Pessoas LGBTQIAPN+ com mais de 60 anos são clicados nus para projeto de arte

 

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A paixão entre Dora Cudignola e sua companheira Sílvia Regina Fracasso, pode-se dizer, manifestou-se a “primeira teclada”. O ano era 2001, e os aplicativos de relacionamento como conhecemos hoje soavam como coisa de ficção científica. Aqueles que, por medo do preconceito, precisavam viver seus afetos com o máximo de discrição possível recorriam, então, às salas de bate-papo virtual em sites. Foi num desses canais que elas deram “match”. “O amor mais profundo que já senti e ainda sinto”, diz Dora, hoje com 77 anos.

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O encontro no chat se desdobrou em uma relação de 13 anos, em que o casal viveu sob o mesmo teto até que essa história fosse interrompida, em 2014, quando um AVC hemorrágico acometeu Sílvia. Mas foi somente no velório dela que Dora deu, pela primeira vez, um beijo na boca da companheira diante das pessoas. “Todos ficaram impressionados ao testemunhar o meu amor. Hoje, me arrependo de não o ter vivido livremente, enquanto ela estava viva”, diz. “Por outro lado, depois desse episódio, nunca mais tive medo de falar sobre isso.”

Dora conta sua história no quarto episódio do podcast

Rafael Medina

A história de Dora é contada no quarto dos seis episódios do podcast “Drops LGBT60+”, de Rafael Medina. Trata-se do mais recente desdobramento do projeto “O mais profundo é a pele”, em que o fotógrafo carioca registra o envelhecimento da população LGBTQIAPN+. Na primeira parte do trabalho, ele clicou 26 pessoas entre Rio, São Paulo e Maceió, todas com os corpos nus. “Mostro detalhes da passagem do tempo em suas peles para que sejam vistos como belos, e não como sinais de decadência”, ele descreve.

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Desde o princípio, Rafael tinha uma preocupação de que o trabalho não ressoasse como denúncia ou ganhasse contornos melancólicos. “Busquei personagens que desafiem a noção clássica de envelhecimento”, diz. “Esse grupo é frequentemente mostrado como pessoas que não desejam, não fodem. Além disso, há uma infantilização de quem cruza uma determinada idade.”

No caso dos LGBTQIAPN+, outras camadas tornam a maturidade ainda mais complexa. Para muitos, foi uma etapa interrompida pela marginalização e pelo preconceito, além de episódios traumáticos como a epidemia de HIV. “Quando me entendi como homem gay, não havia referências para a vida adulta e sabia que não teria o mesmo futuro dos meus pais ou dos meus avós. Tampouco via homens gays, mulheres lésbicas e, muito menos, pessoas trans à minha volta nessa faixa etária.”

O fotógrafo Rafael Medina é o autor projeto

Rafael Medina

Na pesquisa, contudo, Rafael encontrou histórias animadoras contadas por gente que se casou depois dos 60 anos ou até mesmo venceu um concurso de fisiculturismo como mais de 70. Ao reunir os registros fotográficos para uma exposição no Museu da Diversidade Sexual, em São Paulo, no ano passado, gravou alguns depoimentos em vídeo para exibi-los na mostra, mas se deu conta de que muitas histórias ficaram de fora. Resolveu, então, gravar o podcast que, conforme adianta, deve ganhar uma segunda temporada em breve.

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Por mais que as histórias tenham contornos dramáticos, os personagens ouvidos têm em comum o ímpeto de não sucumbir. “Há uma ideia difundida de que, a certa altura da vida, não vamos conquistar mais nada. Acho muito importante desafiarmos esse imaginário”, diz Rafael. Dora, por exemplo, passou por um período de luto profundo ao longo de dois anos, após a morte da companheira, mas “soube sobreviver”. Tornou-se integrante da ONG Eternamente Sou, com sede em São Paulo, voltada ao acolhimento e ao bem-estar da população LGBTQIAPN+ idosa, onde divide sua experiência com diferentes pessoas. “Achava que a nossa história era a mais triste”, ela comenta. “Mas, quando entro em contato com outras narrativas, vejo o quanto vivemos algo maravilhoso.”

O mesmo olhar generoso sobre a própria trajetória aparece nas falas do ator e bailarino Márcio Januário, de 61 anos. Ele tem, entre os projetos, o monólogo “As canções de amor de um bixa velha”, inspirado justamente por essa temática. “Cerca de dez anos atrás, estava morando na Bahia e ficava o dia inteiro pelado, fumando maconha, até que me deparei com uma matéria sobre o envelhecimento dos gays”, recorda-se o carioca. “Não sabia o que era ser velho. Só percebemos isso quando nos colocam nesse lugar. Até porque tenho o mesmo fogo no rabo de quando tinha 15 anos.”

O bailarino e ator Márcio Januário criou um espetáculo sobre o envelhecimento gay

Rafael Medina

A repercussão da montagem, ele diz, foi um tanto surpreendente. “Achei que fosse ficar num lugar meio cult, mas os jovens adoraram, assim como muitas mulheres”, orgulha-se. O sucesso, acredita, é sinal dos tempos em que a solidão acomete a todos, independentemente da idade. Mas tem a ver também com uma postura considerada fundamental por ele e mostrada em cena: saber olhar para a frente é uma virtude. “O maior erro é ficar achando que bom mesmo é Chico Buarque e Caetano Veloso, e Anitta é horrível. O segredo é manter-se uma pessoa tão interessante quanto interessada.”

Palavras de alguém que “sempre quis ser velho” e achou a infância e a adolescência “um tédio”. “Você só precisa aprender a viver sozinho de maneira produtiva e prazerosa, mas sem perder as conexões”, aconselha, numa reflexão que o liga a outro entrevistado do podcast, o dramaturgo e ator Leo Moreira Sá, de 68 anos. Ele vive em uma chácara em Parelheiros, último distrito da grande São Paulo, de onde mantém-se ativo pelas redes sociais, enquanto desfruta a calmaria de quem superou alguns altos e baixos.

Preso por tráfico de drogas aos 45 anos, ele começou a compreender a própria transmasculinidade na penitenciária feminina, de onde saiu aos 50. Até então, entendia-se como mulher lésbica e desconhecia a existência de outras identidades. “Só existiam as travestis”, recorda-se. “Eu me reconstruí naquele momento. A minha trajetória tomou outro rumo. Fiz um espetáculo autobiográfico, participei de séries e filmes.”

O dramaturgo e ator Leo Moreira Sá, de 68 anos, compartilha sua história no podcast

Rafael Medina

Sem referências, Léo precisou inventar um jeito próprio de existir justamente enquanto a maturidade já despontava no horizonte. Na juventude, havia cursado Ciências Sociais na USP, mas não conseguiu concluir. Depois, experimentou o sucesso como baterista do grupo punk “As Mercenárias”, mas, com o fim da banda, passou a atuar como empresário da noite paulistana e tornou-se dependente químico por dez anos, até ser preso. “Hoje vejo que caí nas drogas justamente em função do meu conflito identitário. Não conseguia achar o meu lugar. Na prisão, quando me tiraram tudo, pude realmente olhar para mim.”

Munido de experiências tão radicais, o que ele diria, então, ao seu “eu” mais jovem sobre o envelhecimento? De sua chácara, cercado por 17 gatos e 14 cachorros, ele manda boas notícias de alguém que vive sóbrio e em paz: “Você não tem noção do que te aguarda! Vá em frente, mesmo que atirem pedras ou promovam algum ‘cancelamento’. O futuro é brilhante”.