Pequim segura valorização do yuan sob pressão de EUA e Europa por comércio equilibrado

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Fonte da notícia: Valor Valor

Enquanto os presidentes Donald Trump e Xi Jinping se reúnem nesta semana em meio ao aumento das tensões comerciais, uma antiga demanda do Ocidente volta à cena: permitir a valorização do yuan.

Com o superávit comercial da China a caminho de outro recorde e estimativas indicando que a moeda continua até 30% desvalorizada, economistas e autoridades dos Estados Unidos e da Europa defendem cada vez mais que um yuan mais forte é necessário para reequilibrar os fluxos comerciais e reduzir a pressão sobre fabricantes de outros países.

Antes da cúpula em Washington, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, apresentou a questão menos como um problema cambial e mais como consequência dos amplos subsídios industriais da China e da fraca demanda doméstica. Em agosto, porém, ele pediu aos países do G7 que “examinassem seus termos de comércio com a China” e classificou o crescente superávit comercial chinês como “insustentável”.

As relações comerciais da China com a Europa e os EUA devem continuar tensas enquanto não houver uma correção do desequilíbrio entre poupança e investimento, segundo Chi Lo, estrategista-chefe de mercados da BNP Paribas Asset Management.

“Todas essas medidas protecionistas, como tarifas e cotas de exportação, podem ser adotadas daqui para frente se não encontrarem uma saída por meio da valorização do yuan”, disse Lo.

Poucos analistas, porém, esperam que Pequim ceda à pressão ou aceite um novo Acordo do Plaza, de 1985, que provocou forte valorização do iene frente ao dólar. Autoridades chinesas temem que uma alta rápida do yuan comprima as margens, já estreitas, dos exportadores, aumente o desemprego e agrave as pressões deflacionárias em uma economia que ainda luta para fortalecer a demanda doméstica.

Yuan desvalorizado Em termos nominais, a moeda chinesa se valorizou mais de 6% frente ao dólar nos últimos 12 meses, impulsionada em parte pela queda da moeda americana em meio à incerteza provocada pelas tarifas de Trump e pelo persistente déficit fiscal dos EUA, que reduziu a atratividade de ativos americanos. No entanto, considerando a taxa de câmbio efetiva real, ajustada pela inflação, o yuan é amplamente considerado desvalorizado, em graus que variam, mas são significativos.

Brad Setser, ex-funcionário do Tesouro americano no governo Joe Biden, estima que a moeda chinesa esteja pelo menos 30% abaixo do nível que deveria ter, levando em conta também o forte aumento das importações de ouro pela China, outra forma de reserva cambial. A estimativa supera a avaliação do Goldman Sachs, de desvalorização de 20% em termos ponderados pelo comércio, e quase dobra a estimativa de 16% do Fundo Monetário Internacional (FMI), feita em fevereiro com base na taxa de câmbio efetiva real.

A pressão é mais forte na Europa. O superávit comercial da China com a União Europeia chegou a US$ 412 bilhões em 2025, segundo dados europeus, mais que o dobro do superávit chinês informado pelos EUA. Os dados chineses, que costumam divergir dos de seus parceiros ocidentais, mostram valores diferentes, mas ainda expressivos.

O superávit com a Europa cresceu mais 9% no primeiro semestre de 2026, impulsionado pelas vendas de veículos elétricos e componentes de máquinas.

O chanceler alemão Friedrich Merz e o presidente francês Emmanuel Macron têm pedido nos últimos meses que Pequim permita a valorização do yuan. Desde junho, Merz menciona repetidamente o Acordo do Plaza.

“Da perspectiva europeia, não podemos aceitar no longo prazo competir com uma moeda que vemos desvalorizada em 25% a 30%”, disse Merz em julho, em uma crítica indireta à China. Na semana passada, em um evento comercial em Berlim, foi mais direto ao afirmar que a China combina “deliberadamente” forças de mercado com subsídios estatais, excesso de capacidade, preços agressivos e uma moeda desvalorizada. Ele defendeu “instrumentos eficazes” para responder a isso.

Pequim rejeita reiteradamente a acusação de manter a moeda artificialmente fraca para impulsionar as exportações. Em janeiro, o vice-primeiro-ministro He Lifeng disse que as autoridades “nunca buscaram deliberadamente um superávit comercial”, declaração repetida pelo presidente do banco central chinês, Pan Gongsheng, em uma reunião do G20 neste mês.

Economistas consideram altamente improvável uma rápida valorização do yuan, porque a China não pode se dar ao luxo de abalar a confiança dos exportadores em um momento em que há poucos outros motores de crescimento.

“A valorização é, em grande medida, um consenso de mercado em termos de direção”, disse Xiangrong Yu, economista-chefe para a China do Citi. “A incerteza está mais no ritmo da valorização. Acho que os reguladores vão administrar esse ritmo com muito cuidado.”

Controle cambial Ao contrário de agosto de 2015, quando uma desvalorização abrupta do yuan pelo Banco do Povo da China (PBoC) surpreendeu os mercados globais e obrigou Pequim a gastar quase US$ 1 trilhão em medidas de estabilização ao longo dos anos seguintes, o banco central tem evitado intervenções de grande escala para conter a valorização da moeda.

O PBoC, porém, parece determinado a impedir que o yuan se valorize rápido demais, mesmo com a queda do dólar frente a outras moedas. Para isso, utiliza o sistema de fixação da taxa de câmbio, que mantém o yuan dentro de uma banda diária de 2%, para controlar o ritmo de valorização.

Na sexta-feira (18), o banco central fixou a taxa de referência do yuan em 6,7521 por dólar, o nível mais forte em mais de três anos e meio, ante 7,023 no início do ano. O índice CFETS do renminbi, que mede o yuan frente a uma cesta de moedas ponderada pela participação de cada país no comércio, porém, recuou desde o pico registrado em julho.

A taxa de referência funciona como uma âncora psicológica para operadores que não querem contrariar o banco central chinês, segundo Joseph Gagnon, pesquisador sênior do Peterson Institute for International Economics.

“Provavelmente, eles teriam elevado muito mais a taxa de câmbio se não estivessem preocupados com a possibilidade de o PBoC voltar a intervir”, disse Gagnon, ex-integrante do Federal Reserve. “Isso se torna uma profecia autorrealizável.”

Embora uma valorização rápida do yuan pareça improvável, empresas chinesas já se preparam para oscilações maiores na receita externa provocadas pela moeda doméstica mais forte. Companhias listadas na China continental registraram cerca de 107 bilhões de yuans (US$ 15,9 bilhões) em perdas cambiais no primeiro semestre, segundo cálculos do Nikkei Asia com base em dados da Wind Information.

A fabricante de eletrodomésticos Midea, que gera mais de 40% de sua receita no exterior, teve a maior perda, de 6 bilhões de yuans no primeiro semestre. A empresa compensou parte do impacto com instrumentos de hedge, o que ajudou seu lucro líquido a crescer 2% na comparação anual. A fabricante de veículos elétricos BYD registrou perda cambial de 4,7 bilhões de yuans, e seu lucro líquido caiu 20,5%, com a receita recuando 7%.

Alguns analistas ressaltam diferenças importantes entre a China atual e o Japão de 1985, quando Tóquio assinou o Acordo do Plaza com os EUA e outras potências ocidentais, dando início a um boom dos mercados acionário e imobiliário seguido por uma forte queda. A China já passou por um grande colapso do mercado imobiliário, que levou a uma moeda mais fraca em termos reais, reduziu os preços domésticos e ajudou a impulsionar as exportações.

Ao contrário do que os críticos ocidentais esperam, uma valorização nominal do yuan pode impedir que o superávit comercial continue crescendo, mas não necessariamente reduzir a quantidade de produtos exportados pela China, segundo Adam Wolfe, economista de mercados emergentes da Absolute Strategy Research.

Mesmo após o Acordo do Plaza, que fez o iene dobrar de valor frente ao dólar até 1988, as exportações japonesas não entraram em colapso. Empresas do país automatizaram agressivamente a produção e reduziram custos nas cadeias de fornecimento para sobreviver. Segundo o FMI, o crescimento real das exportações japonesas desacelerou para uma média anual de 2,5% entre 1986 e 1991, ante cerca de 5% nos cinco anos anteriores.

Algo semelhante pode ocorrer na China. Uma forte valorização da moeda reduziria as margens dos exportadores e poderia levá-los a cortar ainda mais os preços para sobreviver, já que o excesso de capacidade doméstica limita a possibilidade de redirecionar a produção para o mercado interno.

“Obviamente, a China não quer seguir o caminho do Japão”, disse Wolfe, prevendo que uma valorização “agravaria a estagnação deflacionária e aumentaria ainda mais o volume das exportações”.

Ao mesmo tempo, alguns analistas apontam razões para Pequim aceitar uma valorização moderada do yuan.

Os economistas do Goldman Sachs Andrew Tilton e Hui Shan calculam que uma valorização anual de 5% frente ao dólar reduziria pela metade a desvalorização de 20% da moeda chinesa em quatro anos, com “impactos marginais na competitividade das empresas chinesas”. Além disso, uma moeda mais forte ajudaria a China a reduzir a diferença em relação aos EUA no tamanho total das economias, uma métrica acompanhada de perto pelas autoridades chinesas.

Sem uma mudança na estratégia de crescimento de Pequim, porém, a China pode ter poucos incentivos para realizar as reformas estruturais dolorosas necessárias para reequilibrar a economia. Embora as autoridades tenham ampliado alguns mecanismos de proteção social, incluindo aposentadorias rurais, têm evitado transferências de renda em grande escala para estimular o consumo das famílias.

Enquanto o apoio doméstico às famílias continuar incremental, a tensão comercial global em torno da máquina exportadora chinesa persistirá, disse Gagnon, do Peterson Institute.

Segundo ele, os formuladores de políticas chineses “simplesmente não parecem entender a dimensão do problema”.

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