A Polícia Federal aponta o ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil) como 'articulador' e 'patrono' político de uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para lavar dinheiro e financiar integrantes do grupo. Canella foi preso na manhã desta quinta-feira, no Rio, na durante a oitava fase da operação Unha e Carne. Segundo a representação policial que embasou os pedidos de prisão preventiva, a estrutura investigada reunia empresários, agentes públicos e pessoas ligadas à política, com suspeitas de corrupção, ocultação de patrimônio e circulação de recursos de origem criminosa. A investigação identificou movimentações de aproximadamente R$ 7,64 bilhões entre maio de 2020 e março de 2026. Foram identificadas 835 pessoas físicas e jurídicas relacionadas a 2.171 comunicações de operações suspeitas. Também foram registradas quase duas mil ocorrências de depósitos em dinheiro vivo, que somaram cerca de R$ 310 milhões. A oitava fase da Operação Unha e Carne prendeu seis pessoas nesta quinta-feira. Além de Canella, foram presos o ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Vinicius Amim Fernandes, o empresário apontado como operador da rede Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, o secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo, Christiano Gaspar Fernandes, o policial civil Giovanni Gaspar Fernandes e José Carlos Alves de Souza Júnior. Em nota, a Polícia Civil afirmou que a Corregedoria da instituição participou da operação desta quinta e que não compactua com desvios de condutas de seus agentes. Em nota, Marcio Canella disse que “Confia em Deus, na Justiça e que tem certeza que tudo será esclarecido". Já a defesa de Marcus Amim afirmou que aguarda acesso à decisão para prestar prestar os devidos esclarecimentos. Como funcionava o esquema De acordo com a PF, o grupo teria escolhido o setor de combustíveis pela facilidade de movimentar grandes quantias em dinheiro e misturar receitas de origem legal e ilegal. Os investigadores identificaram uma rede de empresas formalmente independentes, mas conectadas por relações societárias, familiares e financeiras. Uma das suspeitas é que a titularidade formal de postos e empresas não correspondesse a quem efetivamente controlava os negócios. O uso de pessoas interpostas, conhecidas como laranjas, permitiria ocultar os responsáveis pela administração dos estabelecimentos e dificultar o rastreamento do dinheiro. A empresa ADM Oil Prestadora de Serviços para Postos de Gasolina aparece na investigação como uma espécie de intermediária financeira. Com capital social de R$ 10 mil, a companhia teria movimentado mais de R$ 45 milhões, recebendo transferências de empresas ligadas a duas sócias de postos e redistribuindo os recursos para outras pessoas físicas e jurídicas relacionadas ao grupo. Durante uma operação anterior, em julho deste ano, os policiais encontraram aproximadamente R$ 896 mil em dinheiro vivo nos cofres da ADM Oil, além de máquinas de contar cédulas, documentos financeiros e anotações manuscritas. Para a PF, os itens são compatíveis com a hipótese de que a empresa funcionava como ponto de circulação de recursos entre os integrantes do esquema. Márcio Canella tinha papel central na orgnaização, segundo a Polícia Federal A PF descreve Márcio Canella como o articulador político da organização criminosa e aponta indícios de que ele recebia valores provenientes da rede de postos. Anotações manuscritas apreendidas na residência de José Carlos Alves de Souza Júnior e da empresária Luisi Corrêa Pinho registrariam pagamentos recorrentes destinados ao político, inclusive sob o codinome “Amigo”. A representação também aponta que Canella teria atuado para viabilizar a indicação de Marcus Amim para cargos de comando na administração estadual. Segundo a PF, o político articulou mudanças legislativas que flexibilizaram requisitos temporais para a ocupação da presidência do Detran e, posteriormente, da Secretaria de Polícia Civil. Canella já havia sido preso em julho pela Polícia Federal, por porte ilegal de arma de fogo, mas a prisão em flagrante foi revertida pela Justiça. Já o ex-presidente do Detran e ex-secretário estadual de Polícia Civil, Marcus Amim é apontado pela PF como um elo institucional do grupo. A investigação identificou relações empresariais dele com duas outras investigadas, que aparecem como sócias formais de postos de combustíveis.
PF aponta Canella como 'articulador' e 'patrono' de esquema bilionário de lavagem de dinheiro no RJ
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