São Paulo — O número de ônibus disponíveis em São Paulo neste domingo (25/10), de votação do segundo turno da eleição presidencial, foi 31,4% menor do que o total disponível durante os dias úteis (segunda à sexta), entre 11h e 14h. As áreas mais afetadas são as periferias, principalmente aquelas que votaram majoritariamente no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
As informações cruzam dados disponibilizados pela SPTrans, API Olho Vivo, Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e foram compiladas pelo pesquisador Igor Novaes Lins, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). A pesquisa comprova que a Prefeitura de São Paulo manteve parte da frota nas garagens no domingo da eleição.
Segundo o levantamento, a posição de cada ônibus da cidade, registrada a cada minuto pela API pública Olho Vivo, da SPTrans, permite comparar a manhã da eleição com os dias anteriores. “Entre 11h e 14h circularam ao mesmo tempo, em média, 31,4% menos ônibus do que nos dias úteis da mesma semana, número coerente com os 29% de frota parada noticiados”, diz o relatório.
A perda foi maior nas periferias, onde a frota disponível caiu 18,1%. Nos bairros mais ricos, o número de ônibus em circulação caiu 10,6%.
O candidato mais afetado, por sua vez, foi Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em comparação com Flávio Bolsonaro (PL). Segundo a pesquisa, nos locais de votação em que Lula venceu o 1º turno, 2.060.902 eleitores aptos votam em 466 locais onde a passagem de ônibus caiu 20% ou mais em relação ao sábado (24/10).
Alvo de críticas de paulistanos e notificada pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) na véspera do segundo turno da eleição presidencial sobre a determinação de colocar 100% dos ônibus municipais em operação neste domingo (25/10), a SPTrans alega que “a ampliação da frota em prazo tão reduzido impõe desafios operacionais concretos”.
Segundo a empresa, a notificação do TRE-SP foi enviada às 13h10 do sábado, com menos de 12 horas de antecedência em relação ao início da operação. Às 13h32, a SPTrans “agiu de forma diligente e proativa, comunicando todas as concessionárias responsáveis pelos 32 lotes operacionais da cidade e transmitindo a determinação judicial para adoção das providências necessárias ao seu cumprimento”, conforme nota envidada ao Metrópoles.
A companhia ressaltou, contudo, “que a ampliação da frota em prazo tão reduzido impõe desafios operacionais concretos”. “Os operadores relataram dificuldades para readequar, de forma imediata, escalas de trabalho, jornadas e rotinas previamente organizadas.
A programação dos profissionais também havia considerado o direito à folga e a organização necessária para assegurar o exercício do voto, o que torna ainda mais complexa uma alteração dessa magnitude na véspera da eleição”, diz a SPTrans. No terminal Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, o Metrópoles apurou que as empresas conseguiram colocar frota de sábado ou algo intermediário entre sábado e domingo.
Segundo funcionários, justificativa das empresas é a de que o aviso veio muito em cima da hora e não foi possível escalar todos os trabalhadores. Ainda conforme a empresa de transportes de São Paulo, o planejamento original foi elaborado com base em critérios técnicos e “em dados efetivos de demanda”.
A SPTrans se baseou no domingo anterior, em que 6,9 mil ônibus estiveram em operação, oferecendo cerca de 8 milhões de lugares e transportando 3,4 milhões de passageiros. “Esses indicadores subsidiaram a definição de uma oferta de transporte compatível com o comportamento observado da demanda”, disse a empresa, que afirmou ainda ter adotado a mesma estratégia no primeiro turno, sem questionamentos pelos órgãos eleitorais.
“A SPTrans respeita as determinações da Justiça Eleitoral e atua para viabilizar o atendimento à população, observadas as condições operacionais necessárias à execução do serviço. A necessidade de alteração de um planejamento previamente estruturado, quando comunicada com antecedência inferior a 12 horas, deve ser analisada à luz das condições concretas de mobilização de veículos e profissionais, sem desconsiderar os impactos sobre a organização do trabalho e o direito ao voto dos trabalhadores”, afirmou a companhia.
O Partido dos Trabalhadores (PT) acionou o TRE-SP no início da tarde deste domingo denunciando a falta de ônibus em São Paulo para a realização do segundo turno. Segundo o tribunal, a representação relatou que há poucos coletivos circulando pela cidade para garantir o transporte de eleitores.
À imprensa, Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), disse que recebeu oficialmente de empresários do setor de transporte a informação de que as frotas estão circulando com uma redução de cerca de 40% em São Paulo, o que contraria determinação judicial.
Para ele, a prática compromete a redução da abstenção. “Nós sabemos que há uma determinação da Justiça em São Paulo e no país, e isso é muito importante dizer, para que 100% da frota possa na verdade circular nas cidades, garantindo portanto esse direito sagrado de voto”, disse.
O partido também pediu a extensão do horário de votação na capital, a aplicação ou ampliação da multa por hora de descumprimento da decisão do TRE-SP sobre disponibilidade dos ônibus e a prisão do secretário de Mobilidade Urbana, Celso Jorge Caldeira, e do presidente da SpTrans, Victor Hugo Borges.
O prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), negou que a cidade tenha colocado nas ruas frota reduzida de ônibus neste domingo (25/10), apesar da determinação do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) para que a cidade mantenha 100% da frota de ônibus operando neste dia de votação.
Passageiros de diversas regiões da cidade denunciaram demora do transporte coletivo. Ao Metrópoles, Nunes afirmou que não há passageiros sem transporte e enviou diversos vídeos e prints que mostram a movimentação de ônibus em diferentes regiões da cidade .”A frota de ônibus na Cidade está maior que a demanda.”
A fala do prefeito também é uma resposta à postagem nas redes sociais do ministro da Secretaria Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSol), dizendo que vai pedir a prisão do chefe do Executivo paulistano em razão da falta de coletivos em São Paulo e o prejuízo aos eleitores que estão enfrentando dificuldades para chegar até os locais de votação.
Metropoles