Quatro em cada dez entregadores de aplicativos afirmam recorrer às apostas on-line para complementar a renda, segundo um levantamento da Trampay realizado com mais de 6 mil profissionais em todo o Brasil.
O estudo também revela um cenário de instabilidade financeira, marcado por endividamento, dificuldade para formar uma reserva de emergência e dependência das entregas como principal fonte de renda.
Para entender por que parte desses trabalhadores enxerga as bets como uma alternativa financeira e quais são os riscos desse comportamento, o TechTudo conversou com Hulisses Dias, mestre em finanças pela Universidade de Sorbonne, administrador e investidor profissional.
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Pesquisa mostra que 40% dos entregadores apostam para complementar renda
Reprodução/Pexels/Francisco Ferreira
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Índice
O que revela a pesquisa sobre a realidade financeira dos entregadores
Por que as apostas acabam sendo vistas como complemento de renda
Pesquisa ouviu mais de 6 mil entregadores de aplicativos
40% afirmam usar apostas para complementar a renda
Especialista explica por que trabalhadores recorrem às bets e quais os riscos financeiros
O que revela a pesquisa sobre a realidade financeira dos entregadores
O levantamento da Trampay traça um retrato da situação financeira enfrentada por entregadores de apps no Brasil.
Entre os mais de 6 mil participantes, a renda média mensal foi de R$ 2.400.
Apesar disso, 65,49% afirmaram enfrentar desafios relacionados ao endividamento, principalmente com despesas do veículo de trabalho, contas da casa e manutenção da motocicleta.
A pesquisa também mostra que mais de um terço dos entrevistados precisou lidar com emergências financeiras recentemente, enquanto apenas uma pequena parcela afirmou conseguir formar uma reserva para imprevistos.
Diante desse cenário, a principal estratégia adotada pelos entregadores é aumentar a carga de trabalho.
Em muitos casos, acidentes, problemas mecânicos ou despesas inesperadas são compensados com mais horas de entrega, já que boa parte dos participantes depende exclusivamente dessa atividade para garantir a renda do mês.
Para Hulisses Dias, os resultados da pesquisa vão além da dificuldade de equilibrar as contas.
Na avaliação do especialista, o levantamento ajuda a entender por que parte desses trabalhadores recorre às apostas na tentativa de complementar a renda.
"Quando uma parcela relevante de trabalhadores passa a enxergar apostas como complemento de renda, isso pode ser interpretado como um sinal de vulnerabilidade.
Pessoas com pouca margem financeira estão recorrendo justamente a uma atividade que acrescenta mais incerteza ao orçamento."
Ainda segundo o mestre em finanças, a combinação entre renda instável e dificuldade para lidar com imprevistos ajuda a explicar por que alguns trabalhadores passam a buscar alternativas de retorno imediato.
O problema, segundo ele, é que esse movimento pode aumentar ainda mais a exposição a riscos financeiros.
65,49% dos entrevistados afirmaram enfrentar desafios relacionados ao endividamento
Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Por que as apostas acabam sendo vistas como complemento de renda
Além de mostrar as dificuldades financeiras enfrentadas pelos entregadores, a pesquisa buscou entender como eles enxergam as apostas on-line.
Entre os participantes, muitos associaram essa prática a palavras como "dinheiro", "ganhos extras", "diversão", "emoção" e "adrenalina".
Para os pesquisadores, esse resultado indica que as bets ocupam um espaço que vai além do entretenimento e, para parte dos entrevistados, aparecem ligadas à expectativa de melhorar a situação financeira.
Segundo Dias, esse comportamento está relacionado à realidade de quem depende de uma renda que varia de um mês para outro.
Em períodos de aperto financeiro, alternativas que prometem ganhos rápidos podem ganhar espaço, mesmo quando envolvem riscos elevados.
"O trabalhador autônomo convive frequentemente com uma diferença entre o dinheiro que precisa naquele momento e o dinheiro disponível.
A aposta oferece uma narrativa extremamente sedutora para preencher essa lacuna: colocar pouco dinheiro e ter a possibilidade de receber muito em pouco tempo."
Outro fator apontado pelo especialista é a forma como as apostas são apresentadas ao público.
Segundo ele, a divulgação frequente de histórias de vencedores faz com que o potencial de ganho receba muito mais atenção do que as perdas, influenciando a percepção sobre as chances reais de sucesso.
"Existe uma diferença importante entre a percepção e a matemática da aposta.
O potencial de ganho é muito visível, inclusive por meio de publicidade, histórias de vencedores e compartilhamentos nas redes sociais, enquanto as inúmeras perdas são menos visíveis."
Para especialista, "narrativa sedutora" das bets atrai entregadores
Reprodução/Pexels/Danielle Calazans
Pesquisa ouviu mais de 6 mil entregadores de aplicativos
O levantamento foi realizado pela Trampay com mais de 6 mil entregadores ativos em plataformas de delivery que fazem parte da base de clientes da empresa.
Os participantes responderam a um formulário aplicado em 2025 para mapear o perfil financeiro da categoria, identificar os principais desafios enfrentados no dia a dia e compreender como esses profissionais se relacionam com as apostas on-line.
Segundo a empresa, o estudo faz parte de um projeto desenvolvido no âmbito do TD Impacta, iniciativa criada pelo Tesouro Nacional em parceria com a B3 e executada pela Artemisia para apoiar negócios voltados à educação financeira e à inclusão econômica.
A pesquisa serviu de base para o desenvolvimento de ações voltadas aos entregadores, incluindo uma jornada de educação financeira com orientações sobre planejamento do orçamento, formação de reserva de emergência e riscos associados às apostas digitais.
Pesquisa serviu como base para ações voltadas aos entregadores
Reprodução/Pexels/Thuan Pham
40% afirmam usar apostas para complementar a renda
Entre os resultados do levantamento, um dos dados que mais chamam atenção é que 40% dos entregadores entrevistados afirmaram recorrer às apostas como forma de complementar a renda.
Além disso, 32% disseram ter feito apostas on-line ao longo do último ano.
Segundo a Trampay, os participantes relataram investir, em média, R$ 100 por mês em jogos de azar.
A pesquisa também identificou que a relação dos entregadores com as apostas não é uniforme.
Enquanto parte dos entrevistados encara a prática apenas como entretenimento, outro grupo vê nas bets uma possibilidade de melhorar a situação financeira.
Um dos relatos reunidos pelo levantamento descreve a trajetória de um entregador que começou apostando R$ 10 por diversão, obteve pequenos ganhos e passou a destinar valores cada vez maiores na expectativa de repetir o resultado.
Em determinado momento, chegou a apostar R$ 1.000 e, depois das perdas, enfrentou dificuldades para pagar o cartão de crédito e ficou sem reserva de emergência.
Para o mestre em Finanças, esse tipo de comportamento ajuda a entender como dificuldades econômicas influenciam a forma como as pessoas tomam decisões.
Quando há urgência para resolver problemas financeiros, a tendência é priorizar soluções de curto prazo, ainda que elas envolvam riscos elevados.
"Quando existe escassez financeira, o horizonte de decisão tende a encurtar.
Quem precisa pagar uma conta nesta semana naturalmente atribui muito mais importância ao dinheiro imediato do que a um benefício que poderá aparecer daqui a alguns anos."
40% dos entregadores entrevistados afirmaram recorrer às apostas como forma de complementar a renda
Reprodução/Pexels/Optical Chemist
Especialista explica por que trabalhadores recorrem às bets e quais os riscos financeiros
A possibilidade de obter um retorno elevado em pouco tempo pode parecer uma saída para quem enfrenta dificuldades financeiras.
Dias, no entanto, alerta que essa expectativa pode levar muitas pessoas a tratar as apostas como uma estratégia para complementar a renda.
"O primeiro risco é matemático.
As plataformas precisam possuir uma vantagem econômica para que o negócio seja sustentável.
Isso significa que, considerando um grande número de apostas, o valor esperado para o apostador tende a ser negativo.
Algumas pessoas obviamente ganharão, inclusive valores elevados, mas isso não transforma a atividade em uma estratégia consistente de geração de renda."
O especialista ressalta que esse não é o único problema.
Para quem já enfrenta dificuldades financeiras, uma perda relativamente pequena pode comprometer despesas básicas e incentivar novas apostas na tentativa de recuperar o dinheiro perdido.
"O segundo risco é financeiro.
Para alguém com pouca reserva, perder R$ 100 não representa apenas uma redução patrimonial: esse dinheiro pode fazer falta para alimentação, transporte, aluguel ou pagamento de dívidas.
A capacidade de assumir risco de quem possui pouca margem financeira é muito menor."
O especialista acrescenta que pequenos ganhos podem gerar excesso de confiança, enquanto as perdas estimulam a tentativa de "recuperar" o dinheiro por meio de novas apostas, aumentando progressivamente a exposição ao risco.
Especialista explica riscos financeiros envolvendo as bets
Reprodução/Pexels/MART PRODUCTION
Como forma de reduzir essa vulnerabilidade, Dias recomenda que trabalhadores com renda variável organizem o orçamento com base em uma estimativa conservadora dos ganhos e aproveitem os meses de maior faturamento para construir uma reserva de emergência.
"O primeiro passo é organizar as despesas essenciais e planejar o orçamento com base em uma estimativa conservadora de renda, e não nos melhores meses.
Nos períodos de ganhos maiores, o ideal é direcionar parte do excedente para uma reserva de emergência, que funciona como um amortecedor nos meses mais fracos."
O especialista também recomenda priorizar o pagamento de dívidas com juros mais altos e buscar formas sustentáveis de aumentar a renda.
Segundo ele, recursos destinados às despesas essenciais não devem ser colocados em situações que envolvam risco relevante de perda.
"Melhorar a vida financeira é resultado de pequenas decisões consistentes ao longo do tempo, e não da tentativa de conseguir um grande ganho rapidamente."
Com informações de Trampay
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