Em vez de debater honestamente a proposta de Lara Resende, em seus erros e acertos, o mercado prefere crucificar o autor A queda da Bolsa de Valores em 18% na primeira semana após a vitória de Lula foi seguida de nova baixa, de 1,42%, quando se noticiou que o presidente receberia André Lara Resende para uma conversa.
As projeções de inflação e juros e a cotação do dólar seguiram em alta. O economista, um dos autores do Plano Real, ex-presidente do BNDES e ex-diretor do Banco Central, elaborou uma proposta recente de solução do problema da dívida pública com redução dos juros pela metade em um ano, motivo de um ensaiado pânico no mercado financeiro.
Desde a vitória consagradora de Lula nas eleições, o sistema, que preferia Flávio Bolsonaro, pressiona o presidente a indicar um ministro da Fazenda que contemple seus interesses. O petista adia propositalmente a decisão e, segundo o noticiário, analisa três nomes: o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, fundamental na virada do segundo turno, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o atual ocupante do cargo, Dario Durigan.
Durigan negou a existência do convite, disse que o governo discute um ajuste gradual e que o presidente tem direito de consultar quem quiser. Os agentes financeiros, que pressionam Lula, defendem, por sua vez, a proposta perdedora nas eleições, de um corte brutal e no curto prazo de 200 bilhões de reais nos gastos públicos, que comprometeria os benefícios sociais e os compromissos assumidos na campanha.
“A especulação no mercado de divisas é inevitável, pois a finança é contra as ruas e as redes. Que o novo governo defenda um orçamento poroso às demandas democráticas, em respeito às mobilizações de seus eleitores”, propõe o economista Fernando Henrique Lemos Rodrigues, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
A ira do mercado se deve, em boa medida, ao veneno que ele próprio preparou e agora se vê obrigado a ingerir. ”O mercado tinha precificado Flávio como favorito. A chance dele no Polymarket chegou a mais de 80%, e após o 1º turno o Ibovespa subiu 7,7% num único pregão.
Quando um cenário tratado como improvável pelo mercado se realiza, o preço migra abruptamente para o valor do cenário oposto”, diagnostica o economista Dionatan Carvalho, integrante do Conselho Regional de Economia do Maranhão. Polymarket é um mercado de previsão norte-americano baseado em criptomoedas semelhante a uma bet esportiva, que aceita apostas em quase tudo e tem ampla aceitação no mercado financeiro, apesar de ter sido banido do Brasil.
Metade da queda do Ibovespa, prossegue Carvalho, se deve ao aumento dos gastos previstos pelo governo, a outra parte é pura especulação. “A parcela especulativa tende a se reverter em semanas.
A parcela fiscal só se reverte com a política.” O custo da aposta em Flávio Bolsonaro foi amargo. Entre 23 e 27 de outubro, os principais bilionários brasileiros sofreram perdas entre 61 bilhões e 75 bilhões de reais, segundo o Índice de Bilionários da Bloomberg.
“Falar em tabelamento de juros é uma distorção de má-fé”, rebateu o economista No texto intitulado “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, Lara Resende afirma que a causa do desequilíbrio fiscal não é o gasto público primário, como sempre insiste o sistema financeiro, mas a elevada taxa básica de juros mantida pelo Banco Central. O sistema financeiro condenou de imediato o plano, por considerá-lo inflacionário, e a mídia se encarregou de crucificar Lara Resende, acusado de propor um corte de juros “na canetada” ou “por decreto”, com um plano “arriscado” e “perigoso” para a estabilidade econômica.
Muitos economistas consideram, entretanto, que ele restabeleceu o debate a respeito da política monetária e fiscal e travam neste momento intensa discussão de propostas para o Brasil, a partir da contribuição. “Falar em tabelamento de juros é uma distorção de má-fé”, rebateu o economista.
A Selic, destaca Lara Resende, gera um custo insustentável para o serviço da dívida pública e empurra a relação dívida/PIB para uma situação inviável. Ele propõe uma redução gradual da taxa para 7,5%, com uma economia fiscal de cerca de 4% do PIB ao ano, o que estabilizaria a dívida pública e recuperaria a confiança na economia.
Sugere ainda a criação de um conselho fiscal e monetário nacional para coordenar metas fiscais e monetárias de médio prazo e fixação conjunta de metas de inflação e de juros. Na avaliação do economista, reduzir o custo médio da dívida de, aproximadamente, 13% para 7,5% ao ano poderia gerar a economia fiscal apontada.
Alckmin é um dos nomes aventados para assumir o Ministério da Fazenda. O presidente Lula não demonstra, porém, pressa em escolher – Imagem: Cadu Gomes/VPR
As previsíveis desvalorizações cambiais excessivas durante a redução dos juros, provocadas por ataques especulativos, seriam enfrentadas com o uso das reservas internacionais, prevê o plano. Nesse ponto incide boa parte das críticas à alternativa apresentada por Lara Resende.
Vários economistas consideram que a inexistência de uma definição sobre como se estabelecerão as relações entre o câmbio e os juros é um problema sério da proposta. Segundo Luiz Gonzaga Belluzzo, colunista desta revista, “sem tratar dessa questão, não se vai a lugar nenhum. Uma má solução da relação câmbio juros é encrenca para mais de metro.
Ocorre, em geral, por se considerar que a política monetária e o sistema monetário nacional são absolutos, quando não são, porque há o movimento de capitais voláteis sob o comando do dólar”. Um texto de Franklin Serrano e Luiz Eduardo Melin, professores da UFRJ, intitulado “Problemas da proposta de reforma monetária, fiscal e cambial de André Lara Resende”, está entre os mais debatidos em grupos de economistas neste momento.
A primeira observação dos autores é incisiva: “O ajuste cambial é tratado como evento único. Com a conta financeira aberta, juros menores geram pressão contínua sobre o balanço de pagamentos, e as reservas seriam consumidas na mesma medida, tendendo a se exaurir”, criticam.
A economista Monica De Bolle defende a proposta de Lara Resende, que vê como um plano de desindexação da dívida pública brasileira, em um movimento complementar ao Plano Real. “A discussão no Brasil tem de ser essa.
Não tem outra. Primeiro, é preciso que todo mundo compreenda que ou a gente dá continuidade ao Plano Real, iniciado nos anos 90, ou o País vai ficar nessa situação que está ou pior.
Não precisa ser exatamente nos termos colocados pelo André, as pessoas podem discutir os termos. O tratamento vem depois.
Primeiro é preciso ter consenso a respeito do diagnóstico. O André propôs num debate, então vamos debater.”
Para vários economistas, o problema da proposta de Lara Resende reside no uso das reservas cambiais para conter a especulação A economista Simone Deos, professora do Instituto de Economia da Unicamp, defende que o governo não fique acuado em um debate sobre responsabilidade fiscal e cumprimento do arcabouço, nos termos em que tem sido feito.
“Seria mais produtivo deslocar o debate para algo como ‘Uma estratégia de desenvolvimento para o País’. O arranjo macroeconômico precisa estar a serviço disso.
E não o contrário”, sublinha. Há pressões pesadas, prossegue a professora, e resistir a elas vai depender da convicção de um certo núcleo duro do governo de que a estratégia proposta é a correta, bem como de uma certa capacidade de conversa e convencimento com atores relevantes, inclusive do mercado financeiro, mas não só, de que o plano tem racionalidade.
O governo ainda não se definiu por cortes no quarto mandato de Lula, que será, segundo o presidente, a melhor administração de todas do PT, mas “há o risco de que se repita o erro grotesco de ceder ao polo conservador da frente ampla construída”, alerta Rodrigues. “Espero que não se repita o desastre do encerramento de 2014, com ajuste draconiano que fragilizou de maneira irreversível a confiança em Dilma.
Acredito que o caminho sustentável é a viabilização, aproveitando-se o momento de popularidade da transição, de um orçamento de investimento como Keynes defendia. Outro movimento é assegurar o gasto social, que inclua trabalhadores e empreendedores individuais.
As ruas e as redes mobilizaram-se por isso”, lembra o professor da UFRRJ. •
Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026. Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pelo em ovo’
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