Pesquisas em quatro estados mostram dificuldade de aliados de Flávio entre mulheres e dos de Lula entre evangélicos
Os recortes por segmentos nas mais recentes pesquisas Genial/Quaest para governador dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul mostram que as disputas locais espelham dificuldades enfrentadas pelo bolsonarismo, entre o eleitorado feminino; e pelo petismo, no caso de eleitores evangélicos. Nesses quatro estados, as primeiras colocações nas pesquisas são ocupadas até aqui por aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL).
As disputas locais indicam que os candidatos mais à direita performam melhor entre os homens e têm desempenho inferior entre as mulheres, enquanto nomes do campo lulista enfrentam barreira semelhante entre os evangélicos.
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Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) abre ampla vantagem no eleitorado masculino, com 44% das intenções de voto, contra 23% de Fernando Haddad (PT). Já entre as mulheres, a diferença diminui e há empate técnico na margem de erro: Tarcísio aparece com 33%, enquanto o petista soma 30% de apoio no eleitorado feminino.
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Na disputa pelo governo do Rio, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) lidera com vantagem nos dois públicos, mas também registra disparidades no desempenho a depender do público. Se entre católicos, ele chega a 38%, entre evangélicos, segmento ao qual vem fazendo acenos, pontua 10 pontos percentuais a menos (28%).
Já o presidente da Assembleia do Rio (Alerj), Douglas Ruas (PL), aliado de Flávio, tem mais que o dobro do apoio masculino em relação ao feminino. Enquanto 13% dos homens indicam apoio ao candidato do ex-governador Cláudio Castro, apenas 6% das mulheres declararam voto no bolsonarista.
No Paraná, o senador Sérgio Moro (PL), que concorre ao governo do estado, aparece à frente em ambos os grupos. Porém, assim como os outros candidatos de direita, tem desempenho discrepante entre homens e mulheres — atrai 44% dos homens, contra 31% das mulheres. Por outro lado, seu principal adversário, o segundo colocado na pesquisa eleitoral, Requião Filho (PDT), chega a 21% no eleitorado feminino, ante 14% entre os homens.
No Rio Grande do Sul, o cenário é mais equilibrado e o fenômeno se manifesta apenas no recorte por gênero. Juliana Brizola (PDT) e Luciano Zucco (PL) estão empatados tecnicamente na disputa do primeiro turno. Enquanto a neta de Leonel Brizola lidera entre as mulheres com 21%, ante 16% de Zucco, o bolsonarista aparece numericamente à frente entre os homens, com 27%, contra 26% de sua adversária.
Acenos dos candidatos
A cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), explica que a preferência das eleitoras por nomes mais à esquerda passa por fatores culturais, mas também pela dificuldade da direita em atender demandas desse segmento.
— Historicamente, as mulheres foram associadas a áreas como cultura, educação e assistência social, como se tivessem uma aptidão natural para esses campos. A própria sociedade delega a elas o cuidado com crianças, idosos e pessoas com deficiência, por exemplo. Isso faz com que parte do eleitorado feminino identifique em candidatos de esquerda uma maior sensibilidade para essas pautas. É uma percepção que se naturalizou ao longo do tempo. Além disso, o voto feminino tende a ser mais crítico, e muitas vezes as propostas da direita não dialogam diretamente com as demandas e prioridades dessas eleitoras — avalia.
Na pré-campanha, Flávio já tem intensificado seus discursos voltados para as mulheres como forma de evitar repetir a forte rejeição do eleitorado feminino a Jair Bolsonaro. Pesquisas eleitorais na campanha de 2022 mostraram que a rejeição das mulheres ao então presidente ultrapassou os 60%. Como mostrou O GLOBO, Flávio passou a citar números da segurança pública como argumento de que, no governo de seu pai, as mulheres eram “mais protegidas”.
Já Lula tem feito sinalizações aos evangélicos, segmento que aderiu a Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais. Em fevereiro, enfatizou que "90% dos evangélicos recebem benefícios sociais do governo" durante um discurso. O petista, no entanto, viu a relação com lideranças religiosas sofrer um desgaste provocado pelo desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio. A escola, que homenageou o presidente este ano, levou para avenida a ala “Neoconservadores em conserva”, que trazia famílias dentro de latas, algumas com adereços com referência religiosa.
O cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Josué Medeiros, lembra , contudo, que a erosão dessa relação começou ainda em 2010, na primeira eleição de Dilma Rousseff (PT), quando o tema aborto começou a ser explorado nas campanhas por seu então adversário José Serra.
— Até então o evangélico tendia a votar em Lula, em uma convergência com o eleitorado mais periférico e de menor renda, alinhado à agenda social que marcou seus governos — explica Medeiros. — Depois (hoje senadora) Damares Alves se aproximou de Jair Bolsonaro para fazer oposição ao governo no Congresso. Desde então, essa inflexão se aprofundou e se consolidou, formando o cenário atual, em que entre 60% e 70% do eleitorado evangélico tende a votar em candidatos de direita à Presidência.
*estagiário sob supervisão de Marlen Couto
