Pictogramas que dão voz: conheça a comunicação alternativa para pessoas com autismo
Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem apresentar comorbidades associadas ao transtorno que impactam diferentes âmbitos do desenvolvimento. A comunicação social é uma das áreas mais afetadas.
Em alguns casos, pode haver comprometimento significativo na linguagem oral. E isso muitas vezes demanda a utilização de recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) para que o direito à comunicação dessas pessoas possa ser exercido.
A Comunicação Aumentativa e Alternativa reúne diferentes estratégias e tecnologias que ampliam ou substituem a fala. Entre elas estão pranchas de comunicação, aplicativos digitais e sistemas baseados em pictogramas — imagens e símbolos que representam palavras, objetos ou ideias.
Esses recursos permitem que pessoas com necessidades complexas de comunicação possam expressar desejos, opiniões, sentimentos e participar de interações sociais.
Nos últimos dois anos, desenvolvemos um projeto no laboratório Linguagem, Interação, e Construção de Sentidos em Design (LINC) da PUC-Rio que resultou na dissertação “Pictogramas como principal forma de comunicar: Comunicação alternativa para pessoas com TEA”.
O projeto foi defendido recentemente no Programa de Pós-Graduação em Design da mesma universidade.
A pesquisa teve como objeto a Comunicação Aumentativa e Alternativa para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) com necessidades complexas de comunicação.
O estudo buscou compreender como os sistemas baseados em símbolos visuais podem ser aprimorados para favorecer interações mais eficazes e significativas.
No projeto, procuramos identificar problemas e sugerir diretrizes aos designers. A ideia foi aprimorar a eficácia dos símbolos no atendimento às necessidades comunicacionais de pessoas com TEA que utilizam a Comunicação Aumentativa e Alternativa por meio de um aplicativo conhecido como TD Snap.
Esse software de comunicação auxilia na alfabetização e no desenvolvimento cognitivo de pessoas com diferentes deficiências, como síndrome de Down, apraxia, paralisia cerebral e TEA.
Com o intuito de tornar essa forma de comunicação mais inclusiva, direcionada e eficaz, foram observados dois usuários de comunicação alternativa com TEA e necessidades complexas de comunicação em contexto clínico.
O acompanhamento aconteceu durante as sessões de fonoaudiologia em uma clínica de terapias multidisciplinares localizada no Rio de Janeiro. Além disso, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com as mães e os terapeutas desses pacientes.
A ideia era buscar compreensão sobre como a comunicação mediada por símbolos ocorre em situações cotidianas, tanto no ambiente terapêutico quanto na vida familiar.
Uma característica importante deste estudo é a escuta atenta e o reconhecimento das múltiplas vozes envolvidas nesse processo comunicativo.
Ao considerar as experiências de usuários, familiares e profissionais, buscamos compreender não apenas o funcionamento dos sistemas de comunicação, mas também os desafios enfrentados no dia a dia.
Acreditamos que, com o apoio do design social e do design em parceria, é possível chegar a conclusões que beneficiem e valorizem as demandas dos usuários de Comunicação Aumentativa e Alternativa.
Essa abordagem parte do princípio de que as soluções de design devem ser construídas em diálogo com aqueles que efetivamente utilizam os sistemas.
As análises dos dados coletados nos mostram quatro caminhos de melhorias possíveis, que não se restringem apenas aos pictogramas, mas também a formas mais amplas de aprimorar a comunicação dos usuários.
Eficácia comunicativa
Pelo estudo, observamos que símbolos e imagens mais próximos aos existentes no cotidiano das crianças, denominados referentes concretos, ajudaram a compreensão dos usuários que participaram desta pesquisa.
Esse achado confirma o chamado “princípio da familiaridade”. Ele indica que os símbolos devem utilizar imagens que a pessoa já conhece do seu dia a dia. Quanto mais o símbolo se parecer com algo real e conhecido, mais fácil será compreendê-lo e utilizá-lo.
Além disso, fotos reais funcionam melhor do que desenhos genéricos. Quando os símbolos eram muito abstratos, as crianças precisavam de mais ajuda dos adultos para entender e usar.
Já quando eram imagens concretas, como a foto da escola, da professora ou do parquinho, os participantes conseguiram se comunicar com mais autonomia.
A pesquisa também mostrou que símbolos concretos facilitam a chamada atenção conjunta — situação em que duas pessoas compartilham o foco em um mesmo objeto ou evento.
Esse tipo de interação é um elemento importante no desenvolvimento da comunicação. E isso pode representar um desafio adicional para pessoas com TEA.
Assim, quanto mais clara e próxima da realidade for a imagem, menor tende a ser a necessidade de explicações adicionais e maior é a independência comunicativa do usuário.
Diante de nossas escutas e observações, recomendamos a criação de um banco de imagens, além do banco de pictogramas já existente.
A proposta é ampliar a disponibilidade de imagens concretas dentro do aplicativo, permitindo que elas sejam utilizadas na construção de sistemas de comunicação mais personalizados.
Concluiu-se que usar imagens concretas e familiares na Comunicação Aumentativa e Alternativa facilita o entendimento, reduz a necessidade de ajuda constante e aumenta a autonomia comunicativa da pessoa com TEA.
Limites da representação visual
Durante o estudo, percebemos também que símbolos abstratos são menos compreensíveis para pessoas com TEA e necessidades complexas de comunicação, especialmente quando representam emoções, sensações, desejos, tempo, verbos ou conjunções gramaticais.
Diferentemente de objetos concretos como “bola” ou “casa”, esses conteúdos não possuem uma forma visível clara no mundo real.
Nesses casos, os profissionais entrevistados explicaram que símbolos muito simples ou excessivamente abstratos — como um círculo com poucas linhas representando um rosto triste — exigem grande esforço de interpretação e podem acabar confundindo os usuários.
As interações observadas também mostraram que nem tudo pode ser resolvido apenas com desenhos ou pictogramas. Este é o caso de palavras gramaticais como “é”. Ainda assim, esses elementos precisam estar presentes nos sistemas de comunicação para permitir a construção de frases completas.
Concluímos, portanto, que é importante reconhecer os limites da representação visual. Para criar símbolos comunicativos mais eficientes, é necessário ouvir usuários, familiares e terapeutas, além de testar diferentes soluções junto a eles.
Nesse sentido, a abordagem de design conhecida como Design em Parceria mostra-se especialmente adequada para o desenvolvimento de sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa que respondam às necessidades reais das pessoas com TEA.
Potencial comunicativo versus restrição expressiva
O estudo mostrou ainda que esse tipo de comunicação tem sido utilizado principalmente para fazer pedidos e expressar necessidades imediatas. Essa função é extremamente importante. Ela ajuda a reduzir frustrações e facilita a rotina tanto na clínica quanto em casa.
No entanto, percebemos que essa limitação não ocorre apenas por dificuldades da criança. Ela também está relacionada à forma como os sistemas de comunicação são organizados e estimulados. Muitos priorizam palavras ligadas a pedidos, e as respostas rápidas, que esses pedidos geram, acabam reforçando esse padrão de uso.
Entretanto, a linguagem se desenvolve na interação com outras pessoas. Quando a Comunicação Aumentativa e Alternativa é utilizada apenas para pedir coisas, sua função torna-se limitada. A comunicação passa a servir principalmente para obter algo, e não para contar experiências, comentar situações, expressar pensamentos ou compartilhar sentimentos.
Por isso, acreditamos que seja importante ampliar o repertório de símbolos e situações de uso desse tipo de comunicação, permitindo que ela se torne também um meio de diálogo, troca e construção de sentido.
Construção de sentido comunicativo
O estudo mostrou que o sucesso da Comunicação Aumentativa e Alternativa para crianças com TEA não depende apenas do design dos símbolos, mas também da forma como os adultos os apresentam e ensinam.
Terapeutas e responsáveis desempenham um papel fundamental nesse processo. É na interação com o outro que os símbolos ganham significado e passam a ser utilizados de forma mais funcional.
Outro ponto observado foi a necessidade de maior adaptação cultural dos sistemas de comunicação. Alimentos comuns no Brasil, como arroz, feijão ou pão de queijo, por exemplo, muitas vezes não aparecem nos bancos de pictogramas disponíveis, o que exige adaptações ou o uso de fotografias.
Por isso, o estudo defende que o design desses sistemas deve ser desenvolvido em conjunto com usuários, familiares e terapeutas.
O Design em Parceria valoriza exatamente esse processo colaborativo, buscando criar soluções mais próximas da realidade e das necessidades das pessoas que utilizam a Comunicação Aumentativa e Alternativa.
*Caroline Figueiredo é pesquisadora nas interseções entre o design e o autismo. Mestre em design, PUC-Rio
*Daniela Marçal é pesquisadora do Observatório de Educação Especial e Inclusão Educacional (ObEE), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
*Jackeline Farbiarz é coordenadora do laboratório de pesquisa Linc- Design, PUC-Rio
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
