Pesquisa revela os sonhos dos moradores das favelas brasileiras
A pesquisa "Sonhos da Favela" — realizada pelo instituto Data Favela com 4.471 moradores de comunidades de todo o país maiores de 18 anos — fez um mapeamento sobre aspirações da população que ainda enfrenta barreiras em relação à segurança pública, ao mercado de trabalho e à desigualdade racial. O levantamento foi feito com base em um questionário apresentado via aplicativo de mensagens WhatsApp.
Segundo o estudo — realizado em parceria com a empresa de tecnologia Data Goal nas cinco regiões brasileiras, com ênfase no Rio de Janeiro e em São Paulo —, 47% dos moradores das comunidades apontaram o direito de ir e vir com tranquilidade como principal preocupação, demonstrando a falta de confiança em instituições como as polícias Civil e Militar na garantia de proteção contra a violência.
Ao serem indagados sobre o que achavam da presença das polícias nas favelas, 25% afirmam que a presença não altera a sensação de segurança, e 24% optaram por não responder. Outros 22% se sentem mais seguros. Uma parcela (13%) disse sentir medo e insegurança com a presença de policiais.
"O anseio por transitar sem medo não é um pedido de repressão, mas um clamor por um direito fundamental", disse Marcus Vinicius Athayde, copresidente Data Favela.
Violência contra a mulher
A pesquisa mostrou ainda que sete em cada dez (66%) entrevistados consideram a violência doméstica e o feminicídio como os maiores problemas enfrentados pelas mulheres nas favelas. Neste caso, uma das medidas indicadas para a contenção dessa violência seria a emancipação econômica feminina. Em seguida, foram citados dificuldade com emprego e renda (43%) e falta de apoio no cuidado com os filhos (37%).
Por isso, a maioria dos participantes da pesquisa defendeu a necessidade da criação de programas de renda e trabalho para mães solo como possibilidade de redução da vulnerabilidade.
Quando perguntados sobre qual política pública consideram mais urgente para as mulheres, as respostas mais frequentes dos entrevistados foram: criar programas de inserção no mercado de trabalho para mães solo (62%), fazer campanhas de educação contra o machismo (44%), ter delegacias e serviços com atendimento 24 horas (43%) e investir em cuidado com a saúde da mulher (39%).
"A pesquisa deixa nítido que a violência contra a mulher é a barreira mais cruel nos territórios", disse Cléo Santana, copresidente Data Favela, completando: O sonho da favela para 2026 passa, obrigatoriamente, por segurança e autonomia das mulheres".
Ocupação
Considerando os temas ocupação, estabilidade, barreira racial e economia da favela, a pesquisa revelou que apenas 25% dos moradores das comunidades de todo o país têm empregos com carteira assinada, 34% estão informais (entre aqueles que não têm registro formal e os que fazem bicos), 17% estão desempregados (desocupados), 8% têm um negócio, e 8% estão fora da força de trabalho (entre aposentados e estudantes).
O racismo estrutural é apontado como obstáculo no mercado de trabalho: 50% dos participantes da pesquisa disseram sentir que cor da pele reduz suas oportunidades de ascensão profissional. Por isso, 40% dos entrevistados afirmaram que o governo deve priorizar programas para elevar a empregabilidade de pessoas negras, além de continuar investindo em cotas raciais na Educação.
Benefícios sociais
No geral, 56% dos moradores disseram não ter nenhum tipo de benefício do governo, seja auxílio-gás, aposentadoria ou pensão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), tarifa social de energia elétrica, seguro-desemprego.
Entre os que recebem algum tipo de benefício, o mais citado foi o Bolsa Família/Auxílio Brasil (29%).
Infraestrutura
Em relação à infraestrutura dos lugares onde moram, os entrevistados disseram que gostariam de mudanças em relação a saneamento básico (26%), educação (22%), saúde (20%), transporte (13%) e meio ambiente (7%).
Consumo hoje
O supermercado é o principal destino na hora das compras de mês (citado por 59%). O mercadinho dentro da comunidade foi mencionado por 26%, e o atacado, por 9%.
Futuro
Ao projetar o futuro de suas famílias em 2026, eles declararam seus principais desejos: uma casa melhor (31%), saúde de qualidade (22%), ingresso dos filhos na universidade (12%) e segurança alimentar (10%), entre outros.
Como sonho profissional, os destaques foram: ter o próprio negócio (citado por 38%), trabalhar com o que gosto (24%), passar em concurso público (16%) e conseguir um emprego (6%).
“Ouvir quem vive a favela todos os dias muda o centro da narrativa: não se trata apenas de ‘falar sobre’, mas de construir dados com as pessoas, a partir do que elas consideram urgente, possível e necessário. Isso tem impacto direto na forma como políticas públicas são desenhadas, como empresas se relacionam com esses públicos e como a imprensa retrata as periferias”, disse Cléo Santana.
Perfis dos entrevistados
A pesquisa foi realizada entre os dias 11 e 16 de dezembro de 2025. O perfil dos entrevistados foi dividido da seguinte forma: pessoas de 30 e 49 anos (58%), cidadãos de 18 a 29 anos (25%) e participantes com mais de 50 anos (17%). Além disso, 62% são mulheres, e 75% se identificam como heterossexuais.
Em relação ao estado civil, 46% são solteiros (namorando ou não); 17% moram junto; 29% são casados; 6%, divorciados; e 2%, viúvos.
Além disso, 82% se identificam como negros (49% se declaram pardos e 33% se declaram pretos) e 15% se declararam brancos.
Considerando a escolaridade, 13% declararam ter ensino fundamental incompleto, 8% disseram ter ensino fundamental completo; 35%, ensino médio completo; 11%, ensino superior completo; e 5%, pós-graduação.
No quesito renda, 58% ganham até um salário mínimo por mês (R$ 1.621). Em seguida, 27% disseram receber de R$ 1.521 a R$ 3.040, enquanto o restante declarou ter renda acima de R$ 3.040.
