Pentágono diz que guerra no Irã custou US$ 25 bilhões em dois meses, enquanto Hegseth depõe no Congresso
O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, prestou depoimento nesta quarta-feira ao Congresso pela primeira vez desde o início da guerra com o Irã, em 28 de fevereiro. A audiência foi marcada por críticas à estratégia do governo e questionamentos sobre os custos do conflito, que, segundo um alto funcionário do Departamento de Defesa, já custou aos cofres americanos cerca de US$ 25 bilhões. O valor, porém, contrasta com o que foi divulgado anteriormente, quando o Pentágono disse que apenas a primeira semana da guerra custou US$ 11,3 bilhões, enquanto grupos independentes estimaram que a despesa pode ter variado entre US$ 28 bilhões e US$ 35 bilhões — ou pouco menos de US$ 1 bilhão por dia.
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A audiência — destinada a discutir o pedido recorde de US$ 1,5 trilhão para o orçamento de defesa do governo — ofereceu aos parlamentares a primeira oportunidade pública de questionar altos funcionários do Departamento de Defesa sobre a guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Hegseth argumentou que o aumento de 40% no orçamento de defesa reverteria anos de subinvestimento, permitindo reforçar cadeias industriais e aumentar a “letalidade e sobrevivência” das forças americanas, além de sustentar projetos como sistemas de defesa antimísseis, aeronaves e embarcações.
— Cada política que adotamos, cada item orçamentário que solicitamos, serve para garantir que o departamento permaneça totalmente focado em aumentar a letalidade e a capacidade de sobrevivência de nossas forças, da linha de frente ao chão de fábrica. Este é um orçamento histórico — disse Hegseth, acrescentando que o “maior desafio” das Forças Armadas são “as palavras imprudentes, irresponsáveis e derrotistas de democratas e alguns republicanos no Congresso”.
O principal democrata da comissão, o deputado Adam Smith, classificou o pedido orçamentário do governo como “irrealista” e acusou Hegseth de insultar aliados dos EUA “gratuitamente” e de agir de forma unilateral no Irã. Ele questionou os objetivos da guerra e cobrou explicações sobre o rumo do conflito, levantando dúvidas sobre a eficácia da guerra. Smith ainda destacou aparentes contradições no discurso do secretário, que, “há 60 dias”, citou uma “ameaça nuclear iminente” para justificar os ataques — mas agora “diz que isso foi completamente destruído”.
— Para onde isso vai? Qual é o plano para alcançar nossos objetivos? Já vimos o custo, e o custo é muito, muito alto — afirmou ele, que, horas antes da audiência, havia dito em entrevista que o objetivo da guerra “não deveria ser apenas destruir coisas”. — Hoje, o programa nuclear do Irã está exatamente como antes. Eles não perderam a capacidade de causar danos. Ainda têm um programa de mísseis balísticos. Ainda são capazes de bloquear o Estreito de Ormuz e possuem os navios capazes de fazer isso. Qual é o plano para mudar esse cenário? E, o mais preocupante, o presidente continua nos dizendo que isso acabou.
Em uma das trocas mais intensas, Hegseth respondeu dizendo que o Irã “não abandonou suas ambições nucleares” e ainda possui milhares de mísseis, enquanto Smith afirmou que a guerra deixou os Estados Unidos “exatamente no mesmo ponto em que estávamos antes”.
Às vésperas das eleições de meio de mandato, em que o custo de vida é tema central, parlamentares republicanos demonstram resistência em defender junto ao eleitorado um aumento de US$ 440 bilhões nos gastos com defesa, que provavelmente exigiria cortes em programas sociais populares. Os bombardeios americanos ao Irã também consumiram grande parte dos estoques de mísseis e bombas de alta tecnologia dos EUA. O Pentágono estimou que os dois primeiros dias da guerra custaram US$ 5,6 bilhões apenas em munições.
Hegseth nega que a guerra tenha esgotado munições essenciais. Ainda assim, uma das justificativas para o aumento expressivo do orçamento de defesa é justamente recompor estoques que vêm sendo intensamente utilizados no conflito — e também na defesa de Israel no ano passado, quando o Irã retaliou o bombardeio de suas instalações nucleares. Em sua fala, o presidente da comissão, Mike Rogers, defendeu o orçamento recorde como forma de reverter décadas de subinvestimento, afirmando que os estoques globais de munição americana estão baixos:
— Isso nos permitirá realmente recuperar o atraso em nossos esforços de modernização, com a rápida incorporação de novas munições, aeronaves, navios, sistemas terrestres, espaciais e autônomos para recompor e expandir nosso arsenal — declarou.
O custo da guerra é de interesse para o Congresso, já que o conflito deve ultrapassar 60 dias nesta semana — momento em que os parlamentares poderão ser chamados a aprovar ou rejeitar a continuidade do uso da força militar no Irã. A Lei de Poderes de Guerra dos EUA estabelece que um governo pode empregar força militar sem aprovação do Congresso por até 60 dias, após os quais o presidente pode solicitar uma extensão de 30 dias ou o Congresso pode votar para autorizar a guerra.
Embora um frágil cessar-fogo esteja em vigor, tentativas no Congresso de limitar os poderes de guerra do presidente Donald Trump fracassaram, mantendo o conflito sem autorização formal do Legislativo. Republicanos, por sua vez, dizem confiar na condução de Trump, mas demonstram preocupação com a duração da guerra e seus efeitos políticos. Parlamentares do partido querem o fim do conflito e consideram futuras votações que podem se tornar um teste para o presidente caso a guerra se prolongue.
O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã — rota estratégica para o transporte global de petróleo — fez disparar os preços da energia e agravou o custo político do conflito. Os EUA responderam com bloqueio naval e reforço militar na região, incluindo o envio de três porta-aviões ao Oriente Médio, enquanto as negociações para encerrar a guerra seguem travadas. O governo Trump avalia com ceticismo uma proposta iraniana que prevê a reabertura do estreito em troca do fim das hostilidades, da suspensão do bloqueio americano e do adiamento das discussões sobre o programa nuclear de Teerã.
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