A reforma tributária entrou na fase de transição e já começa a mudar a rotina das empresas brasileiras. Embora os principais impactos para o consumidor ainda devam aparecer de forma gradual a partir de 2027, empresários, contadores e profissionais da área tributária já se preparam para adaptar sistemas, reorganizar processos internos e conviver, pelos próximos anos, com o atual modelo de tributação e o novo sistema de impostos sobre o consumo.
O período é considerado decisivo para que as empresas se preparem para as novas regras. A mudança exige investimentos em tecnologia, treinamento de equipes e revisão das estratégias financeiras, além da integração entre diferentes áreas dos negócios.
O advogado tributarista Afonso Lobato, explica que 2026 funciona como um ano de preparação para a implantação definitiva da reforma.
"O maior desafio da mudança nas empresas é a questão da governança, da estratégia do negócio e da tecnologia. Você tem que estar preparado para as novas exigências impostas pela reforma tributária do consumo. Isso vai obrigar uma gestão mais articulada, envolvendo o fiscal, o contábil, o comercial e toda a governança da empresa", afirma.
Para o advogado tributarista Domingos Assunção Neto, além da adequação aos novos procedimentos fiscais, as empresas precisarão rever a própria gestão financeira.
"As empresas devem se adaptar às obrigações formais, bem como entender como a reforma vai influenciar na política de preços, nas relações com os parceiros comerciais e também no fluxo de caixa. É uma reforma tributária com expressiva repercussão na dinâmica financeira", afirma.
Segundo ele, outro desafio será lidar com a nova legislação: "Os contribuintes vão precisar lidar com uma legislação nova, o que significa dizer que ainda há muita incerteza e, por conta disso, há uma tendência de aumento das controvérsias judiciais."
Empresas investem em organização e tecnologia
Na avaliação da contadora Leila Márcia, o momento exige que as empresas revisem toda a estrutura de controle interno para atender às novas exigências da reforma.
Segundo ela, a prioridade é investir em sistemas informatizados, integrar processos e organizar informações que antes não recebiam tanta atenção.
"As empresas precisam estar organizadas e informatizadas. É necessário adquirir sistemas integrados, revisar processos e fazer adequações que vão desde o controle de estoque até a correta classificação de produtos e serviços", explica.
A especialista afirma que a mudança envolve praticamente todos os setores da empresa.
"É preciso treinar e capacitar equipes de compras, financeiro e contabilidade. A informação precisa nascer correta na origem da operação, porque o setor contábil recebe tudo já processado. Agora, toda a empresa passa a fazer parte desse processo."
Ela destaca que empresas que já investiam em gestão e tecnologia terão uma adaptação mais tranquila. Já aquelas que ainda mantêm processos pouco estruturados precisarão fazer investimentos para atender às novas exigências.
"Não gosto de chamar de gasto. É um investimento para gerar retorno no futuro. Quem ainda não organizou seus sistemas e estoques precisará olhar para dentro da empresa e fazer essa reorganização. Caso contrário, pode perder dinheiro."
Setores sentirão impactos diferentes
Embora o objetivo da reforma seja simplificar a tributação sobre o consumo, os efeitos não serão iguais para todos os segmentos da economia.
Para Afonso Lobato, a indústria tende a ser um dos setores que mais podem se beneficiar da nova sistemática de créditos tributários.
"A indústria, de modo geral, tende a ter uma possível redução da carga tributária em função da não cumulatividade quase plena. Mas isso depende da revisão de toda a cadeia produtiva, incluindo os fornecedores, que também precisam estar no regime que permita a transferência de créditos", explica.
Já Domingos Assunção Neto avalia que comércio e indústria devem ser favorecidos pela política de creditamento, enquanto o setor de serviços tende a enfrentar mais dificuldades.
"Provavelmente o comércio e a indústria vão ser os setores com mais vantagens por conta da política de creditamento. O setor de serviços tende a ser o mais prejudicado", aponta Domingos.
Ele também acredita que a economia paraense poderá enfrentar desafios específicos: "Os benefícios fiscais que eram utilizados como atrativos para a implantação de empresas no Pará vão acabar. Isso pode reduzir parte da competitividade do estado."
Mudanças no bolso serão graduais
Os especialistas concordam que a reforma deverá alterar a composição dos preços de produtos e serviços, mas os efeitos ainda dependem da implementação das novas regras.
Segundo Domingos Assunção Neto, mudanças já começam a surgir com a implementação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) logo em 2026
Já Afonso Lobato afirma que ainda é cedo para prever o comportamento dos preços, mas alerta para uma possível pressão sobre o setor de serviços. Para ele, o primeiro momento, como a reforma tributária prevê que não haverá aumento da carga tributária brasileira.
"Só saberemos durante a transição se haverá aumento de preços. O setor de serviços, como tem a mão de obra como principal custo, tende a ter um aumento da carga tributária efetiva, o que pode elevar o custo dos serviços. Os prestadores precisarão ajustar seus custos para evitar repassar integralmente esse aumento ao consumidor final", explica.
Na avaliação da contadora Leila Márcia, os consumidores devem começar a perceber os efeitos da reforma a partir de 2027: "Este ano ainda é preparatório. A partir de 2027 o contribuinte começará a sentir as mudanças porque ele também fará parte desse processo. As notas fiscais passarão a refletir melhor o novo sistema."
Ela ressalta, no entanto, que o cronograma ainda pode sofrer alterações.
"Tudo o que está previsto hoje ainda pode mudar. Estamos em um momento de adaptação, com constantes revisões e até prorrogações de prazos", concluiu.
Simplificação é promessa, mas desafios permanecem
Entre os principais objetivos da reforma tributária estão a simplificação do sistema, a redução da burocracia e o aumento da segurança jurídica para empresas e investidores. Entretanto, especialistas ponderam que esses benefícios só poderão ser medidos após a consolidação do novo modelo.
"A longo prazo, a reforma veio para simplificar e reduzir o custo da administração tributária realizada pelas empresas, diminuindo as obrigações acessórias. Mas isso ainda precisa ser constatado na prática", afirma Afonso Lobato.
Segundo ele, um dos efeitos da reforma pode ser a redistribuição dos investimentos industriais pelo país. Lobato diz que, com o fim da guerra fiscal e dos incentivos fiscais, pode haver uma reconcentração da industrialização, porque muitas empresas tendem a se instalar mais próximas dos estados consumidores.
"Para minimizar esse efeito, a reforma criou o Fundo de Compensação dos Benefícios Fiscais e o Fundo de Desenvolvimento Regional, que poderão ser utilizados pelos estados para atrair novos empreendimentos", diz.
Para Domingos Assunção Neto, apesar das incertezas deste momento de transição, a simplificação continua sendo uma das principais promessas da reforma.
"Essa é uma das grandes promessas da reforma: simplificação e diminuição da burocracia. Mas, como ainda estamos no início, o período de adaptação provavelmente será turbulento, porque nem tudo está definido", concluiu.
O Liberal