Os impactos do El Niño sobre a produção de hortaliças no Brasil exigem adaptações no manejo das lavouras, segundo pesquisadores da Embrapa Hortaliças. Em estudo, os especialistas apontam os riscos associados a temperaturas elevadas, chuvas intensas e períodos de seca e recomendam mudanças no calendário de plantio, no manejo da água e na escolha de variedades adaptadas às condições climáticas de cada região.
A maior parte das hortaliças se desenvolve melhor em temperaturas entre 18°C e 25°C e depende de disponibilidade regular de água. Com o aumento das temperaturas, cresce a evaporação e a necessidade de irrigação, o que pode agravar a escassez hídrica, elevar a salinidade do solo e favorecer a ocorrência de pragas.
Em períodos de chuva intensa, o excesso de água pode comprometer o desenvolvimento das raízes e aumentar a incidência de doenças fúngicas e bacterianas. Os efeitos variam conforme a cultura.
Tomate, pimentão e batata, por exemplo, são sensíveis ao calor, que pode prejudicar o florescimento e a frutificação. Alface, coentro, couve e brócolis estão entre as hortaliças mais vulneráveis à exposição a altas temperaturas e à falta de água.
Já cenoura, beterraba e batata-doce dependem de estabilidade hídrica para o desenvolvimento das raízes. Para reduzir os riscos, a Embrapa recomenda monitoramento climático, flexibilização das épocas de plantio, escolha de materiais genéticos adaptados e manejo integrado da água e do solo.
O estudo também destaca medidas de proteção das lavouras contra extremos de temperatura e o acompanhamento preventivo de pragas e doenças. As estratégias devem considerar as diferenças regionais.
No Norte e no Nordeste, as orientações priorizam a irrigação localizada e o controle da salinidade. No Sul, o foco é reduzir problemas provocados pelo excesso de chuva e pelas doenças associadas à umidade.
No Centro-Oeste e no Sudeste, os pesquisadores indicam recursos como sensores de umidade, telas anti-insetos e cultivo protegido. Outra medida apontada é ampliar o uso de práticas conservacionistas, como o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH) e o cultivo mínimo.
Essas técnicas ajudam a reduzir a temperatura na superfície do solo, favorecem a infiltração de água e diminuem a evaporação e a erosão. Para o pesquisador Marcos Brandão Braga, as medidas não devem ser adotadas apenas como resposta a episódios isolados do El Niño, mas como parte de uma mudança na produção.
"As recomendações propostas não devem ser enxergadas como uma opção pontual, mas sim como o início de uma transição na forma como se cultivam hortaliças no Brasil, por meio de sistemas mais resilientes e adaptados climaticamente”, sugere. O trabalho foi elaborado por pesquisadores da Embrapa Hortaliças e integra um esforço institucional da empresa que reúne mais de 160 medidas para o gerenciamento de riscos climáticos diante de fenômenos extremos.
Globo Rural