Pesquisa mostra que 82% dos brasileiros aprovam câmeras nas polícias, e só 20% acham que ‘bandido bom é bandido morto’
Apesar da violência ser a principal preocupação da sociedade, apenas 20% da população brasileira concorda com a frase "bandido bom é bandido morto". Além disso, 82% aprova o uso de câmeras corporais pelas polícias e 73% afirma que ter mais armas em circulação gera mais violência, mostra um novo estudo encomendado pelo Instituto Sou da Paz, e realizado pela Oma Pesquisa.
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Segundo o instituto especializado em segurança pública, os resultados revelam que "embora discursos duros e propostas simplistas e ineficazes repetidas há décadas ainda apareçam com força no debate público e nas redes sociais, essa percepção não é majoritária e nem homogênea".
O levantamento, conduzido pela Oma Pesquisa, especializada na análise de percepções e comportamento, foi realizado entre novembro e dezembro de 2025, com abrangência nacional, e contou com 1.115 entrevistas presenciais, pessoais e domiciliares. As perguntas focaram em sensação de segurança — apenas 32% dos entrevistados se sentem seguros em suas próprias — e na proposta de possíveis soluções, como aumento de policiamento, de uso de armas e de elaboração de novas leis.
Confira os principais resultados
82% aprovam câmeras corporais nas polícias
32% concordam que precisa de mais polícia na rua
55% afirmam que Brasil precisa aplicar melhor as leis que já existem
25% afirmam que a polícia prende mal, e por isso a justiça tem que soltar
21% concordam que armar a população aumenta a segurança
73% afirmam que com mais armas, vai ter mais mortes e mais violência
20% concordam que bandido bom é bandido morto
32% das pessoas se sentem seguras na cidade onde moram
89% disseram que o roubo de celular é um crime frequente na sua cidade
Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, explica que os resultados mostram uma sociedade que rejeita abordagens violentas e simplistas, o que amplia o espaço para um debate público mais qualificado e baseado em evidências.
— Os dados mostram que as frases de efeito antigamente mais famosas na segurança pública já não ressoam mais na população. A sociedade brasileira está cansada de promessas antiquadas e deseja outras formas de pensar esse tema, para além dos radicalismos cristalizados que não têm trazido resultados reais no dia a dia das pessoas. Há uma maioria silenciosa que busca resultados e eficácia, por isso apoia novas ideias sobre a segurança pública — diz Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz.
Pesquisas recentes da Quaest mostram como a segurança é um tema caro à sociedade brasileira. Em abril, o levantamento do instituto mostrou que a violência é considerada o principal problema do Brasil para 27% dos entrevistados, superando as menções à corrupção (19%), problemas sociais (16%) e saúde (14%).
Nesse cenário, medidas radicais como o assassinato de bandidos são consideradas populistas e com potencial eleitoral, apesar de polêmicas e ilegais. No entanto, o resultado da pesquisa do Sou da Paz revela outra percepção social, que rejeita esse tipo de ação. Por isso, o instituto usou o termo de "maioria silenciosa" para se referir às respostas da maioria dos entrevistados.
Os resultados mostram que apenas 32% das pessoas acreditam que aumentar o efetivo policial nas ruas melhora a segurança, já 65% acreditam que é necessária uma polícia mais preparado para mudar o cenário de violência. As câmeras corporais, solução rejeitada por políticos bolsonaristas, foram defendidas por 82% dos entrevistados. Já o armamento da população não é bem vista pela maioria dos entrevistados: para 73%, com mais armas, haverá mais mortes e mais violência no país.
Polêmica sobre câmeras corporais
Em dezembro de 2024, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente, criticou a decisão do então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, que determinara o uso obrigatório de câmeras por policiais militares de São Paulo que participarem de operações. Bolsonaro disse que a medida dificultaria o trabalho da PM, ao afirmar que “os policiais irão preferir não correr o risco de errar em serviço, não vão trabalhar por medo de virarem réus”.
Em Santa Catarina, o caso foi parar na justiça, após o governador Jorginho Mello (PL) ter suspendido a medida. Na semana passada, uma decisão judicial determinou o retorno dos equipamentos nas fardas dos agentes da Polícia Militar do estado.
A grande maioria dos entrevistados (91%) disse que roubos e furtos acontecem nas suas cidades, e 89% responderam que roubos de celulares e tráfico de drogas são crimes frequentes. Além disso, 57% mudaram suas rotinas por medo da violência. Segundo o Sou da Paz, os dados apontam que a sensação de insegurança da população está mais associada à presença de armas e de roubos, e menos a crimes letais.
— Não podemos encarar a violência apenas como dados estatísticos, ela é um fenômeno que atravessa e interfere no cotidiano das pessoas. O medo sentido por causa desse cenário é legítimo e a pesquisa mostra que a população não aceita mais respostas simplistas e punitivistas para as suas dores — disse Carolina.
Após o levantamento, o instituto está preparando uma agenda de propostas, destacando ações "pragmáticas e eficientes" para alimentar "um debate mais realista e racional para transformar a segurança”, explicou Carolina Ricardo.
