PicPay estreia na Nasdaq após leilão prolongado e abre em alta de 3,5%
Em sua estreia na Nasdaq, bolsa de valores dos Estados Unidos conhecida por concentrar empresas de tecnologia e companhias de crescimento, a PicPay, fintech brasileira controlada pela família Batista e que nasceu como uma carteira digital, iniciou as negociações às 14h01 (horário de Brasília), após permanecer quase três horas em leilão. Na abertura, as ações subiam 3,52%, a US$ 19,67.
Minutos depois, o papel reduziu o impulso inicial, mas seguiu operando no campo positivo. Por volta das 14h34, as ações avançavam 1,45%, cotadas a US$ 19,27.
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Listada sob o ticker PICS NV, a empresa estreia avaliada em US$ 2,6 bilhões e levantou US$ 434 milhões (R$ 2,5 bilhões) na oferta pública inicial (IPO) nos Estados Unidos.
O valor de estreia da ação saiu pelo preço máximo pretendido, de US$ 19. O banco digital havia oferercido as ações em uma faixa de US$ 16 a US$ 19.
O IPO do PicPay é a primeira estreia de grande porte de uma empresa brasileira desde dezembro de 2021, quando a Nu Holdings, o maior banco digital do país, abriu capital na Bolsa de Valores de Nova York. O Nubank, como a empresa é conhecida, tem hoje um valor de mercado de US$ 90,7 bilhões.
A oferta pública inicial pretende se beneficiar do aumento da demanda por ativos de mercados emergentes, um salto que ajudou a levar a Bolsa brasileira a patamares recordes.
Participantes do mercado afirmam que, apesar do alto custo de manutenção, a busca pela abertura de capital nos Estados Unidos facilita a captação do capital internacional.
Os acionistas controladores do PicPay, Wesley Batista (à esquerda), e,Joesley Batista, assinando o livro, na Bolsa de Nova York
Michael Nagle/Bloomberg
Lançado em 2012 na cidade de Vitória, no Espírito Santo, como uma carteira digital, o PicPay atualmente opera sob um modelo bancário completo, com cerca de 67 milhões de clientes em dezembro. A família Batista, que controla a JBS, maior produtora de carne do mundo, comprou a empresa em 2015. Atualmente o terceiro maior banco digital do país em número de clientes é apenas parte dos extensos negócios da família.
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Do começo, em 1953, com o que viria a se tornar a JBS, a maior produtora de carnes do mundo, o império empresarial hoje inclui empresas em setores como os de mineração e de produtos de higiene pessoal.
A fintech, que possui licença bancária e atua no Brasil, faz negócios com pessoas físicas e pequenas e médias empresas no país. Nos nove meses encerrados em setembro, o PicPay registrou lucro líquido de R$ 270,4 milhões (US$ 52 milhões) sobre uma receita de R$ 7,26 bilhões, ante um lucro líquido de R$ 150,8 milhões sobre uma receita de R$ 3,78 bilhões no mesmo período do ano anterior.
Na década passada, o PicPay era uma das empresas que buscavam trazer para o Brasil o modelo de carteiras digitais, em um momento em que transferências bancárias não estavam amplamente disponíveis. O negócio deu um salto durante a pandemia da Covid 19, que aumentou a disposição dos brasileiros em utilizar bancos digitais.
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Mas a chegada do Pix, o sistema de transferências instantâneas criado pelo Banco Central, forçou as instituições financeiras a oferecerem o serviço, eliminando uma vantagem competitiva que o PicPay e empresas similares possuíam.
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Bloomberg
Alguns rivais deram um passo atrás, e outras empresas diversificaram negócios, como o PicPay. A companhia abraçou um modelo de negócios baseado em crédito.
“Embora o PicPay tenha um ecossistema amplo e tenha sido lançado como uma carteira digital com menor volume de ativos, o crédito está se tornando cada vez mais relevante para seu modelo de negócio, lembrando o de bancos digitais como o Nubank”, disse o analista do BTG Pactual, Eduardo Rosman, em uma nota enviada a clientes no ano passado.
A empresa recrutou vários executivos de outras companhias do setor para fazer a virada, confiando em seus conhecimentos para começar ou escalar novos negócios — ou para tomar conta de suas próprias “mini empresas” na principal, como o presidente do conselho de administração, José Antonio Batista, costuma dizer.
O CEO, Eduardo Chedid, trabalhou para a bandeira de cartões Elo e para a adquirente Cielo, ambas ligadas a bancos tradicionais, antes de se juntar à empresa em 2021. O diretor de relações com investidores, André Cazotto, ajudou a liderar o IPO da PagSeguro em 2018. Outros executivos passaram por bancos como o Itaú Unibanco e o Banco do Brasil, os dois maiores do país em volume de ativos.
A transformação do negócio pode aumentar o patrimônio do CEO e do presidente do conselho com o IPO. Se a oferta for precificada no topo da faixa indicativa, as fatias de Batista e de Chedid combinadas atingiriam um valor de US$ 101,4 milhões, considerando os números que o PicPay apresentou no prospecto.
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O crédito foi a alavanca que ajudou o PicPay a sair de um prejuízo de R$ 1,9 bilhão em 2021 para um lucro de R$ 252 milhões em 2024. Nos nove primeiros meses do ano, o lucro líquido foi de R$ 314 milhões, segundo dados do prospecto do IPO.
O caminho para o lucro demandou uma mudança de planos — e muito dinheiro. O PicPay atuava apenas distribuindo crédito originado por terceiros, evitando os riscos e os requerimentos de capital que a concessão de crédito traz consigo. A estratégia mudou à medida que o cenário pós-pandemia intensificou a competição entre as fintechs brasileiras.
Os empréstimos tiveram um impulso em 2024, quando o PicPay assumiu a operação de varejo do Original, outro banco da família Batista.
O capital exigido também aumentou naquele ano, e o PicPay recebeu cerca de R$ 804 milhões em injeções de capital em 2025 para cumprir com as exigências. Com os planos de IPO adiados anos atrás, os Batista fizeram uma série de injeções, à medida que o modelo de negócio era convertido em banco, com índices de capital maiores.
O PicPay disse que uma adoção mais ampla de produtos de crédito pela base de clientes deve ser uma das principais alavancas de crescimento no futuro, e os recursos obtidos no IPO devem ajudar a financiar essa expansão.
A fintech tinha 67 milhões de contas abertas em dezembro, um crescimento de 11% em relação ao ano anterior. O PicPay estava atrás apenas do Nubank e do Mercado Pago, de acordo com os dados do BC relativos àquele mês. Ao contrário dos dois rivais, a empresa atualmente opera apenas no Brasil, expandindo em linhas de negócio ao invés de geograficamente.
Em um dos movimentos mais recentes, a fintech fechou um acordo para comprar a seguradora Kovr, que anteriormente pertencia ao Banco Master. O negócio ainda depende de aprovação, e o PicPay afirmou no prospecto do IPO que mesmo que tenha acontecido após o Master vender a Kovr aos executivos da companhia, pode ser afetado pela liquidação do banco. Os recursos provenientes do IPO devem ajudar a financiar a operação.
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