Pesquisa indica subnotificação generalizada de roubos de celular e golpes na internet
Pesquisa Datafolha contratada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada neste domingo (10) sugere que a subnotificação de roubos e furtos de celular e de golpes digitais pode alcançar mais de 90% dos casos do país. O material também aponta esses dois tipos de crime como fatores relevantes na percepção de insegurança da população e sugere a elaboração de propostas específicas para atacar essas questões por parte dos candidatos nas próximas eleições.
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Segundo o levantamento, 16% dos entrevistados afirmam ter perdido dinheiro a partir de um golpe nas redes sociais ou na internet nos últimos 12 meses — o que, em nível populacional, corresponderia a cerca de 26,3 milhões de pessoas. Em 2024, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública identificou 2,1 milhões de casos do tipo, menos de um décimo do estimado agora pelo Datafolha.
O cenário se repete em relação aos crimes de roubo e furto de celulares, dos quais 8,3% dizem ter sido vítimas no espaço de um ano. Daria 13,9 milhões de brasileiros. Oficialmente, as delegacias registraram 918 mil casos naquele ano, novamente pelos números do Anuário, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública a partir de informações recolhidas junto às secretarias dos estados.
O nível de subnotificação é um achado da pesquisa que analisou o assunto de maneira mais ampla, de modo a medir a percepção de medo das pessoas quanto a diferentes tipos de crimes. Ao todo, 96% dos entrevistados, todos com mais de 16 anos, dizem ter receio de se tornarem vítimas de uma ou mais práticas ilícitas listadas. O maior temor atual passa pelas telas, com a proliferação dos golpes digitais, seguido de perto por roubos à mão armada e assassinatos.
— É uma combinação de crimes patrimoniais, mas que passa pela tela e pela rua e que desafia um pouco as autoridades. Normalmente, quando se fala nesse tipo de crime, a gente pensa em policiamento ostensivo, em colocar viatura, mas é importante reforçar a investigação — aponta a diretora-executiva da entidade, a pesquisadora Samira Bueno.
Ela ressalta que as pessoas têm medo de sofrer um golpe na internet porque esse é o crime que tem estado mais presente na vida da população. Desde 2018, aponta ela, os estelionatos mais do que quadruplicaram no Brasil, algo que não se repete em nenhum outro tipo penal. Ao mesmo tempo em que existe esse temor acentuado de usar redes sociais e aplicativos bancários, por exemplo, ela não observa políticas públicas efetivas para coibir os golpes.
Outro ponto levantado diz respeito a discursos eleitorais que celebram a redução na taxa de mortes violentas, que não tem gerado alívio na sensação de insegurança vivida diariamente pelos brasileiros. Samira relata que a incidência de 20 mortes por 100 mil habitantes ainda está distante de um "patamar civilizado" e da média dos países democráticos. Renato Sérgio de Lima, presidente da entidade, acrescenta que existe um "trauma da violência armada" no país, semelhante a um cenário de guerra.
Um dos desafios nesse sentido passa pela controle das mortes decorrentes de intervenção policial, e não só o fortalecimento no combate ao crime organizado e difuso, aponta o relatório.
A pesquisa apresenta diferenças relevantes em termos de medo sentido por homens e mulheres, com o temor de sofrer agressões sexuais, violência política e crimes domésticos significativamente mais presente na população feminina. Recentemente, uma pesquisa da mesma organização indicou que os feminicídios ocorrem em taxas mais elevadas em cidades de até 100 mil habitantes. O percentual de 3,8% de vítimas em um ano, relatado agora nesta pesquisa, provavelmente está subestimado.
A medição por classe econômica considera que os mais pobres relatam mais vulnerabilidade no contexto da exposição cotidiana no território, como assaltos e casos de "bala perdida", aliada à perda de patrimônio, que tem hierarquia maior entre os ricos. Em municípios de médio porte, um elemento destacado na pesquisa foi o medo de ter a casa arrombada ou invadida por criminosos. Não foi realizada, contudo, estratificação por estados.
A pesquisa foi realizada pelo Datafolha através de entrevistas presenciais em pontos de fluxo, com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, distribuídas em 137 municípios de todo o país. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos, com nível de confiança na amostra de 95%.
