'Ópera é a linguagem mais transversal para todas as civilizações', diz Fortunato Ortombina, diretor-geral do Scala de Milão
Fortunato Ortombina, 65, não quis responder sobre a fala de Timothée Chalamet a respeito de ópera e balé, tão repercutida no Oscar às vésperas do Oscar. Antes, ao GLOBO, o diretor geral do Teatro Alla Scala, de Milão, preferiu se lembrar de Zico e outros craques brasileiros.
— Certa vez, pesquisei sobre o capitão da seleção de 1958, Hilderaldo Bellini, esperando que ele pudesse ter um parentesco com o compositor Vincenzo, de Catania — disse o torcedor da Inter, que depois descobriu que a família do zagueiro era do Vêneto.
Ortombina teve mandato no La Fenice, de Veneza, de 2017 a 2024, e em 2025 se tornou o primeiro diretor italiano da principal casa lírica da Itália após uma sequência de três estrangeiros. Central na vida artística e política de Milão, o Scala é gerido por um conselho que reúne prefeito, Ministério da Cultura, Câmara de Comércio e patrocinadores. Se a abertura da temporada, em feriado milanês, tem ares de evento de Estado, as datas anuais dedicadas à Semana de Moda, ao Salão do Automóvel e, no último dia 6, à festa de 150 anos do jornal “Corriere della Sera” comprovam o protagonismo da casa.
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Com mandato até 2030 pela lei que exonera diretores aos 70 anos, Ortombina herdou de seu antecessor uma programação desafiadora, com as mastodônticas quatro óperas que formam o ciclo “O Anel do Nibelungo”, de Wagner, regido pela australiana Simone Young. A produção teve exuberância musical, principalmente nas vozes da ovacionada Brünnhilde (Camila Nylund), Siegfried (o tenor Klaus-Florian Vogt), e Waltraute (Nina Stemme, mezzo), embora o expressionismo de McVicar — nas máscaras suspensas e numa gigantesca rocha em forma de mão — tenha encantado menos. Depois do domingo (15), em que “O Crepúsculo dos Deuses” encerrou duas semanas lotadas do “Anel” completo, Ortombina anunciou as aberturas da temporada 2026/27, com “Otello”, de Verdi, (na estreia do sul-coreano Myung-whun Chung como regente titular), e de 2027/28, com “Um Baile de Máscaras”, também de Verdi, dirigida pelo cineasta Luca Guadagnino (“Me Chame Pelo Seu Nome”, de 2017). Se não prometeu reencenar as glórias de Carlos Gomes (1836-1896) no Scala, ao menos demonstrou curiosidade com a produção de “Salvador Rosa”, título de 1874 do brasileiro sobre um personagem napolitano, anunciada para 14 de julho no Municipal do Rio.
Como foi encarar um “Anel do Nibelungo” inteiramente herdado, para a comemoração dos 100 anos da primeira apresentação do ciclo no Scala?
Programar é a coisa mais fácil; o difícil é fazê-las acontecer. Numa estrutura com 900 colaboradores, é preciso trabalhar todos os dias para que todos tenham as condições de ter sucesso. Essas coisas são geridas no dia a dia, nas relações com as pessoas dentro e fora do teatro. Aqui o teatro vive da cidade e a cidade vive do teatro.
Como fazer com que o teatro tenha um diálogo vivo com a cidade?
Não dá para desistir nunca de tentar. Tenho pessoas na cidade que, se fico mais de um mês sem ouvir, começo a me preocupar, e não é possível agradar todo mundo. Trabalhei em outros lugares, mas posso dizer que o Scala é o teatro — e Milão, a cidade — que melhor conheço, porque fui diretor artístico aqui vinte anos antes. Muito disso vem dos meus estudos verdianos como musicólogo: estudar Verdi depois de "A Força do Destino" é praticamente estudar o Scala. Até a Olimpíada de Inverno foi outra oportunidade de visibilidade, porque a gente entende que é preciso ter uma relação com gente do esporte. Um dos assinantes da nossa temporada sinfônica é (ex-jogador e ex-téçnico do Real Madrid) Fabio Capello. Inclusive, pode dizer ao Zico que, quando ele estiver em Milão, está convidado.
Qual é a relevância da ópera hoje?
A ópera é a linguagem mais transversal para todas as civilizações. Não existe na face da Terra quem nunca ouviu uma nota de Puccini. Até os indígenas da Amazônia — é impossível que nunca tenham ouvido o “Vincerò” de Nessun dorma, cantado por Pavarotti, em alguma publicidade. As óperas são a matéria-prima de tantas narrativas populares que vieram depois — no cinema e na TV. Tudo isso é maior do que a nossa capacidade de compreensão. Verdi, Puccini e até Carlos Gomes não são só compositores, são também profetas. Daqui a 500 anos, haverá gente com necessidade de ouvir “Simon Boccanegra”, “La Bohème” ou “O Anel” — todas essas obras ainda têm muitas coisas a nos revelar. Não existe uma nova Bíblia. Mas os profetas continuam a nos revelar coisas novas, a partir de novas leituras. Basta se perguntar: por que ainda há pessoas que consideram irrenunciável a experiência de um espetáculo como “O Anel”?
Mas como atualizar a ópera frente à necessidade de oferecer uma 'experiência' ao espectador, que logo a compartilha nas redes sociais e na cultura de massas?
Ouvi isso muitas vezes depois da pandemia, mas creio que esse tempo já passou. Os teatros na Itália hoje têm mais público do que antes. O Scala está sempre cheio. Mesmo tendo à sua disposição inúmeras narrativas, o espectador ainda não quer perder a experiência ao vivo, nem a excelência. Ontem tivemos "O Crepúsculo dos Deuses", e sabemos que não estamos nem em Bayreuth ou Salzburgo. Mas a qualidade desta Filarmônica, tocando Wagner, é absolutamente única no mundo.
Qual é o critério para encomendar obras inéditas?
Fizemos “O Nome da Rosa”, baseado em Umberto Eco, com um jovem compositor italiano (Francesco Filidei), e o teatro ficou lotado. Não havia mais ingressos. O público reconheceu o livro e o filme e quis ver algo novo. Por isso sou um otimista quanto ao futuro. Ainda vejo muitos jovens curiosos, o que me surpreende. Precisamos encontrar formas de satisfazer o público, e isso não significa trazer música pop para cá. Aqui cabem apenas duas mil pessoas, enquanto eles precisam de 80 mil.
Como o Brasil pode voltar ao Scala: com Carlos Gomes ou com um título novo?
Gomes é um compositor importante — e muito milanês. É uma história única no mundo. Mas há outras possibilidades. Na Itália, o Brasil sempre foi visto como um país distante. Isso pode se tornar uma bela descoberta. Quando penso em Jorge Amado, penso numa poética da vida, da paisagem e da natureza que muitas vezes foram colocadas na categoria do exótico, do realismo mágico, raramente explorado de forma profunda. Mas há muitas histórias possíveis. Por exemplo, o célebre médico nazista [Josef Mengele] que morreu numa praia perto do Rio. Se alguém fizesse algo a partir desse argumento...
O que sobra para arriscar no teatro num mundo tão polarizado pela política?
Deve-se sempre saber o que se está arriscando. Na pior das hipóteses, poderá ser um acidente que depois se supera. No La Fenice [onde a maestra Beatrice Venezi foi nomeada há uma semana, após meses de protesto por suas ligações com a extrema direita], por exemplo, pode ocorrer qualquer coisa. É verdade que o nível pode cair rapidamente, e até mesmo aqui pode ocorrer, mas estamos falando de casas que existem há 200 anos, com um público de sensibilidade. E a música é sempre soberana.
