Petistas seguem cartilha para evitar judicialização de desfile, mas oposição domina no digital e anuncia novas ações no TSE
A cartilha publicada pelo PT com orientações para o filiados diante do desfile da Acadêmicos de Niterói com homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve resultado nas redes sociais, segundo levantamento da consultoria Bites realizado a pedido do GLOBO. Os dados mostram que os apoiadores da legenda evitaram o uso dos termos "Lula 2026" e concentrou ataques na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso e não é candidato neste ano. Por outro lado, houve dificuldade da base digital petista de dominar a discussão na internet, que foi amplamente liderada pela oposição com críticas ao uso de dinheiro público.
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O partido recomendou que os filiados não pedissem votos a Lula, evitassem postagens com a #Lula2026, o ataque a outros pré-candidatos e a distribuição de materiais com menções às eleições deste ano. Com a estratégia, o PT buscou evitar judicializações futuras por propaganda eleitoral antecipada.
"Nada de pedido de voto, nada de número de urna, nada de slogan eleitoral, nada de impulsionamento com caráter eleitoral. A legislação é clara e a gente não pode dar margem para questionamentos ou penalidades", disse o diretório estadual do PT no Rio em postagem nas redes sociais na sexta-feira.
Tom negativo
O tema reuniu 5,81 milhões de interações entre domingo — dia do desfile — e a manhã desta segunda-feira, com tom predominantemente negativo para Lula. Do total de menções no X (488 mil), 222 mil foram classificadas como negativas, e 126 mil como positivas, enquanto as demais foram consideradas neutras.
Os discursos que se sobressaíram no campo bolsonarista foram as "críticas questionando o uso de dinheiro público em um enredo exaltando o presidente e a hipótese de ilícito eleitoral por campanha antecipada". As postagens, segundo a Bites, indicam a percepção da direita de "inércia da Justiça Eleitoral, apontando que, se fosse Bolsonaro o homenageado, o desfile seria severamente punido".
Na última quinta-feira, o plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou, por unanimidade, dois pedidos para que o desfile da Acadêmicos de Niterói não ocorresse por configurar de propaganda eleitoral antecipada. Os ministros da Corte afirmaram que a proibição antes de o desfile ocorrer configuraria censura prévia, mas ressaltaram que poderá haver punição futura caso ocorram ilícitos eleitorais na avenida.
O senador e pré-candidato do PL à Presidência Flávio Bolsonaro afirmou que vai protocolar “rapidamente” no TSE uma ação contra o PT e criticou o uso de dinheiro público no desfile. A Acadêmicos de Niterói recebeu patrocínio das prefeituras do Rio e de Niterói, do governo estadual e da própria Embratur, agência do governo federal. Os repasses são feitos igualmente para todas as escolas.
O presidente nacional do Novo, Eduardo Ribeiro, também anunciou que a sigla ajuizará uma ação requerendo a cassação de registro e a inelegibilidade de Lula assim que o petista registrar sua candidatura ao Planalto. O partido avalia que o desfile “caracterizou abuso de poder político e econômico ao utilizar recursos públicos para promover a imagem de Lula em contexto pré-eleitoral”.
“Não estamos diante de um debate político, mas de um fato jurídico. Houve propaganda eleitoral antecipada financiada com dinheiro público. A consequência prevista na lei é clara e rigorosa”, disse Ribeiro. Segundo a legenda, o evento “deixou de representar uma manifestação cultural espontânea e assumiu contornos explícitos de promoção eleitoral”.
O senador Sergio Moro (União) classificou o desfile como um “deprimente espetáculo de abuso de poder, com enaltecimento de Lula, sem escândalos de corrupção, e com ataques ao adversário”. Já o ex-deputado federal Deltan Dallagnol (Novo) disse ter havido uma “revisão histórica com verna pública” e propaganda eleitoral.
A senadora Damares Alves (Republicanos) disse, por sua vez, ter havido um “desfile de crime” e relembrou que entrou na Justiça posteriormente contra o desfile. A parlamentar bolsonarista também criticou uma ala do desfile, pois, segundo ela, “ridiculariza a igreja evangélica e o agronegócio”.
'Sem anistia'
Já a base do governo apostou na pauta contra a anistia dos presos pelo 8 de janeiro, tentando evitar de certa forma condenações mais graves pelo carnaval. A Bites avalia que a repercussão desta frente e a empolgação de parte da militância com o desfile "acabou diminuindo um pouco o tom predominantemente negativo". Foram 23,8 mil menções a "sem anistia" no período.
Entre as postagens com mais repercussão no campo está a do vice presidente do PT em Minas Gerais, Pedro Rousseff. O sobrinho da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) disse que Lula "esbanjou carisma e afeto" ao cumprimentar o mestre-sala e porta-bandeira da Acadêmicos de Niterói. O desfile não contou com a presença do presidente ou de outro integrante do governo.
Lula acompanhou os quatro desfiles da noite em um camarote cedido pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, seu aliado, junto da primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, além de oito ministros e dezenas de aliados.
O petista desceu à Avenida por alguns minutos e interagiu com componentes da Acadêmicos de iterói quando ela passava pelo segundo recuo de bateria. Depois, ele voltou ao camarote, de onde aplaudiu e reverenciou a agremiação. O presidente foi embora às 4h53 desta segunda-feira, após o fim do último desfile.
O time do governo escalado para a festança foi: Anielle Franco (Igualdade Racial); Alexandre Padilha (Saúde); Alexandre Silveira (Minas e Energia); Esther Dweck (Gestão); Camilo Santana (Educação); Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais); Margareth Menezes (Cultura); e o vice-presidente Geraldo Alckmin, que é também ministro da Indústria e Comércio. Por orientação da Advocacia-Geral da União (AGU), as autoridades não desfilaram e evitaram dar declarações sobre a homenagem, em uma tentativa de evitar problemas na Justiça Eleitoral.
A primeira-dama, que sairia no último carro, foi substituída de última hora. Ela chegou ao camarote ocupado por Lula depois da comitiva presidencial, quando a escola já tinha iniciado o desfile. Não houve explicação oficial para a mudança de planos. O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, foi mais um que não desfilou na Niterói. Ele preferiu ficar só na Estação Primeira de Mangueira, sua escola, seguindo uma orientação do Palácio do Planalto.
