Perda, ausência e saúde comprometida: veja como lidar com dores emocionais na semana do Dia das Mães

 

Fonte:


Nesta segunda-feira (4), início da semana do Dia das Mães, sentimentos de amor e celebração ganham força, mas também podem trazer à tona dores profundas para quem enfrenta o luto. A psicóloga e psicanalista Rafaela Guedes explica que o impacto emocional da data está diretamente ligado à memória afetiva construída ao longo da vida. “As datas comemorativas formam a nossa memória afetiva, especialmente entre os brasileiros, que têm uma cultura de afeto, proximidade e celebração muito marcada”, afirma.


Para muitas pessoas, especialmente aquelas que perderam mães, filhos ou convivem com situações delicadas de saúde ou desaparecimento, esse período tende a ser mais sensível. Ao longo dos anos, a repetição de celebrações e encontros familiares cria vínculos afetivos intensos, o que torna a ausência ainda mais evidente. A especialista destaca que esse sentimento pode ser potencializado ao observar outras pessoas vivendo a data com suas mães, despertando comparações e o desejo de que a própria realidade fosse diferente.


Luto


De acordo com Rafaela Guedes, o luto é um processo natural que acompanha quem vivenciou perdas significativas ao longo da vida. Existe um período esperado, que pode variar entre seis meses e um ano, no qual a pessoa atravessa fases como negação, raiva, depressão e aceitação. Ainda assim, esse tempo pode variar de acordo com a relação que existia com quem morreu e o grau de proximidade.


Ela ressalta que a saudade tende a permanecer, mas de forma saudável. “Figuras muito significativas e essenciais na nossa vida permanecem fazendo falta e espera-se uma falta saudável ao longo da nossa caminhada”, pontua. O alerta, segundo a psicóloga, surge quando a pessoa não consegue retomar a própria vida após a perda. “Um ano, dois anos, três anos, e ela nunca mais conseguiu recuperar o próprio prazer pela vida, aí a gente entrou num quadro patológico”, explica.


Nesse processo, manter hábitos e tradições vividas com quem partiu pode ser uma forma de elaboração, desde que isso não cause sofrimento intenso. Dar continuidade a planos ou atividades compartilhadas pode ajudar a manter viva a memória de forma funcional.


Acolhimento


Durante datas como o Dia das Mães, a psicóloga orienta que cada pessoa respeite seus próprios limites emocionais. Evitar celebrações, redes sociais ou até o convívio com outras pessoas pode ser uma estratégia válida, dependendo da intensidade da dor. “Se eu percebo que ainda é doloroso a ponto de ser destrutivo, conviver com os outros parentes, com as pessoas que ficaram, acompanhar a alegria dos outros que ainda têm mãe nesse período, é saudável para mim evitar”, afirma. Ela acrescenta que o mais importante é reconhecer o que é possível suportar naquele momento.


Rafaela Guedes reforça que o melhor apoio de amigos e familiares é a escuta. Estar presente, sem julgamentos, e reconhecer a dor do outro é mais importante do que tentar oferecer soluções ou minimizar o sofrimento. “Escuta sem julgamento, estar do lado daquele que sofre, sustentar a impotência diante da situação, porque a morte é um fato, é a única coisa que é irreversível na vida. É a única coisa que a gente não pode reverter. Então toca num ponto muito difícil para a gente, que são as impossibilidades, a própria impotência diante da vida”, destaca.


O acompanhamento psicológico também é apontado como fundamental, já que a elaboração do luto acontece por meio da fala. “A saída do luto acontece através da elaboração, e essa elaboração se dá através da fala”, explica. A psicóloga observa que, muitas vezes, tentativas de distração ou incentivo para superar rapidamente não ajudam quem está em sofrimento. Em casos em que a dor persiste e impede a retomada da vida, a busca por ajuda profissional deve ser imediata.


Como orientação final, a psicóloga recomenda cuidado consigo mesmo durante esse período. “Seja gentil com você mesmo, esteja em ambientes que contribuam para o seu bem-estar”, orienta. Ela reforça que, apesar da intensidade da dor, os sentimentos podem ser elaborados ao longo do tempo e não são permanentes.