'Perdemos nossa casa, mas não a identidade': Clube mais brasileiro da Europa mantém histórico de sucesso em meio à guerra; entenda

 

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Às vésperas da semana mais importante da temporada, o Shakhtar Donetsk convive com uma realidade distante da maioria dos clubes do futebol europeu. Em meio à guerra na Ucrânia, a equipe tenta equilibrar a busca por glórias esportivas com os desafios logísticos e emocionais impostos pelo conflito.

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Após enfrentar o Crystal Palace, em Cracóvia, pela semifinal da Uefa Conference League, o time ucraniano encara uma maratona fora de campo: são cerca de 18 horas de viagem de ônibus até Kiev para disputar o clássico contra o Dynamo Kyiv. Com o espaço aéreo fechado devido à guerra com a Rússia, o trajeto se repete no sentido inverso antes de um novo deslocamento internacional.

Torcedores do Shakhtar Donetsk

Divulgação: Shakhtar Donetsk

“Este é apenas um caso, e acredite, tem sido assim há quatro anos”, afirmou o diretor esportivo e ex-capitão da equipe, Darijo Srna, à BBC. “Você não vai encontrar no mundo um treinador ou uma equipe médica que saiba como recuperar jogadores após 18 horas na estrada.”

A rotina inclui ainda horas em abrigos antibombas e mudanças de hotel de última hora por danos causados por mísseis. “Se você trouxer Pep Guardiola, José Mourinho ou Jürgen Klopp para o Shakhtar agora, não sei como eles lidariam com essa situação. Acredite, é só questão de mentalidade”, completou.

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Futebol em meio ao exílio

Desde a anexação de Donetsk, em 2014, o Shakhtar vive como um clube itinerante, mandando jogos em diferentes cidades. Após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, passou a disputar partidas europeias em países como Alemanha e Polônia.

Jogadores do Shakhtar Donetsk celebrando gol

Divulgação: Shakhtar Donetsk

Para milhões de ucranianos espalhados pelo mundo, os jogos do clube se tornaram um ponto de conexão com o país de origem. “Teremos cerca de 26 mil torcedores, quase 90% ucranianos”, disse o CEO Sergei Palkin sobre a partida em Cracóvia. “Eles vêm não só da Polônia, mas de vários países. Para quem está fora, é uma conexão.”

Sob o comando de Arda Turan, ex-meio-campista de Atlético de Madrid e seleção turca, o Shakhtar busca seu segundo título europeu — o primeiro veio na temporada 2008-09, com a conquista da antiga Copa da Uefa.

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A campanha atual reforça a competitividade do clube: após terminar em sexto na fase de liga, eliminou o Lech Poznan e o AZ Alkmaar até alcançar as semifinais.

“São quase sempre notícias negativas, e os ucranianos vivem sob grande pressão emocional”, afirmou Palkin. “Chegar a uma semifinal significa dar alguma emoção positiva, mostrar que estamos vivos, que o futebol ucraniano está vivo e que podemos continuar competindo em alto nível.”

O “Brasil” no Leste Europeu

Conhecido por revelar talentos brasileiros, o Shakhtar mantém um modelo consolidado há duas décadas: contratar jovens promessas do Brasil, desenvolvê-las e vendê-las para grandes clubes europeus.

Nomes como Fernandinho, Douglas Costa, Willian, Alex Teixeira, Jadson e Alan Patrick passaram pelo clube antes de se destacarem no cenário internacional. A estratégia também inclui talentos locais, como evidenciado na venda de Mykhailo Mudryk ao Chelsea em 2023.

Alex Teixeira, Jadson e Alan Patrick em ação pelo Shakhtar Donetsk

Reprodução: AFP

A guerra, no entanto, impactou diretamente essa estrutura. Uma decisão da Fifa permitiu que jogadores estrangeiros e ucranianos deixassem o país sem custos, levando à saída de 14 atletas e membros da comissão técnica.

“Foi um grande problema porque perdemos talentos de ponta”, disse Palkin. “Então começamos a reconstruir um novo time ucraniano.”

Mesmo assim, o clube retomou gradualmente sua conexão com o mercado brasileiro. Atualmente, o elenco conta com 12 jogadores do país, e novos reforços são esperados.

“Não estamos vendendo conforto, porque todos entendem que há guerra. Estamos vendendo um caminho de carreira”, explicou o dirigente.

Identidade preservada

Apesar do exílio e das perdas, o Shakhtar mantém sua essência. “Perdemos nossa casa, mas não nossa identidade. Seguimos nossos procedimentos, nosso modelo, aquilo que estamos construindo”, afirmou Palkin.

Para ele, o sucesso esportivo também tem um papel simbólico. “Entendo que é difícil, mas não é possível fechar os olhos para o que está acontecendo na Ucrânia. Você pode imaginar o que isso significa para o país, para o presidente Volodymyr Zelensky, para as pessoas, para os torcedores e para outros clubes?”

“Tenho orgulho deste time. Ainda somos fortes. Ainda estamos unidos.”