Pesquisadores criam vacina que aumenta a sobrevida de pacientes com câncer cerebral agressivo; entenda
Um ensaio clínico de fase inicial co-liderado por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis mostrou que uma vacina personalizada para tratar o glioblastoma — câncer cerebral de crescimento rápido e incurável que afeta quatro em cada 100.000 pessoas nos EUA — é segura e induz respostas imunológicas robustas e abrangentes que parecem aumentar a sobrevida de pacientes pós-cirurgia.
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Na análise, pacientes com uma forma particularmente agressiva de glioblastoma não tiveram efeitos colaterais graves após o uso da vacina e ainda tiveram a sobrevida global prolongada em comparação com os resultados históricos após cirurgia e quimiorradioterapia padrão.
Um paciente sobrevivente de longo prazo permanece sem recidiva quase cinco anos depois. Os resultados do ensaio clínico de fase 1, conduzido no Siteman Cancer Center, vinculado ao Barnes-Jewish Hospital e à WashU Medicine, foram publicados na revista Nature Cancer.
O estudo foi liderado em conjunto pelo Mass General Brigham e pela Geneos Therapeutics, uma empresa de biotecnologia sediada na Filadélfia.
"Estamos extremamente animados com esses resultados. Este tipo de vacina é inédito para o glioblastoma, e é empolgante pensar em como podemos aproveitar essa plataforma de vacina terapêutica de DNA individualizada para causar um impacto positivo na vida dos pacientes que lutam contra essa doença. Além disso, terapias combinadas que utilizam essa plataforma personalizada estão sendo investigadas na WashU para verificar se os resultados podem ser ainda melhores”, afirmou Tanner M. Johanns, autor principal do estudo e professor assistente da Divisão de Oncologia do Departamento de Medicina John T. Milliken, da WashU Medicine.
Como funciona?
Johanns afirmou que, embora algumas imunoterapias direcionadas ao glioblastoma tenham se mostrado promissoras em estudos anteriores, elas acabam sendo ineficazes para retardar ou prevenir significativamente a recorrência.
A vacina utiliza moléculas de DNA modificadas para estimular o sistema imunológico do paciente contra o câncer. Cada tumor possui proteínas únicas e específicas, e o imunizante ativa o sistema imunológico do paciente para reconhecer essas proteínas e eliminar as células tumorais.
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Ainda segundo o pesquisador, isso ocorre porque o glioblastoma pode evoluir e escapar do ataque imunológico, mas a vacina de Johanns foi projetada para ajudar o sistema imunológico a reconhecer muitos alvos diferentes nas células cancerígenas. Assim, mesmo que o tumor perca vários desses alvos, a vacina ainda é capaz de gerar respostas a muitos outros.
Além disso, o glioblastoma é classificado como um tumor "frio", o que significa que o ambiente tumoral consegue se esconder do sistema imunológico. A nova vacina transforma tumores frios em tumores "quentes", que se tornam suscetíveis à erradicação mediada pelo sistema imunológico. Sendo assim, ela consegue melhorar a resposta imune do paciente ao atingir proteínas nas células cancerígenas e ao tornar o ambiente dentro do tumor mais favorável à ativação imunológica.
"Escolhemos uma plataforma baseada em DNA porque ela nos permitiria atingir mais proteínas cancerígenas do que qualquer vacina havia atingido antes. Nossa ideia era que, se conseguíssemos gerar uma gama mais ampla de respostas imunológicas contra essas proteínas, isso poderia levar a uma vacina mais potente em comparação com outras plataformas de vacinas com alvos proteicos mais limitados”, explicou Johanns.
Os pesquisadores afirmam que a nova vacina foi capaz de ativar o sistema imunológico de cada paciente para buscar até 40 proteínas cancerígenas específicas para o tumor de cada paciente — o dobro do número de proteínas que haviam sido alvo de qualquer terapia de vacina contra o câncer até então.
Resultados
A vacina em estudo, chamada GNOS-PV01, tem como alvo os chamados neoantígenos — proteínas exclusivas das células cancerígenas de cada paciente, que são reconhecidas pelas células imunológicas.
Os neoantígenos foram identificados e selecionados usando um algoritmo desenvolvido na WashU Medicine. Johanns e seus colegas selecionaram neoantígenos de diferentes regiões do tumor do paciente, um método que incorporaram para aumentar ainda mais o número de proteínas das células cancerígenas visadas pela vacina.
O ensaio clínico recrutou nove pacientes adultos que haviam sido diagnosticados recentemente com glioblastoma. Todos os pacientes foram tratados no Siteman Cancer Center. A equipe preparou uma molécula de DNA sintética que codificava as informações exclusivas dos neoantígenos tumorais de cada paciente.
As injeções da vacina começaram, em média, 10 semanas após a cirurgia do paciente e foram administradas a cada três semanas durante um período de nove semanas, e depois a cada nove semanas, enquanto os pacientes pudessem participar.
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Todos os participantes, exceto um que estava tomando um esteroide imunossupressor, apresentaram um aumento na atividade das células imunológicas, indicando uma resposta à intervenção da vacina.
Dois terços dos pacientes não apresentaram progressão do câncer seis meses após a cirurgia, e dois terços sobreviveram um ano — sem a vacina, apenas 40% dos pacientes com glioblastoma atingem um desses marcos.
Dois terços dos participantes estavam vivos após dois anos, o que representa o dobro da taxa de sobrevida histórica para essa população de pacientes.
Uma participante permanece viva e sem recidiva até hoje, quase cinco anos após o diagnóstico inicial.
