leilão em 1940, em circunstâncias que permanecem desconhecidas.
Em 2023, depois de analisar o contexto em que a transação ocorreu, a comissão consultiva do governo alemão responsável por casos de obras de arte saqueadas pelos nazistas recomendou que a pintura fosse devolvida à família Lewenstein.
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O banco alemão Bayern LB, então chamado Bayerische Landesbank, havia adquirido a obra em 1972.
No mesmo ano em que a recomendação foi feita, a instituição devolveu a pintura aos herdeiros de Lewenstein.
“A vida colorida”, executada em têmpera e guache, será um dos destaques do leilão de arte dos séculos XX e XXI da Christie’s, em Londres, marcado para 14 de outubro.
A casa espera que a obra seja arrematada por mais de US$ 30 milhões.
O maior valor já pago em um leilão por uma obra de Kandinsky foi de 37,2 milhões de libras esterlinas, cerca de US$ 45 milhões na época (R$ 232,2 milhões).
O recorde foi alcançado em 2023, quando a Sotheby’s vendeu “Murnau com Igreja II”, que também havia sido restituída aos herdeiros de seus antigos proprietários judeus.
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“A vida colorida” foi pintada em 1907, durante uma longa temporada de Kandinsky em Paris com sua ex-aluna, companheira e também artista Gabriele Münter.
Era, até então, a maior tela produzida pelo pintor.
A obra combina influências da vanguarda artística que Kandinsky encontrou nos salões e galerias parisienses com tradições culturais de sua Rússia natal.
A pintura apresenta um grupo de figuras vestidas com roupas coloridas em uma paisagem imaginária.
Algumas delas remetem ao folclore russo.
Um personagem toca um instrumento de sopro; outro segura um bebê.
Há ainda figuras empunhando espadas, pedindo esmolas, se abraçando ou rezando.
— Obras desse período são extremamente raras — disse Keith Gill, vice-presidente da área de arte dos séculos XX e XXI da Christie’s.
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Segundo ele, as poucas outras pinturas produzidas por Kandinsky naquele período estão atualmente em museus.
— Ela marca uma virada na arte moderna e na carreira de Kandinsky — afirmou Gill.
— É difícil exagerar a importância desse período em Paris para o desenvolvimento da arte moderna.
A percepção sobre a arte estava mudando mês a mês.
Kandinsky realmente não poderia estar em outro lugar para se tornar conhecido.
Lewenstein, que reuniu uma grande coleção de arte moderna, comprou a pintura em 1927.
Após a morte dele, acredita-se que sua mulher tenha deixado a obra no Museu Stedelijk, em Amsterdã, para que fosse mantida em segurança.
A pintura foi levada a leilão em outubro de 1940, poucos meses depois da invasão nazista dos Países Baixos.
Apesar de anos de pesquisa, não foi possível determinar em que circunstâncias ocorreu a venda nem quem colocou a obra em leilão.
A comissão consultiva alemã afirmou que havia diversos indícios de que a pintura havia sido confiscada em consequência da perseguição nazista.
Na ausência de evidências em contrário, concluiu que deveria ser presumido que a perda da obra havia ocorrido de forma involuntária.
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A Christie’s planeja exibir “A vida colorida” em suas unidades de Zurique, Paris, Nova York e Hong Kong durante o mês de setembro.
A partir de 8 de outubro, a obra ficará exposta em Londres, antes do leilão.
Os herdeiros de Lewenstein recuperaram ainda outras duas obras pertencentes à coleção da família.
Uma delas é outra pintura de Kandinsky, “Pintura com casas”, de 1909, que foi alvo de uma longa e acirrada disputa com a prefeitura de Amsterdã.
A terceira obra restituída é uma pintura do artista holandês Jan Sluijters.
— Muitos anos de luta se passaram, não apenas pela restituição à minha família, mas pela restituição de obras a muitas famílias judias — disse Francesca Lewenstein Davis, uma das herdeiras.
A família ainda procura cerca de 100 obras de arte, segundo James Palmer, fundador da Mondex Corp., empresa especializada na recuperação de obras saqueadas pelos nazistas.
— A tarefa é difícil, porque muitas das obras são de artistas menos conhecidos e muitas são desenhos ou gravuras — afirmou Palmer.
— Descobrimos que algumas obras foram oferecidas em leilões no passado e estamos fazendo o possível para localizá-las.
